A Palavra

A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman

O estupro seguido de assassinato choca o espectador. Impossível esquecer o rosto da menina, a bela Birgitta Pettersson, enquanto olha ao algoz, enquanto escorre sangue por sua face, depois de ser golpeada. Ela não tinha motivos para duvidar das maldades até então: era apenas uma menina pura que seguia para a igreja, em dia de sol.

Sua morte será um teste ao espectador quando são cometidos outros crimes em A Fonte da Donzela. Nas situações que se seguem, seu pai ficará frente a frente com os assassinos. Por sinal, encontrará os criminosos antes mesmo de encontrar o corpo da filha, pela floresta. Os responsáveis aparecem em sua propriedade por acaso, ganham abrigo.

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Ingmar Bergman mostra como os preceitos cristãos sucumbem ao desejo de vingança, à violência como saída, ao “olho por olho, dente por dente”. O pai não consegue se controlar. Ainda pensa, sofre sem fazer algo, sem dizer. Investe contra uma árvore no alto de um morro e, por instantes, Bergman oferece apenas ele, em plano geral, tentando, com força e fúria, derrubar a mesma árvore, ao menos incliná-la, retirar suas folhas.

Sob o olhar de Bergman, os crimes seguintes serão tão cruéis quanto o primeiro. Há entre as vítimas uma criança, além de dois adultos. São três irmãos. Na manhã seguinte, quando o pai da menina ataca os culpados, subitamente eles parecem mais humanos. O efeito é estranho: no momento da morte, frágeis, tentam escapar da casa fechada.

O pai vingador, interpretado por Max von Sydow, converte-se agora no algoz, aos olhos da mulher, a mais religiosa das personagens. Tomada igualmente pela dor da perda, ela deseja que se faça a vingança. Bergman leva primeiro à realidade; o extraordinário vem depois.

Ao encontrarem o corpo da menina na mata, sua família e moradores das redondezas assistem a um milagre: do espaço em que estava seu corpo jorra água em abundância, surge uma fonte à qual se lança uma das personagens, uma mulher grávida (Gunnel Lindblom), a típica impura vista com desconfiança por todos ao redor.

O gesto de Bergman, a partir do roteiro de Ulla Isaksson, tem efeito semelhante ao de Carl Theodor Dreyer no encerramento de A Palavra: o milagre, nessas histórias, é o ponto de rompimento com o materialismo, com os movimentos até então explicáveis, atos medidos pela razão ou, como é o caso de A Fonte da Donzela, pela inevitável selvageria.

Ambos os filmes confinam o espectador nas relações do grupo, de poucas pessoas, entre famílias, ambientes em que todos se conhecem. Há os aceitos, os adaptados; há os que se despregam, que ousam confrontar os outros. Em Bergman, a mulher solteira e grávida, que crê nos deuses nórdicos, não no cristianismo; em Dreyer, o filho que diz ser Jesus Cristo. Convivem entre todos, ainda que se separem o tempo todo.

Nesses filmes, a prisão é iminente. São sufocantes, estreitam a visão, levam o público a mergulhar em universos que não escondem certo esquematismo, nos quais não há coincidências. Em A Fonte da Donzela, os criminosos não poderiam ir a outro lugar senão à casa da família da vítima. Naquela noite, o pai não poderia negar o abrigo, o espaço na mesa, a cama com palha à criança com frio.

E à mesma criança um dos moradores da grande casa conta a história que resume o todo, parábola sobre o confinamento, sobre a chegada da morte. Fala da fumaça trêmula presa à casa, como se “estivesse com medo”, enquanto “só precisa do ar, e lá fora tem todo o espaço para si”. Mas ela, a fumaça, não sabe. Fica por ali.

Na manhã seguinte, quando o pai volta-se aos criminosos, um deles tenta escapar pelo vão do teto, como a tal fumaça trêmula. Tarde demais. Por algum motivo inexplicável, essas pessoas são conduzidas sempre ao mesmo caminho, à sombra da morte, ao passo que o espectador – ainda que relute, que recorra à consciência – deverá desejar a vingança perpetrada pelo pai, contra os homens que atacaram sua menina não muito longe dali.

(Jungfrukällan, Ingmar Bergman, 1960)

Nota: ★★★★☆

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A puta e a santa

20 grandes filmes que abordam a religiosidade

No cinema, a fé nem sempre move montanhas. Há casos em que ela só traz problemas, mais ainda em filmes com tom crítico, sobre fanatismo e intolerância. Por outro lado, a fé pode levar diferentes personagens, em diferentes séculos, a estranhas descobertas, à constatação de que o mundo é maior – e mais material – do que parece.

Sem dúvida, mundo estranho, a abarcar diferentes posições religiosas, toneladas de incompreensão e, felizmente, a arte como resposta, como reflexão sobre esses diferentes olhares – aos quais a lista abaixo, com filmes variados, pretende apontar.

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Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger

Em ambiente afastado, à beira do abismo, freiras confrontam outra cultura e seus próprios desejos nessa obra-prima.

narciso negro

Domínio de Bárbaros, de John Ford

Henry Fonda é o padre perseguido por um governo totalitário da América Latina nesse filme repleto de momentos memoráveis.

domínio de bárbaros

O Diário de Pároco da Aldeia, de Robert Bresson

Quanto mais próximo das pessoas, mais o padre ao centro levanta questões sobre a existência e até mesmo sobre sua própria vocação.

diário de um pároco da aldeia

A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

Um dos membros de uma família do campo acredita ser Cristo e, para o susto de sua família, talvez veja o inimaginável.

a palavra

A Harpa da Birmânia, de Kon Ichikawa

Após não convencer um grupo de soldados sobre a derrota do Japão, na Segunda Guerra, harpista vê a morte e converte-se em monge.

a harpa da birmania

Léon Morin, o Padre, de Jean-Pierre Melville

Em tempos de guerra, o padre de Belmondo atrai o olhar das mulheres. Uma delas, ateia, não encontra respostas na Igreja.

leon morin

Luz de Inverno, de Ingmar Bergman

Os tempos de incerteza, de bombas, não deixam respostas: o pastor de uma igreja entra em crise de fé ao não reconfortar um fiel.

luz de inverno

O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini

O melhor filme já feito sobre Cristo. Pasolini, ateu e homossexual, dizia não ser religioso e que a tônica da obra estava na poesia.

o evangelho segundo são mateus

Simão do Deserto, de Luis Buñuel

Outra crítica do diretor espanhol – autor do “Sou ateu, graças a Deus” – à Igreja, ao abordar a história de um eremita tentado pelo Diabo.

simon do deserto

Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski

É sobre o famoso pintor do século 15 e suas andanças pelo mundo, suas dúvidas e seus encontros inesperados.

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A Grande Testemunha, de Robert Bresson

Todo filme de Bresson toca a religiosidade. Nesse caso, acompanha-se o burrinho, animal inocente que cruza a vida de diferentes pessoas.

O Homem que Não Vendeu Sua Alma, de Fred Zinnemann

Sem abandonar seus princípios religiosos, Thomas More não aceita o novo casamento do rei Henrique 8º, o que o leva à prisão.

o homem que não vendeu sua alma

Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zeffirelli

A história de São Francisco de Assis, da vida rica à condição de pobreza, depois ao encontro com o papa. Um dos filmes mais famosos de Zeffirelli.

irmão sol irmã lua

Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat

Vencedor da Palma de Ouro, inclui o caminhar de um padre que, no desfecho, chega a tentar o milagre para salvar a vida de uma criança.

sob o sol de satã

Ondas do Destino, de Lars Von Trier

A busca por satisfazer os desejos do marido inválido transforma uma mulher ingênua e religiosa em vítima dos ortodoxos de sua igreja.

ondas do destino

Maria, de Abel Ferrara

Um funcionário de um canal de televisão não consegue se comunicar com Deus; em paralelo, uma atriz interpreta Maria, mãe de Cristo.

maria

A Fita Branca, de Michael Haneke

À beira da Primeira Guerra, comunidade religiosa sofre com estranhos casos de violência enquanto alguns questionam a origem do mal.

a fita branca

Homens e Deuses, de Xavier Beauvois

Caso real passado na Argélia, sobre o massacre de monges franceses que tentaram resistir à presença de grupos armados.

homens e deuses

14 Estações de Maria, de Dietrich Brüggemann

Em 14 episódios, a via-crúcis de uma garota: os ensinamentos do padre, a intolerância da mãe, a culpa por desejar um garoto e a “crucificação”.

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Fé Corrompida, de Paul Schrader

Padre questiona a própria fé ao conhecer uma garota e seu marido suicida. Schrader bebe na fonte de Bergman e Bresson.

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Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore

30 grandes filmes, há 60 anos

Não é exagero: 1955 tem tanto peso ao cinema quanto 1939. Talvez não tenha o mesmo número de filmes americanos importantes, mas tem todos os ingredientes que dariam vez ao cinema moderno, além de filmes com contornos clássicos.

Lançados há 60 anos, alguns desses filmes abordam a juventude, têm grandes diretores que ainda não tinham chegado ao topo, outros que terminavam a carreira, além da façanha de antecipar movimentos como a nouvelle vague e o cinema novo. Ano para não esquecer.

30) Sementes de Violência, de Richard Brooks

Professor pacato tem de conviver com os conflitos de uma nova geração. O filme de Brooks marcou época e tem na abertura o som de “Rock Around The Clock”.

sementes de violência

29) Geração, de Andrzej Wajda

Primeiro filme de Wajda, sobre a luta de resistência polonesa contra tropas nazistas. É o primeiro da Trilogia da Guerra, da qual fazem parte Kanal e Cinzas e Diamantes.

geração

28) A Trapaça, de Federico Fellini

Trapaceiros profissionais encabeçados pelo bonachão Broderick Crawford fingem ser homens da igreja para levar dinheiro de fieis em pequenas vilas pobres da Itália.

a trapaça

27) Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos

Filme brasileiro que abriu caminho ao cinema novo da década seguinte, com um panorama da “cidade maravilhosa”, seus abismos e, claro, o futebol.

rio 40 graus

26) As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot

Para compensar a falta de talento de Véra Clouzot há a presença de Simone Signoret nesse suspense sobre duas mulheres (amante e esposa) unidas para matar um homem.

as diabólicas

25) Noite e Neblina, de Alain Resnais

Marcante documentário sobre a memória do Holocausto, com imagens em cores dos campos de concentração e outras da época dos fatos, com doses de horror.

noite e neblina

24) Conspiração do Silêncio, de John Sturges

Homem misterioso e correto desembarca em pequena cidade perdida no mapa para investigar um assassinato. É o suficiente para deflagrar diferentes conflitos.

conspiração do silêncio

23) Ricardo 3º, de Laurence Olivier

Mais lembrado pela adaptação de Hamlet, Olivier levou às telas – com fotografia extraordinária – essa exuberante história de cobiça a partir de Shakespeare.

ricardo 3

22) O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger

O diretor só conseguiu fazer esse trabalho graças à presença de Frank Sinatra. À época, tratar o uso de drogas ilícitas no cinema era algo novo e poderia causar afronta.

o homem do braço de ouro

21) Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel

Filme de serial killer que segue a mania de Buñuel sobre a impossibilidade de concretizar um ato. Algo sempre dá errado quando a personagem tenta matar alguém.

ensaio de um crime

20) Sorrisos de Uma Noite de Amor, de Ingmar Bergman

Traições entre diferentes casais embalam a comédia de Bergman, com a presença luminosa de Harriet Andersson, empenhada a provocar um rapaz puritano.

sorrisos de uma noite de amor

19) A Morte de um Ciclista, de Juan Antonio Bardem

Grande filme mexicano sobre um casal que mata acidentalmente um ciclista, à estrada, e tem a vida transformada quando há a suspeita de que alguém teria presenciado o crime.

a morte de um ciclista

18) Quinteto da Morte, de Alexander Mackendrick

Contra os experientes bandidos está o impensável: a pacata senhora que acredita se tratar de um grupo de músicos profissionais. Última comédia dos Estúdios Ealing.

quinteto da morte

17) Abandonada, de Francesco Maselli

Rapaz burguês tem a vida transformada ao hospedar uma família pobre em sua fazenda, nos tempos de guerra. A certa altura, ele vê-se obrigado a lutar com a resistência.

abandonada

16) A Rosa Tatuada, de Daniel Mann

Presença de força, Anna Magnani é a mulher deixada pelo marido e que tem de cuidar da filha. A certa altura, conhece outro homem, vivido pelo ótimo Burt Lancaster.

a rosa tatuada

15) Stella, de Mihalis Kakogiannis

A presença da atriz Melina Mercouri entrou para a história do cinema, interpretando uma cantora que seduz homens diversos e não aceita ser domada.

stella

14) Grilhões do Passado, de Orson Welles

O mestre Welles interpreta mais uma figura curiosa, Gregory Arkadin, com um trabalho estranho a um homem perdido no mundo: investigar sua própria vida.

grilhões do passado

13) Império do Crime, de Joseph H. Lewis

Com toques expressionistas, a obra de Lewis tem sequências magistrais. Segue a corrida do policial vivido por Cornel Wilde, no rastro do chefão do crime e preso às sombras.

império do crime

12) Juventude Transviada, de Nicholas Ray

Com O Selvagem e Sementes de Violência, o filme de Ray coloca o jovem definitivamente nas telas do cinema. Nesse caso, o rebelde sem causa.

juventude transviada

11) Férias de Amor, de Joshua Logan

O forasteiro recém-chegado à cidade arranca suspiros das mulheres: com o peito nu, sem raízes, ele logo se envolve com a garota mais bela do local.

férias de amor

10) La Pointe-Courte, de Agnès Varda

Antes dos filmes que deram vez à nouvelle vague, no fim dos anos 1950, a diretora Varda utilizou parcos recursos e conseguiu antecipar o movimento.

La Pointe-Courte

9) Rififi, de Jules Dassin

Após ir embora dos Estados Unidos, perseguido pelo macarthismo, Dassin realiza esse grande filme de assalto. A sequência do roubo, meticulosa, entrou para a história.

rififi

8) Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Melodrama classe A, talvez o melhor de Sirk ao lado de Palavras ao Vento, sobre o amor (quase) impossível entre uma mulher madura e seu jardineiro.

tudo que o céu permite

7) Casa de Bambu, de Samuel Fuller

No Japão cheio de americanos do pós-guerra, a bandidagem ianque lucra alto enquanto policiais infiltrados tentam descobrir os tentáculos dessa organização.

casa de bambu

6) A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

Como o típico filme noir, as mulheres são inconfiáveis, o chão é um tabuleiro de xadrez e a surpresa final, nesse caso, ainda permite a abertura da Caixa de Pandora.

a morte num beijo

5) Lola Montes, de Max Ophüls

Último filme do mestre Ophüls, mais uma de suas obras-primas. Chegou a ser mutilado na época e só mais tarde ganhou a versão que o diretor desejava.

lola montes

4) Vidas Amargas, de Elia Kazan

O rapaz deslocado de James Dean é um inconformado: deseja ajudar o pai a todo custo e reencontrar a mãe. De quebra, talvez acabe apaixonado pela namorada do irmão.

vidas amargas

3) A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

A religião divide mais do que une nesse grande filme de Dreyer, com a incrível sequência final, capaz de emocionar até os espectadores mais céticos.

a palavra

2) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray

A primeira parte da Trilogia de Apu é também o primeiro filme de seu diretor, sobre a difícil vida de um garoto em região rural da Índia, em meio à pobreza absoluta.

a canção da estrada

1) Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton

Com os dedos tatuados e amedrontador, às vezes até engraçado, Mitchum é o vilão perfeito, o falso pregador que persegue duas crianças inocentes.

o mensageiro do diabo

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