A Vênus das Peles

Atores vivendo atores (em seis filmes recentes)

Atores convivem com conflitos e demônios. Alguns são excêntricos, vivem interpretando, como Norma Desmond no clássico Crepúsculo dos Deuses. Nesse filme de 1950, Billy Wilder parece ter criado o estereótipo da estrela em crise. A sensação de proximidade à loucura é constante.

Nos anos seguintes, atores interpretaram atores de maneiras diversas no universo da sétima arte, em personagens do teatro, do cinema ou mesmo da televisão. Seis exemplos recentes, na lista abaixo, mostram atores que se aventuram entre o real e a ficção.

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Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman

O protagonista, diretor de teatro interpretado por Philip Seymour Hoffman, perde a mulher, a filha e ganha um prêmio em dinheiro. Com ele, investe em seu próximo trabalho: a montagem de sua própria vida. Ali, pessoas que antes ocupavam seu dia a dia são levadas ao palco, ou ao grande galpão no qual Nova York é diminuída. Em seu primeiro filme na direção, Kaufman explora o desejo pelo controle em um universo às vezes em miniatura, às vezes gigante.

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Vocês Ainda Não Viram Nada, de Alain Resnais

Outra incursão entre vida e arte, ou no ponto em que tudo é parte de um único jogo, um único truque. Passa-se em um castelo, no qual um grupo de atores é convidado por um dramaturgo a assistir um filme, a montagem do espetáculo em que todos atuaram no passado. Resnais coloca esses atores novamente frente a frente, obrigados a reviver suas personagens. Fusão interessante entre teatro e cinema, em outro trabalho original do criador de O Ano Passado em Marienbad.

vocês ainda não viram nada

A Pele de Vênus, de Roman Polanski

Um diretor de teatro sem muita paciência (Mathieu Amalric) cede seu tempo à candidata a personagem central de uma adaptação de A Vênus das Peles. Ela (Emmanuelle Seigner) pouco a pouco o domina. Transforma-o em objeto, enquanto Polanski explora a interessante batalha entre sexos: a certa altura, a mulher bela e predadora passa então a conduzir a leitura da peça e chega a sugerir uma nova cena. Ele não resiste e é dominado.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Gerou amor e ódio entre a crítica brasileira: há quem tenha visto um trabalho original sobre o teatro e com críticas ao cinema; outros enxergaram puro espetáculo vazio. Famoso pelo papel do super-herói Birdman nos cinemas, Riggan (Michael Keaton) tenta a volta por cima a partir de uma adaptação de Raymond Carver. Entre palco e bastidores, delírios e golpes de realidade, ele reencontra o estranho caminho do sucesso, não sem reencontrar sua velha personagem.

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Acima das Nuvens, de Olivier Assayas

A atriz interpretada por Juliette Binoche, Maria Enders, confronta a passagem do tempo quando morre um de seus amigos, famoso dramaturgo. Na esteira desse drama, Maria deverá retornar à antiga peça que lhe deu fama, dessa vez em outra personagem. O papel que antes a projetou cai agora no colo de uma jovem atriz em ascensão, com os traços que Hollywood adora, interpretada por Chloë Grace Moretz (em ascensão na vida real). A preparação para o trabalho exigirá de Maria um pouco de confinamento, na companhia da secretária, a jovem Valentine (Kristen Stewart).

acima das nuvens

Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

Após décadas entre altos e baixos, Bogdanovich revisita a comédia screwball, o cinema de Hawks (como não lembrar Suprema Conquista?) e o mundo excêntrico dos artistas. A atriz em ascensão, nesse caso, é uma ex-prostituta (Imogen Poots). Ela conta suas memórias – sua versão – para uma jornalista. Em um de seus trabalhos noturnos, teria recebido ajuda de um diretor de teatro e, mais tarde, em um teste, conquista todos com sua naturalidade – para o desespero do mesmo diretor. Ninguém esconde a farsa, todos interpretam.

um amor a cada esquina

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A Pele de Vênus, de Roman Polanski

A mulher que visita o diretor de teatro é a personagem de sua peça, uma invasora que deverá desestabilizá-lo. É a mulher que sabe tudo sobre ele, sobre a história que adaptou e levará aos palcos, e que vai ao teatro para reinterpretar a obra de Leopold von Sacher-Masoch.

Por trás de A Pele de Vênus, de Roman Polanski, há mais do que a batalha entre sexos: em cena, o diretor de teatro esconde-se em sua peça, nega seu próprio olhar. Não demora a revelar suas fraquezas e saca algumas desculpas: ao ser confrontado pela mulher, Vanda (o nome da personagem do livro de Sacher-Masoch, A Vênus das Peles), declara que a obra original é ambígua e, por isso, permite diferentes leituras.

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Ele, Thomas, fala de uma história de amor; Vanda, a bela oponente, atriz que aparece em um fim de tarde para participar do teste de elenco, defende que se trata de uma história de sadomasoquismo, sobre dominação – neste caso, feminina.

Talvez por medo de assumir sua vontade de ser o escravo, é mais fácil para o diretor apelar à suposta ambiguidade. No entanto, Vanda é esperta o suficiente para penetrá-lo, como se o conhecesse há tempos.

A mulher – bela, não mais uma garota, sem medo de expor gordura a mais – primeiro se faz de vítima. Depois, joga-se sobre o homem raquítico que talvez não saiba muito sobre o sexo oposto – ou não saiba o suficiente sobre si mesmo, o suficiente para assumir suas vontades, sua tendência a se deixar dominar, ser escravo. Ela agiganta-se.

Após chegar atrasada, Vanda consegue ser ouvida e participar do teste. Aos poucos, ela conduz a leitura do texto: parece saber mais sobre a obra do que o próprio diretor, que, ao mesmo tempo, não esconde deslumbre e atração, também o incômodo.

Ela vai além: prepara a luz do palco, veste Thomas para que ele interprete Severin e chega a sugerir o ensaio de uma cena que não está na versão do diretor. O texto sempre trafega entre a obra a ser levada ao palco e a vida dele, ou a situação de ambos, um caso entre homem e mulher. Por outro lado, nada se sabe sobre ela.

Vanda é a própria personagem, talvez o delírio do diretor, avisado sobre seus desejos e limitações. Não tem história, não tem passado. Existe apenas para confrontá-lo: é a vingança do sexo feminino contra o olhar dele, masculino. Sem nunca dizer, ela põe às claras a fraqueza do outro: fica evidente, a certa altura, que ele não passa de um hipócrita intelectual escondido em sua versão da peça, condutor das várias mulheres – mas nenhuma Vanda – que participam do teste.

O filme de Polanski é feito todo com dois atores, um homem e uma mulher: de um lado, o apequenado Mathieu Amalric; do outro, a voluptuosa Emmanuelle Seigner.

Por algum tempo, o diretor levou ao cinema histórias de mulheres perseguidas por homens, reprimidas e condenadas – como Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary, Chinatown e Tess. Com Busca Frenética, o diretor apresenta Seigner, que entra na vida do homem pacato (Harrison Ford) e dá ao filme um toque especial.

A atriz casou-se com Polanski. Desde então, ela tem sido agraciada pelo companheiro com papéis sob medida, como em A Pele de Vênus. Enquanto lança questões sobre o texto do oponente, sua Vanda apresenta o poder como sedução. Suas armas estão naquele pequeno espaço, na arte de interpretar, viver no palco.

(La Vénus à la fourrure, Roman Polanski, 2013)

Nota: ★★★☆☆

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