Alan Arkin

Sete grandes filmes nem sempre lembrados da Nova Hollywood

Muitos filmes do período conhecido como Nova Hollywood tornaram-se medalhões e figuram facilmente nas listas de melhores de todos os tempos. Obras como O Poderoso Chefão, Bonnie & Clyde, Sem Destino, A Conversação e Chinatown.

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Outros da mesma época, apesar dos prêmios e atores famosos, não ficaram retidos na memória da maior parte do público. A lista abaixo pretende resgatar algumas joias raras que traduzem o espírito do final dos anos 60 e o início dos 70, com várias feridas abertas nos Estados Unidos. Tratam do culto às armas, da ética na imprensa, do vício em drogas, da contestação à ordem, do fim do sonho americano e do cinema como galvanizador de corações e mentes. Não é pouco.

Na Mira da Morte, de Peter Bogdanovich

Astro de antigos filmes de terror, Boris Karloff esteve à disposição do jovem diretor por apenas dois dias, já que ainda mantinha um contrato com o produtor Roger Corman para vencer nesse prazo. Apesar das evidentes deficiências e do parco orçamento, o filme abriu as portas para o cineasta, que pouco depois faria A Última Sessão de Cinema. Foi inspirado no ataque real de um atirador de 16 anos, em abril de 1965.

na mira da morte

Dias de Fogo, de Haskell Wexler

Outra pequena obra de arte da improvisação, com referências à nouvelle vague, sobretudo a O Desprezo, de Godard (com a câmera que se volta ao espectador no encerramento). O diretor era famoso por seus trabalhos como diretor de fotografia e acompanha aqui os passos de um cinegrafista (Robert Forster) nos tumultuados meses de 1968, entre a convenção Democrata de Chicago e os protestos contra o governo.

dias de fogo

Os Viciados, de Jerry Schatzberg

O filme que projetou a carreira de Al Pacino e certamente o levou ao primeiro Chefão, lançado um ano depois. Aborda o relacionamento conflituoso entre dois jovens viciados, frequentadores de um reduto de desregrados conhecido como “parque da seringa”, na Nova York dos anos 70. Entre sequências chocantes, não deixa de ser uma bela história de amor, com altos e baixos, sob a ótica realista do grande diretor.

os viciados

Pequenos Assassinatos, de Alan Arkin

Com amigos do teatro e pequeno orçamento, Arkin conseguiu realizar esse belo filme, sua estreia na direção. Resumi-lo em poucas linhas é trabalho árduo. Trata da relação amorosa entre uma mulher otimista (Marcia Rodd) e um niilista (Elliott Gould), da família excêntrica dela e também de assassinatos em série. O roteiro de Jules Feiffer, a partir de sua própria peça, mostra a violência intrínseca à sociedade americana.

pequenos assassinatos

O Último Filme, de Dennis Hopper

Não deixa de ser um estudo sobre a visão dos nativos em relação aos americanos e ao ato de fazer cinema. Um filme original, com as improvisações comuns à época, e com um diretor que não tinha problema em se assumir um louco. É um faroeste feito no Peru, com um filme dentro de outro e no qual o cineasta torna-se uma espécie de padre, a guiar os nativos. É, sobretudo, sobre o poder do cinema.

a ao último filme

Sonhos do Passado, de John G. Avildsen

Esse drama poderoso desenrola-se em apenas um dia. Do pesadelo de Harry Stoner (Jack Lemmon) ao seu encontro com o oceano, ao fim, o espectador assiste à derrocada do sonho americano. Para sobreviver, Stoner precisa tomar uma medida drástica: atear fogo na própria empresa – com a ajuda de um profissional – para receber o dinheiro do seguro. E, nesse dia, ele ora ou outra retorna ao passado.

sonhos do passado

A Última Missão, de Hal Ashby

Após ser detido tentando furtar 40 dólares, um jovem marinheiro (Randy Quaid) é condenado a oito anos de prisão. Para levá-lo ao cárcere, são designados outros dois oficiais. Tem início então uma jornada de descobrimento: a cada nova parada e bebedeira, esses homens revelam outro olhar sobre suas funções, sobre justiça e sobre aquele país transformado. Mais uma grande atuação de Jack Nicholson.

a última missão

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Argo, de Ben Affleck

A frase que define Argo é de Marx. Nesse caso, o pensador Karl, não o cômico Groucho, como questiona o produtor vivido por Alan Arkin.

A história dá-se primeiro como tragédia, depois como farsa. Ao longo do filme de Ben Affleck também se aplica o oposto: começa como farsa e termina em tragédia. Começa com a história do Irã narrada em quadrinhos, desenho, e termina com aquela moça iraniana, a criada da embaixada canadense, tendo de fugir para o Iraque.

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Se partisse de uma história fictícia, seria difícil crer em Argo. O fato de se basear em um caso real – sobre o resgate de seis americanos escondidos no Irã após a revolução de 1979 – não retira seus traços de falsidade, alimentados pela comédia.

O filme não tem limites ao misturar farsa e tragédia, ao mostrar os iranianos sempre como pessoas más – desconfiadas, tirânicas – ao passo que os ocidentais exploram nelas justamente o desejo pela ficção: elas adoram a farsa das velhas lendas traduzidas pelos filmes de Hollywood, à maneira de Guerra nas Estrelas.

Quando explodiu a Revolução dos Aiatolás, em 1979, os americanos tornaram-se o inimigo número um dos iranianos. A embaixada foi cercada, depois invadida. Affleck abre o filme com a bandeira dos Estados Unidos sendo queimada e fecha com a mesma, na porta da casa do herói, quando este retorna para a família.

Essas e outras manobras do roteiro, tão “perfeito” e calculado, não têm fim: os americanos sempre se comportam como esperado, com medo, com desconfiança, mas com bondade, com o rosto do próprio cineasta – também o protagonista – para lembrar como são as pessoas confiáveis. Tem aquele sorriso raso, quase natural.

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Ele é Tony Mendez, agente da CIA enviado ao Irã para resgatar seis americanos escondidos na embaixada do Canadá. Mendez precisa de uma ideia para ir ao país inimigo e voltar com seus conterrâneos.

Certo dia, o herói é iluminado pela ficção, por Hollywood, quando seu filho assiste um dos filmes da série Planeta dos Macacos. O que pode soar mais atraente aos aiatolás que doses de ficção? Guerra nas Estrelas é justamente sobre a batalha de rebeldes contra o império – ou de povos oprimidos contra os Estados Unidos.

A indústria do cinema é a saída para o plano do agente: Argo, com roteiro, produção e publicidade, é o filme que nunca existiu. É o instrumento de aproximação entre a Casa Branca e os estúdios de Los Angeles, em uma época em que filmes premiados não cansavam de agredir a política externa americana.

Os iranianos reclamavam da ocidentalização do país antes da chegada dos aiatolás ao poder. E é justamente isso que Mendez oferece para derrotá-los: em meio à emoção e ao infantilismo, eles descobrem a história do filme, ao fim, no aeroporto.

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Com seu roteiro “perfeito”, assinado por Chris Terrio, o filme oferece doses de emoção calculadas, com Affleck seguro na direção. Aposta em situações manjadas, como a do telefone que demora a ser atendido, como a dos inimigos que, na última hora, ainda tentam parar o avião antes de ele voar sobre o Irã – e de volta para casa.

Há sempre doses de enganação, como se o filme assumisse ser uma farsa – ainda que, ao fundo, a política dos aiatolás seja a tragédia inescapável. Ao longo de Argo, as ruas do Irã mostram o pior dos lugares para se viver: intermináveis conflitos, mulheres de véu e metralhadora nas mãos, guindastes com gente enforcada.

É o tipo de filme em que a diversão justifica a farsa, para esquecer a realidade, no qual a política corre por caminho estranho, e no qual vale lembrar Groucho, o líder dos Irmãos Marx. Em Hollywood, tudo termina em mentira, em graça.

(Idem, Ben Affleck, 2012)

Nota: ★★★☆☆

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