agente secreto

A Trilogia Jason Bourne

O que torna Jason Bourne um herói é a perda da memória. Ao que indicam seus filmes, antes de perdê-la ele era apenas uma marionete do governo, um agente sem cérebro.

Esse herói que surge ao acaso, sem saber ao certo a origem de sua ação (apenas em reflexos, quando em perigo), nasce de situação estranha: Bourne só pode ser um herói se começar do zero, no instante que começa a “nascer”, ao ser retirado das águas do mar no primeiro filme da série baseada nos livros de Robert Ludlum, A Identidade Bourne.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a identidade bourne

E será no encerramento da terceira parte, O Ultimato Bourne, que a personagem retorna às águas, ao fim, pare renascer novamente. Esse fechamento ao mesmo tempo misterioso e definido é um entre vários pontos de diálogo entre as partes.

Em A Identidade, o herói conhece uma moça (Franka Potente) por acaso. Ao ajudá-lo a chegar a Paris, ela torna-se sua companheira de aventura, depois sua mulher. Em O Ultimato, outra garota passa por sua vida – ainda que já estivesse na história desde o começo – e deixa algumas marcas. É a personagem de Julia Stiles, que, para escapar com Bourne, faz o que fez a outra, no primeiro filme: corta e pinta os cabelos.

A aproximação entre as mulheres produz um clima de déjà vu em O Ultimato, como em Um Corpo que Cai, de Hitchcock, no qual o protagonista – homem recluso, inverso do super-herói – transforma uma amante em outra para satisfazer os próprios desejos.

Mas os filmes da Trilogia Jason Bourne apenas esbarram nessa questão profunda. Em cena estão outras personagens que tocam seu caminho, que pouco a pouco o transformam, ou mesmo o humanizam. O herói, diferente do matador sem alma a serviço do governo americano, descobre igualmente suas fragilidades, seus sentimentos.

A ausência do passado torna-o paradoxalmente humano, ao contrário do que ocorre a muitos protagonistas de fitas de ação. Interpretado por Matt Damon, Bourne dá outra cara aos filmes de espionagem. Tudo graças a si mesmo, à personagem em constante acidente, cujo movimento, da primeira à última parte, leva-o às suas origens. Os filmes terminam e começam com ele.

a supremacia bourne

É a aposta na personagem, sobretudo. E Damon, ainda que pareça quase sempre insuspeito em suas ações, não deixa de ser, primeiro, o garoto americano solto no velho mundo europeu, cheio de perguntas, para se tornar, mais tarde, o homem que precisa encarar seu criador e descobrir o pior: ele queria ser recrutado para servir seu país.

A missão desse herói, nos três, é descobrir a si próprio: é o herói em caminho inverso, adulto o suficiente para se encher com estranhas dores de cabeça, para fazer perguntas antes de apertar o gatilho, para encarar o governo americano, vilão da vez.

Esse pai malvado feito de várias faces, a se revezarem em cada uma das partes, mostra-se inconfiável, produto de um mundo ainda em paranoia, ou parafuso.

O Bourne do primeiro filme é quem mantém as relações evidentes com essa velha ordem, como se a obra de Doug Liman ainda forçasse o cheiro dos velhos filmes anteriores à queda do Muro de Berlim, mas com outro ritmo, sem jogos de charme.

De qualquer forma, nem sempre a velocidade poderá excluir esses antepassados, todas as histórias que, de uma forma ou outra, moldaram algo como Bourne. Pois em A Identidade as lutas não são tão vivas, ou cheias de suor e sangue, como se veria depois.

o últimato bourne

A segunda parte, A Supremacia Bourne, marca a entrada do diretor Paul Greengrass na série. Seu Bourne não muda radicalmente. Apenas se deixa ver mais à medida que seu passado vem à tona, enquanto passa de país em país, de obstáculo em obstáculo.

Com Greengrass, o protagonista deixa ver ainda mais seus hematomas, sua dificuldade em cruzar cada cômodo dos labirintos altos ou baixos de Tânger, no Marrocos, em excepcional sequência de ação de O Ultimato. O Bourne da segunda e terceira partes não é exatamente outro, mas tem algo mais forte: oferece ao público dor intensa.

Encontrar aproximação entre tamanha correria é o que faz do herói de Damon alguém excitante, ao mesmo tempo alguém que não precisa ficar se explicando. O que o espectador sabe sobre ele não é muito diferente do que o próprio sabe sobre si mesmo.

Não há desculpas. A correria impõe-se, pois contra ele há muitas cabeças em algum outro ponto do globo – primeiro com seus velhos computadores quadrados, depois com telas planas, então ainda mais perto deste estranho mundo moderno.

Câmeras, impressões digitais, ligações – qualquer ação deixa marcas. O herói tenta se desviar delas enquanto busca sua identidade, sua história. Como descobre o espectador, Bourne não é Bourne. Ao nascer das águas do mar, no primeiro filme da série, ele começava então uma jornada para se tornar alguém, para forjar outra coisa, sem saber nunca em que dariam suas corridas, suas perguntas sem respostas.

OBS: A análise acima foi escrita antes da estreia de Jason Bourne, de 2016, também dirigido por Paul Greengrass.

(The Bourne Identity, Doug Liman, 2002)
(The Bourne Supremacy, Paul Greengrass, 2004)
(The Bourne Ultimatum, Paul Greengrass, 2007)

Notas:
A Identidade Bourne: ★★★☆☆
A Supremacia Bourne: ★★★☆☆
O Ultimato Bourne: ★★★☆☆

Foto 1: A Identidade Bourne
Foto 2: A Supremacia Bourne
Foto 3: O Ultimato Bourne

Veja também:
As 20 melhores cenas de ação do cinema nos últimos dez anos

O novo Bond

O homem rochoso de Daniel Craig, que bate antes e fala depois, tem mais complexidade do que se poderia pensar. Talvez o ator não dê conta da profundidade, com os contornos de sua própria história em meio às agitadas sequências de ação.

A partir de Cassino Royale, de 2006, com a entrada de Craig, James Bond deixou ver um pouco mais seu interior: o roteiro de Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade, a partir da obra de Ian Fleming, investe em seus sentimentos, em seu passado, e deixa pistas que, mais tarde, seriam exploradas novamente.

quantum of solace

Pode parecer pouco – muito pouco – perto das doses de aventura, ou dos diálogos com inúmeras informações enlatadas, rápidas. Basta piscar para perdê-las.

Nos filmes que retomam a franquia, a partir de 2006, a ação eclipsa o charme do velho Bond, uma de suas marcas registradas. E Craig, por isso, não deixa de ser a escolha certa. Seu passado apenas se anuncia, sem ganhar maior destaque.

Em Cassino Royale, Vesper (Eva Green) chega perto de definir Bond, no primeiro encontro de ambos. Ele também tenta defini-la. Bond, como são os agentes secretos, não tem pátria, vive como andarilho pelo mundo – e, por isso, é órfão.

E talvez seja assim, também, em sua vida privada, desconhecida ao espectador. Na verdade, sequer tem vida privada: seu lado privado também inclui trabalho, pois o agente sempre encontra tempo para ir para a cama com algumas das mulheres que vigia. Vida priva e pública, prazer e trabalho – tudo se confunde.

cassino royale

Entre um país e outro, ele encontra tempo para entrar na casa de sua “mãe”, sua mestra, M (Judi Dench), para acessar o computador dela e encontrar ali alguns dados importantes. É, como se vê, o filho rebelde, despregado, que não deseja agradar.

A única coisa que sabe é fazer seu trabalho, e não se sabe ao certo por que nunca se corrompe – como outros. Bond, rochoso, nada deixa ver além de pequenas partes. Pode amar alguém, como amará Vesper, mas tem problemas em demonstrar isso.

Em Quantum of Solace, ele sempre hesita em declarar para M sua necessidade de acertar as contas com o passado. Para a “mãe”, pode significar a existência de uma concorrente. E, em Cassino Royale, o que faz Bond quando começa a amar de verdade? Deixa o trabalho e sua pátria – talvez a verdadeira mãe, a Inglaterra.

Alguns vilões oferecem um delicioso contraponto ao Bond de Craig – e nenhum deles supera o Silva de Javier Bardem, em Operação Skyfall. A começar pelo jeito efeminado e falador – outro filho rebelde, que volta para matar a “mãe”, e não sem causar confusão à velha pátria.

skyfall

Quantum of Solace começa no exato ponto em que termina Cassino Royle. Há algumas pontas soltas na trama. Os diretores e roteiristas têm pressa. O vilão de Mathieu Amalric é o falso moralista em busca do lucro; depois, com Silva, o vilão assume o lado doentio, mais inclinado a causar o mal do que lucrar. A luta com Bond ganha outro contorno.

Entre socos e explosões, o passado do herói força sua própria entrada: em Operação Skyfall, ele termina no início, ponto em que começa sua história, local em que cresceu, com armas antigas, com velhas maneiras de vencer o inimigo, armado até os dentes com o que há de mais moderno no mundo dos terroristas.

A ação não pode ser culpada pela aparente falta de relevo de Bond. Faz parte do jeito de James, ou de Bond, que não deseja se revelar. Talvez seja ele o mistério da série.

Veja também:
007: Operação Skyfall, de Sam Mendes

Interlúdio, de Alfred Hitchcock

Enquanto Cary Grant tem todas as repostas, todas as certezas, Ingrid Bergman é pura inexatidão em Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Ele é o agente do lado certo, de terno impecável, que não se abala com a bebida e tampouco com o jeito irresistível dela.

Como Alicia, Bergman surge descontrolada, perdida: é a forma que Hitchcock encontrou, a partir do texto de Ben Hecht, para convencer o espectador de que a dama não é uma traidora. Os vilões nazistas não mostravam tamanha inconstância.

interlúdio1

Ao contrário, eles parecem ter certeza de tudo, menos de que ela – filha de um nazista condenado à prisão no início do filme – poderia estar ao lado de heróis como Grant.

O filme passa-se em um Brasil de mentira, todo feito em estúdios, e tem talvez o beijo mais famoso da história do cinema – ao lado daquele de Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol, lançado anos depois.

É para a América Latina que Alicia vai, na companhia de Devlin (Grant). Ao questionar por que ela deveria aceitar a proposta de se infiltrar entre os nazistas, o herói pacato tem a resposta certeira: “patriotismo”. Poderia soar exagerado, afinal ela terá de ir longe demais para descobrir a verdade, inclusive casar com o vilão.

Por outro lado, o roteiro de Hecht leva em conta o calor da época, pouco após a Segunda Guerra, momento em que os crimes nazistas ganhavam clareza e repercutiam mundo afora. Os vilões estavam espalhados pelo mundo.

E se o filme parece ser sobre essa garota que se entrega, surge outro engano: ele é também sobre o agente apaixonado que sofre ao vê-la cumprir a missão. Vive esse dilema: para livrar o mundo do mal nazista, deve entregar a mulher que acabou de conhecer, a garota descontrolada, amorosa, por quem se apaixonou.

interlúdio2

Em entrevista a Peter Bogdanovich, Hitchcock define a obra: “O velho tema do amor e do dever”. E continua: “A tarefa de Grant é fazer com que Bergman vá para a cama com Rains, o outro homem”. Fala de Claude Rains, que vive o nazista Alexander Sebastian, cuja mãe sempre está ao lado, vigilante, vivida por Leopoldine Konstantin.

O roteiro de Hecht deixa para Hitchcock a possibilidade de esculpir um mundo feito de proximidade: a do beijo, a dos olhares, a da desconfiança, a do medo. O controle do diretor é extremo, sempre mostrando com a câmera as mudanças das personagens, sem abusar das palavras, como o momento em que Devlin é observado de cabeça para baixo, quando a câmera inverte a imagem. Ela passa a vê-lo de outra forma.

Por outro lado, essa proximidade nem sempre é definida com certezas: quanto mais perto desses espiões e agentes – em festas, em cavalgadas ou em restaurantes caros –, menos é possível saber algo sobre todos.

Vestem-se com o melhor figurino e fingem a felicidade do pós-guerra, como se ainda fosse possível rir, aliviar-se com paz – enquanto, ao fundo, os planos são arquitetados sem maquiagem. O urânio, por exemplo, está escondido justamente no interior das bebidas que regam as festas de Alicia e Alexander.

interlúdio3

Ao casar com o vilão, ela entrega-se a essa proximidade: rompe o que antes a separava do mal. Da garota tomada pela bebedeira à mulher apaixonada, Alicia tem de interpretar um papel para ser justamente Alicia: a filha de um nazista condenado.

Tal papel é o que esperam dela, nem menos ou mais. Devlin, por outro lado, quase não deixa ver seus sentimentos, e quase nunca faz outro papel além do dele – quase nunca deixa de ser Cary Grant. Sua segurança está em sua gênese: é sua sofisticação que faz com que seja sempre o mesmo homem, apaixonado ou não.

Interlúdio explica-se pelo olhar de Alicia: se é ela – como o expectador – que não tem todas as certezas, suas descobertas – expressas pelas reações, pela face – apontam o caminho ao espectador. Em sua inconstância, ela tem curiosidades, enxerga o mal: está sempre descobrindo e, por isso, é a alma desse filme extraordinário.

Em suma, ela descobre o que Devlin e os outros parecem ter vivido. Ela torna-se a vítima perfeita, encurralada por mãe e filho assassinos, pelos homens em suas reuniões, pelas portas, venenos e todas as tramas de um mundo confuso. Não é o lugar mais esperado para tal história de amor.

Nota: ★★★★★