agente secreto

A Trilogia Jason Bourne

O que torna Jason Bourne um herói é a perda da memória. Ao que indicam seus filmes, antes de perdê-la ele era apenas uma marionete do governo, um agente sem cérebro.

Esse herói que surge ao acaso, sem saber ao certo a origem de sua ação (apenas em reflexos, quando em perigo), nasce de situação estranha: Bourne só pode ser um herói se começar do zero, no instante que começa a “nascer”, ao ser retirado das águas do mar no primeiro filme da série baseada nos livros de Robert Ludlum, A Identidade Bourne.

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a identidade bourne

E será no encerramento da terceira parte, O Ultimato Bourne, que a personagem retorna às águas, ao fim, pare renascer novamente. Esse fechamento ao mesmo tempo misterioso e definido é um entre vários pontos de diálogo entre as partes.

Em A Identidade, o herói conhece uma moça (Franka Potente) por acaso. Ao ajudá-lo a chegar a Paris, ela torna-se sua companheira de aventura, depois sua mulher. Em O Ultimato, outra garota passa por sua vida – ainda que já estivesse na história desde o começo – e deixa algumas marcas. É a personagem de Julia Stiles, que, para escapar com Bourne, faz o que fez a outra, no primeiro filme: corta e pinta os cabelos.

A aproximação entre as mulheres produz um clima de déjà vu em O Ultimato, como em Um Corpo que Cai, de Hitchcock, no qual o protagonista – homem recluso, inverso do super-herói – transforma uma amante em outra para satisfazer os próprios desejos.

Mas os filmes da Trilogia Jason Bourne apenas esbarram nessa questão profunda. Em cena estão outras personagens que tocam seu caminho, que pouco a pouco o transformam, ou mesmo o humanizam. O herói, diferente do matador sem alma a serviço do governo americano, descobre igualmente suas fragilidades, seus sentimentos.

A ausência do passado torna-o paradoxalmente humano, ao contrário do que ocorre a muitos protagonistas de fitas de ação. Interpretado por Matt Damon, Bourne dá outra cara aos filmes de espionagem. Tudo graças a si mesmo, à personagem em constante acidente, cujo movimento, da primeira à última parte, leva-o às suas origens. Os filmes terminam e começam com ele.

a supremacia bourne

É a aposta na personagem, sobretudo. E Damon, ainda que pareça quase sempre insuspeito em suas ações, não deixa de ser, primeiro, o garoto americano solto no velho mundo europeu, cheio de perguntas, para se tornar, mais tarde, o homem que precisa encarar seu criador e descobrir o pior: ele queria ser recrutado para servir seu país.

A missão desse herói, nos três, é descobrir a si próprio: é o herói em caminho inverso, adulto o suficiente para se encher com estranhas dores de cabeça, para fazer perguntas antes de apertar o gatilho, para encarar o governo americano, vilão da vez.

Esse pai malvado feito de várias faces, a se revezarem em cada uma das partes, mostra-se inconfiável, produto de um mundo ainda em paranoia, ou parafuso.

O Bourne do primeiro filme é quem mantém as relações evidentes com essa velha ordem, como se a obra de Doug Liman ainda forçasse o cheiro dos velhos filmes anteriores à queda do Muro de Berlim, mas com outro ritmo, sem jogos de charme.

De qualquer forma, nem sempre a velocidade poderá excluir esses antepassados, todas as histórias que, de uma forma ou outra, moldaram algo como Bourne. Pois em A Identidade as lutas não são tão vivas, ou cheias de suor e sangue, como se veria depois.

o últimato bourne

A segunda parte, A Supremacia Bourne, marca a entrada do diretor Paul Greengrass na série. Seu Bourne não muda radicalmente. Apenas se deixa ver mais à medida que seu passado vem à tona, enquanto passa de país em país, de obstáculo em obstáculo.

Com Greengrass, o protagonista deixa ver ainda mais seus hematomas, sua dificuldade em cruzar cada cômodo dos labirintos altos ou baixos de Tânger, no Marrocos, em excepcional sequência de ação de O Ultimato. O Bourne da segunda e terceira partes não é exatamente outro, mas tem algo mais forte: oferece ao público dor intensa.

Encontrar aproximação entre tamanha correria é o que faz do herói de Damon alguém excitante, ao mesmo tempo alguém que não precisa ficar se explicando. O que o espectador sabe sobre ele não é muito diferente do que o próprio sabe sobre si mesmo.

Não há desculpas. A correria impõe-se, pois contra ele há muitas cabeças em algum outro ponto do globo – primeiro com seus velhos computadores quadrados, depois com telas planas, então ainda mais perto deste estranho mundo moderno.

Câmeras, impressões digitais, ligações – qualquer ação deixa marcas. O herói tenta se desviar delas enquanto busca sua identidade, sua história. Como descobre o espectador, Bourne não é Bourne. Ao nascer das águas do mar, no primeiro filme da série, ele começava então uma jornada para se tornar alguém, para forjar outra coisa, sem saber nunca em que dariam suas corridas, suas perguntas sem respostas.

OBS: A análise acima foi escrita antes da estreia de Jason Bourne, de 2016, também dirigido por Paul Greengrass.

(The Bourne Identity, Doug Liman, 2002)
(The Bourne Supremacy, Paul Greengrass, 2004)
(The Bourne Ultimatum, Paul Greengrass, 2007)

Notas:
A Identidade Bourne: ★★★☆☆
A Supremacia Bourne: ★★★☆☆
O Ultimato Bourne: ★★★☆☆

Foto 1: A Identidade Bourne
Foto 2: A Supremacia Bourne
Foto 3: O Ultimato Bourne

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O novo Bond

O homem rochoso de Daniel Craig, que bate antes e fala depois, tem mais complexidade do que se poderia pensar. Talvez o ator não dê conta da profundidade, com os contornos de sua própria história em meio às agitadas sequências de ação.

A partir de Cassino Royale, de 2006, com a entrada de Craig, James Bond deixou ver um pouco mais seu interior: o roteiro de Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade, a partir da obra de Ian Fleming, investe em seus sentimentos, em seu passado, e deixa pistas que, mais tarde, seriam exploradas novamente.

quantum of solace

Pode parecer pouco – muito pouco – perto das doses de aventura, ou dos diálogos com inúmeras informações enlatadas, rápidas. Basta piscar para perdê-las.

Nos filmes que retomam a franquia, a partir de 2006, a ação eclipsa o charme do velho Bond, uma de suas marcas registradas. E Craig, por isso, não deixa de ser a escolha certa. Seu passado apenas se anuncia, sem ganhar maior destaque.

Em Cassino Royale, Vesper (Eva Green) chega perto de definir Bond, no primeiro encontro de ambos. Ele também tenta defini-la. Bond, como são os agentes secretos, não tem pátria, vive como andarilho pelo mundo – e, por isso, é órfão.

E talvez seja assim, também, em sua vida privada, desconhecida ao espectador. Na verdade, sequer tem vida privada: seu lado privado também inclui trabalho, pois o agente sempre encontra tempo para ir para a cama com algumas das mulheres que vigia. Vida priva e pública, prazer e trabalho – tudo se confunde.

cassino royale

Entre um país e outro, ele encontra tempo para entrar na casa de sua “mãe”, sua mestra, M (Judi Dench), para acessar o computador dela e encontrar ali alguns dados importantes. É, como se vê, o filho rebelde, despregado, que não deseja agradar.

A única coisa que sabe é fazer seu trabalho, e não se sabe ao certo por que nunca se corrompe – como outros. Bond, rochoso, nada deixa ver além de pequenas partes. Pode amar alguém, como amará Vesper, mas tem problemas em demonstrar isso.

Em Quantum of Solace, ele sempre hesita em declarar para M sua necessidade de acertar as contas com o passado. Para a “mãe”, pode significar a existência de uma concorrente. E, em Cassino Royale, o que faz Bond quando começa a amar de verdade? Deixa o trabalho e sua pátria – talvez a verdadeira mãe, a Inglaterra.

Alguns vilões oferecem um delicioso contraponto ao Bond de Craig – e nenhum deles supera o Silva de Javier Bardem, em Operação Skyfall. A começar pelo jeito efeminado e falador – outro filho rebelde, que volta para matar a “mãe”, e não sem causar confusão à velha pátria.

skyfall

Quantum of Solace começa no exato ponto em que termina Cassino Royle. Há algumas pontas soltas na trama. Os diretores e roteiristas têm pressa. O vilão de Mathieu Amalric é o falso moralista em busca do lucro; depois, com Silva, o vilão assume o lado doentio, mais inclinado a causar o mal do que lucrar. A luta com Bond ganha outro contorno.

Entre socos e explosões, o passado do herói força sua própria entrada: em Operação Skyfall, ele termina no início, ponto em que começa sua história, local em que cresceu, com armas antigas, com velhas maneiras de vencer o inimigo, armado até os dentes com o que há de mais moderno no mundo dos terroristas.

A ação não pode ser culpada pela aparente falta de relevo de Bond. Faz parte do jeito de James, ou de Bond, que não deseja se revelar. Talvez seja ele o mistério da série.

Veja também:
007: Operação Skyfall, de Sam Mendes