África colonial

Preto e Branco em Cores, de Jean-Jacques Annaud

O racional, entre tantos idiotas e desmiolados, é um geógrafo louro e discreto. Suas confissões, em carta, apontam a alguém decidido a tratar os negros, na África sob dominação europeia, de maneira diferente. Homem raro, a certa altura envolvido na Primeira Guerra Mundial e, como os demais, tentando sobreviver.

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Revela, nessas confissões, não ter encontrado a África descrita nos grandes romances sobre tempos coloniais. Ao contrário, deparou-se com um reino de pequenos animais, povo tranquilo e pastoril, ao qual, em Preto e Branco em Cores, recaem moscas, sol escaldante, pobreza, olhares desconfiados, simplicidade, bocas de poucos dentes.

Retrato que, somado à comédia, surte estranheza: é verdadeiro, às vezes cru, ao passo que o diretor Jean-Jacques Annaud coloca no ambiente não mais que figurinos. Está tudo ali, nada tão diferente de décadas passadas, à espera desse pedido de desculpas nada formal. É uma crítica ao homem branco que se julga superior e termina vítima do ridículo.

O mais correto – ou o que mais se candidata a tal – terminará como agente dominante: nas linhas finais, Hubert Fresnoy (Jacques Spiesser) confessa ser um socialista, ainda que seu instinto de sobrevivência leve-o a atropelar ideologias. De porto seguro ele passa ao pior retrato dessa história: da comédia maliciosa, um pouco como Renoir ou Altman, chega-se ao cinismo, como que saído de um filme de Buñuel.

Para vencer a guerra, Fresnoy decide unir forças aos negros e, mais tarde, na maior das ironias, é abraçado pelos britânicos. Percebe que seus colegas desmiolados são incapazes de enfrentar os alemães em solo africano. Está certo: diversos combatentes negros terminam atingidos e mortos em campo aberto, enquanto os franceses, crentes em sua superioridade, ainda se reúnem à sombra, em piquenique ao modo colonial.

O filme de Annaud é antibélico, ri da pequenez desses homens. Em certo momento, um deles celebra a travessia de um pequeno riacho como se cruzasse um grande rio, seguido pela boiada, em um faroeste de Hawks. Um deles leva a bandeira. São bufões que falam alto, contam vantagens e se assustam a cada som estranho.

Em passagem elucidativa, os homens brancos dizem aos nativos que são mais fortes porque creem em um Deus mais forte. Andam de bicicleta para provar algo extraordinário. Em outro momento, os negros cantam sobre o cheiro de esterco que sai dos pés dos brancos, ao mesmo tempo em que o colonizador, carregado, confessa gostar da canção.

A igreja, os militares e os pequenos comerciantes estão unidos por interesses comuns. Fingem patriotismo, coragem, cantam a Marselhesa. Ninguém se salva. É da comédia que Annaud serve-se na maior parte desse interessante filme de estreia. Duela com o realismo em sua opção por uma câmera livre que mais flagra do que penetra.

O cineasta apresenta, nas mudanças finais, misturas difíceis de acreditar: “preto e branco em cores”. As convicções de Fresnoy nunca são completamente claras. É uma personagem camaleônica, fascinante, de rapazote a líder de face fechada, para franceses idiotizados. A principal arma do colonizador – e que vale ao homem da guerra – é a inteligência.

(La victoire en chantant, Jean-Jacques Annaud, 1976)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
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