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Dez grandes filmes sobre nossos tempos de violência

A lista abaixo agrupa filmes de diferentes épocas com algo em comum: todos oferecem retratos devastadores das consequências de uma sociedade violenta. Filmes que, mesmo com a aparência de certa gratuidade, não terminam na tela.

Violência ao Meio-Dia, de Nagisa Oshima

Duas mulheres mantêm uma relação estranha com um estuprador e assassino. Uma delas foi salva e abusada pelo criminoso, a outra se casou com ele. Relutam em entregá-lo à polícia. A certa altura, o filme leva a uma floresta, à abordagem do suicídio. Esse filme extraordinário de Oshima nem sempre é lembrado.

O diretor aposta em uma narrativa não linear, diferentes tempos que levam ao encontro das mesmas pessoas em cena. Começa como um filme policial, de abuso, segue a um drama em que as mesmas duas mulheres questionam seus papéis nessa sociedade insana. Até se aproximarem do suicídio, do impensável.

A Sangue Frio, de Richard Brooks

Do livro de Truman Capote, o filme é visualmente belo, com fotografia do mestre Conrad L. Hall. A música é de Quincy Jones. Brooks produziu e dirigiu. O próprio Capote confessou não ter gostado tanto do resultado final. Em cena, a viagem de dois assassinos rumo a um assalto que se transforma em massacre.

Interessante observar que Brooks dá a Robert Blake um papel profundo, e o mesmo não faz feio: seu homem, a despeito das aberrações praticadas, nunca chega a ser um monstro. O filme não é fácil. Essa jornada real, claro, não poderia terminar bem. Para complemento, vale assistir ao ótimo Capote, de Bennett Miller.

Se…, de Lindsay Anderson

Antes de ficar imortalizado pela imagem de Alex, em Laranja Mecânica, Malcolm McDowell entregou-se a outro rapaz violento nesse filme sobre a repressão em uma escola britânica, sob a ordem religiosa. Mescla cores com o preto e branco. Um estudo poderoso da revolta entre jovens.

Levou a Palma de Ouro em Cannes em 1969, um ano após o festival ser cancelado devido ao Maio de 68. Fica claro, pelo escolha, uma Palma alinhada àquele tempo, do novo contra o velho, sem julgamentos fáceis. Anderson fez outros bons filmes, nenhum à altura deste.

Cães Raivosos, de Mario Bava

Diferente de outros filmes que o fizeram famoso, no campo do terror sobrenatural, o mestre italiano vai aqui ao espaço do possível, da realidade, da violência. Aborda um sequestro, o confinamento de diferentes pessoas – bandidos e sequestrados – no interior de um carro. É sobre o tempo, sobre o suor visto em cada face.

Os homens são como cães: estão presos a uma certa condição. E nem as vítimas serão exatamente quem parecem ser. Entre os homens, ou cães, há uma mulher. O desejo pelo sexo surge facilmente, parte ao abuso, o que faz elevar a tensão. Um filme que merece ser descoberto e que prova a versatilidade de Bava.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

O homem crê-se guiado por força maior para “limpar” a cidade da sujeira que assola. No táxi, vaga como um caubói, logo armado, com faca presa à bota, pistola acoplada a um dispositivo de metal que a faz correr pelo braço. Estará pronto – com o cabelo moicano – para enfrentar seus algozes, pronto para a guerra.

Certa noite, esse homem (Robert De Niro) quase atropela uma jovem prostituta (Jodie Foster). Aproxima-se da menina, deseja salvá-la. O roteiro é de Paul Schrader, que, diz a lenda, teria se inspirado em Rastros de Ódio, de Ford, no qual um pistoleiro percorre meio mundo para salvar a sobrinha, raptada pelos índios.

A Isca, de Bertrand Tavernier

O diretor, também crítico e historiador, realizou algumas pérolas que merecem destaque. Uma delas é A Isca, que ficou com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, desbancando Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, e O Vício, de Abel Ferrara.

É a história de três adolescentes franceses que sonham abrir uma loja nos Estados Unidos. Animados pela violência de filmes como Scarface, de Brian De Palma, decidem cometer um crime que termina em assassinato. A isca em questão é a bela Marie Gillain. Retrato de uma geração vazia.

O Invasor, de Beto Brant

Dois homens, sócios em uma empreiteira, unem-se para matar uma terceira figura metida nesses negócios. O filme é uma denúncia pesada – ainda atual – sobre a união dos extremos, sobre um Brasil confuso, no qual uma certa classe média alta recorre à bandidagem da ala baixa para se manter no poder.

Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges) contratam um homem que, em cada poro do corpo, transpira mal-estar, Anísio (Paulo Miklos). O problema é que o contratado quer mais, passa a invadir a vida dos outros dois. Brant é um dos grandes diretores surgidos no período da Retomada.

Elefante, de Gus Van Sant

À frente, a tragédia de Columbine, quando dois meninos armados invadiram uma escola americana e abriram fogo, armados até os dentes, contra outros adolescentes. Ao fundo, uma incursão – em planos longos – por corredores povoados ora por jovens esperançosos, ora por figuras vazias, em um dia que deveria ser como outro qualquer.

As feridas da tragédia real ainda eram evidentes quando Van Sant resolveu fazer esse filme, com elenco quase inteiro desconhecido. Em cena, o comportamento de rapazes e meninas em um local onde todos, alienados ou não, são vítimas. Jovens contra jovens, algo difícil de compreender.

O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

O que se convencionou chamar de classe C ganha espaço nesse filme vibrante, sem vilões claros, tragédia que começa com o desaparecimento de uma criança. Levadas à delegacia, os envolvidos no caso, entre suspeitos e vítimas, começam a dar seus relatos ao delegado.

É quando vem à tona a relação extraconjugal do explosivo Bernardo (Milhem Cortaz) com a jovem e bela Rosa (Leandra Leal). Apaixonada, desesperada, também excluída, a moça decide se vingar do amante e se aproxima de sua família. Torna-se amiga de sua mulher, Sylvia (Fabiula Nascimento). O desfecho é brutal.

A Gangue, de Miroslav Slaboshpitsky

Filme sem diálogos feito por elenco de jovens surdos-mudos. Experiência visceral no interior de um internato. Ali, os adolescentes formam um grupo criminoso, a gangue do título. A obra segue um recém-chegado em sua jornada com os outros, em seu interesse por uma menina que se prostitui para caminhoneiros em local afastado.

Não há concessões. O filme tem cenas violentas. Ainda que pareça clichê a expressão, o silêncio é aqui ensurdecedor. Slaboshpitsky expõe essa caminhada com calma. Contra as doses de crueldade fica o sentimento visto no protagonista. Em poucos momentos, ele ainda consegue se desviar da “escola do crime”.

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Elle, de Paul Verhoeven

As personagens de Elle, de Paul Verhoeven, vivem segundo as regras da aparência. Em certo sentido, limitadas como estão, vivem também movidas à vergonha: não suportam olhar para si mesmas, e por isso apelam às máscaras.

A personagem central, Michèle Leblanc, rompe essa barreira quando um homem mascarado rompe – mais de uma vez – a porta de sua casa, quando invade o ambiente para violá-la. O estupro concede ao filme outra camada. O que poderia ser o início de uma depressão, de medo constante, torna-se uma mudança estranha.

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Não significa que Michèle tenha prazer pelo estupro. Ao contrário, ela arma-se para estar pronta para o estuprador, em qualquer nova invasão – e esta, saberá o espectador ao longo de Elle, é uma certeza: ora ou outra o criminoso deverá retornar.

O que a faz romper o estado anterior – refletido na vida burguesa, a começar pelos amigos, pelos jantares, pelas festas que frequenta – é o estupro. Ela decide não se calar e passa a ser um incômodo: diz ao filho que seu primogênito não é dele, resolve confessar à melhor amiga que é o amante de seu companheiro, e talvez realmente ceda, em partes, à beleza do estuprador, mais próximo do que imaginava.

Ela rompe a camada à qual todas essas pessoas são levadas, na qual se veem protegidas, aquecidas por uma aparência de quietude – contra a vergonha também nítida em alguns. Não demora nada para que Michèle confesse: “a vergonha não é um sentimento suficientemente forte para nos impedir de fazer o que quer que seja”.

O filme de Verhoeven impõe, nessa mesma personagem, a dificuldade de culpá-la – ou mesmo de culpar seu autor. Há quem veja misoginia. Mas Michèle não pode ser explicada com facilidade, na maneira como se movimenta e busca (ou não) a vingança contra o agressor, ou contra todos que, como ele, escondem-se em máscaras.

Por isso, não é exatamente um filme sobre estupro: é sobre como essa mulher mobiliza todos ao redor, ou os testa, ou os confunde, para chegar ao ponto em que amputa a vergonha, a falsidade, ponto em que pode até mesmo sentir excitação pelo agressor.

Eis o problema: há uma estranha zona entre a violência e o prazer, pela qual a mesma protagonista passa a circular. E, não por acaso, a personagem está à frente de uma empresa de games repletos de violência – não por acaso, de monstros contra mulheres.

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A violência, de um lado, assimilada, como espetáculo guiado, que parece indolor; e, de outro, a violência da pele, do ato sexual, que oferece ao mesmo tempo um jogo – entre a protagonista e o agressor – e a inevitável constatação de um crime, algo a repudiar.

A violência do estuprador só pode se existir enquanto houver a vítima. Quer dizer, o medo, a mulher acossada, que talvez se deixe violentar. Quando essa mulher mostra aceitação – e, talvez, pitadas de prazer –, o agressor perde as forças e recua.

Na televisão, a imprensa deixa espaço para os extremos: o assassino que segue preso após matar diversas pessoas (o pai de Michèle) e o papa, que emite apenas sinais de bondade – às câmeras, pelo menos. Não há nada ao centro, entre esses extremos.

Filme complexo guiado com força por Verhoeven, que retorna ao universo feminino. A ajudar, uma grande atriz em grande momento. A pequenez de Isabelle Huppert não impede que imploda, a certa altura, contra os homens, ou todos que ainda ousam se esconder. Seu corpo grita, desde o início, quando é violada, e quando volta a ser.

A obra começa com a violação, com os olhos do cúmplice, o gato, que nada pode fazer senão assistir ao crime. Início com rompimento, barulho, mudança no curso da vida da protagonista, que decide agir contra a vergonha e adere à transformação.

(Idem, Paul Verhoeven, 2016)

Nota: ★★★★☆

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O Clube, de Pablo Larraín

Os padres não demoram a confessar seus pecados. Tal confissão é sempre estranha, sem jeito, como se não pudessem revelar seus problemas. Há sempre a necessidade de manter as aparências, a ordem. É dessa necessidade que trata O Clube, de Pablo Larraín.

A base dessa ordem dá-se às escuras, em uma região sem sol, à beira-mar, em uma casa que abriga quatro padres e a criada do local. Os líderes religiosos reclusos são pedófilos. Foram colocados ali para serem esquecidos, a mando da Igreja, sem que pagassem por seus crimes. São “esquecidos” enquanto tentam conviver com o passado.

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Larraín não deixa ver mais do que seres decrépitos e estranhos. Apenas um deles, Vidal (Alfredo Castro), aproxima-se do espectador e deixa enxergar (ou quase) seus pecados – e, por isso mesmo, é mais humano e palpável. Mas há outra explicação para essa proximidade: em diálogo revelador com o padre enviado à casa de repouso, ele diz que seu cão humaniza-o, e oferece assim uma resposta elegante ao público.

Difícil, portanto, a tarefa do espectador: entender o que esses homens são nessa vida reclusa. E, por isso, não resta mais que a aparência de um universo à beira do fim, no qual a câmera passa longe da revelação. Ao contrário, perde o contato com o real em seu granulado constante, em um meio borrado pela indecisão, pela paralisia, pela dificuldade de ver ações concretas. É de mal-estar que fala esse trabalho extraordinário.

A trama que se desenha em tom escuro nasce com o suicídio de um padre, o quinto que chega para integrar o clube. Com esse novo integrante vem uma de suas vítimas, um homem com aparentes problemas mentais que, na parte externa da casa, grita os pecados do “santo homem” agora colocado em quarentena.

Suas palavras são verdadeiras: dão detalhes sobre os abusos, sobre o tempo em que era criança e, mais ainda, o drama de quem não conseguiu seguir em frente: continuou à espreita de seu velho padre abusador, um espírito sem caminho.

O padre, ainda nesse início perturbador, sucumbe às palavras de sua antiga vítima: toma uma arma dada por outro padre, vai ao lado de fora da casa e se suicida com um tiro na cabeça. E os demais logo se encarregam de encontrar outra versão ao caso.

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Ao longo do filme, Larraín utiliza dois recursos narrativos interessantes para o espectador entender o meio e suas personagens: o primeiro é a inclusão de pequenas situações, mais de uma vez, em que os padres estão separados, em seus afazeres diários; o segundo é a confissão, em entrevistas, ao jovem padre que chega ao local.

A construção permite que todas essas pequenas situações e histórias passadas ajudem a entender o drama do local em que nada ocorre, ou parece não ocorrer – à exceção do suicídio da abertura e do espancamento do inocente, ao fim.

Nessa história de busca pela ordem, as personagens sempre deixam ver, aos cantos, o desejo reprimido, a dificuldade de se assumir. Larraín trabalha com esconderijos, com ofuscamento, nunca com a evidência. São os restos de uma instituição arcaica.

(El Club, Pablo Larraín, 2015)

Nota: ★★★★☆

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Sete filmes contundentes que abordam a pedofilia

O assunto é delicado, causa revolta. Alguns dos filmes abaixo não buscam entender as vítimas e preferem o olhar dos adultos – policiais, familiares, jornalistas e até os próprios criminosos. Outros, como o documentário Leaving Neverland, dá voz aos que sofreram os abusos. São, no geral, filmes contundentes, sobre crimes que muitas vezes começam nos ambientes menos imaginados, como a Igreja e a própria família. À lista.

Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki

A vida de uma família é colocada de cabeça para baixo quando, em 1987, a polícia prende o professor de informática Arnold, acusado da prática de pedofilia. O poderoso documentário de Jarecki, indicado ao Oscar, mostra o drama dos familiares ao descobrirem que, além do pai, o filho mais velho também participava desses crimes.

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O Lenhador, de Nicole Kassell

Fita pequena e provocadora sobre um pedófilo (Kevin Bacon) que tenta se reintegrar à sociedade enquanto lida com seus desejos. O desespero aumenta quando ele aluga um apartamento de frente a uma escola infantil e passa a ver os movimentos de outro pedófilo pelo local. O mérito do filme é não lançar julgamentos fáceis.

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Polissia, de Maïwenn

A rotina de uma delegacia francesa voltada a crimes contra crianças, a BPM (Brigada de Proteção dos Menores). Em meio aos policiais, uma fotógrafa desajeitada (a própria diretora) acompanha os casos e dramas particulares – o difícil dia a dia de profissionais em meio aos problemas que, em maior parte, começam dentro de casa.

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A Caça, de Thomas Vinterberg

Um suposto caso de pedofilia é a saída para o diretor Vinterberg discutir a intolerância. Moradores de uma pequena cidade passam a perseguir um professor, mesmo sem provas sólidas, quando uma criança – filha do melhor amigo do protagonista – diz ter sido molestada pelo homem. Como o professor, Mads Mikkelsen ilumina a tela.

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O Clube, de Pablo Larraín

Obra magistral, em tons escuros e à beira-mar, quase sempre fria, sobre padres afastados da Igreja. Eles são quase esquecidos após alguns crimes contra crianças e outros membros da instituição religiosa. Ainda no início, com um novo padre, surge por ali uma das vítimas, que relata os abusos. É o suficiente para mudar a rotina do local.

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Spotlight: Segredos Revelados, de Tom McCarthy

Padres e vítimas pouco aparecem. O filme dá espaço à investigação dos jornalistas do Boston Globe: em um espetacular trabalho para unir as peças, por meses eles apuraram inúmeros casos de pedofilia envolvendo padres da Igreja Católica. Pior ainda, descobriram como a instituição escondia os mesmos crimes.

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Leaving Neverland, de Dan Reed

Produzido pela HBO e lançado em duas partes, o documentário traz a história de dois homens que, quando garotos, teriam sido abusados sexualmente por Michael Jackson. Os relatos são fortes e a obra rapidamente ganhou polêmica. Fãs do cantor e seus familiares atacaram os rapazes que se dizem vítimas, companheiros de Michael em viagens, shows, publicidade e, claro, em estadas em Neverland.

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A Caça, de Thomas Vinterberg

As crianças não mentem, acreditam os adultos de uma pequena cidade em A Caça, de Thomas Vinterberg. Não, pelo menos, com a intenção de prejudicar alguém ou com a consciência do que pode acontecer depois.

As crianças criam suas próprias histórias. Ao que parece, passam a acreditar nelas. A criança em questão, no filme de Vinterberg, diz à diretora da pequena escola que um de seus funcionários mostrou-lhe as partes íntimas.

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A diretora choca-se: crê cegamente que as crianças não mentem. E, mais tarde, as crianças ajudam a entender o motivo dessa crença: elas estão no altar de uma igreja, quando a vida do suposto culpado, Lucas (Mads Mikkelsen), já foi destruída.

São como anjos. O pobre adulto é o diabo entre todos. A igreja, então, assume posição de destaque no filme, que vai além do suposto caso de pedofilia. As pessoas da cidade são intolerantes, não querem tentar ouvir ou entender o acusado. Seus anjos não poderiam dizer nada que escape à verdade.

Não se trata de culpar a criança. Os culpados não são vistos com facilidade, como mostra a sequência final: quem puxa o gatilho contra Lucas não é uma pessoa, mas toda a sociedade. Todos são tomados pelo ódio fácil: expulsam Lucas de espaços públicos, matam seu cão, não sentam ao seu lado na igreja.

É no interior dela, por sinal, que ele precisa encarar seu melhor amigo, o pai da menina que o acusou de abuso. Ele revolta-se, levanta, pede que o amigo encare-o. Pelo olhar, e menos pelas palavras, deseja que os outros vejam a verdade.

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Ainda assim, as opções de Vinterberg são curiosas. O olhar de Lucas, mais tarde, retorna para cruzar com o da menina. O que pensam? O que sabem que todos parecem não saber? Ao espectador, melhor acreditar na inocência quando há dúvida. Melhor do que simplesmente se deixar tomar pelo ódio precipitado, como todos os outros.

O protagonista tem esse mistério. Questiona o espectador. Sua explosão demora a ocorrer. Ao mesmo tempo, é humano demais, homem simples que brinca todos os dias com as crianças da escola, comporta-se como pessoa exemplar.

O título refere-se à caça aos cervos, na floresta, também à caça ao protagonista. Ou mais: refere-se a essa sociedade acostumada a caçar, que precisa ter sua vítima e seu opressor, que não pode ver nada entre anjos e demônios, entre inocentes e culpados.

O tiro ao fim serve de aviso. As pessoas ao redor continuam a observar e a culpar o protagonista. O que prevalece está oculto sob as luzes do crepúsculo – mais do que a inocência ou a culpa. Ou atrás do olhar de diferentes homens, no momento em que o filho de Lucas ganha seu primeiro rifle, seu direito à caça.

(Jagten, Thomas Vinterberg, 2012)

Nota: ★★★★☆

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