A Morte num Beijo

Repo Man – A Onda Punk, de Alex Cox

Filmes como Repo Man – A Onda Punk dizem tanto sobre tanta coisa – sociedade, guerra, visita alienígena, alienação juvenil – que obrigam o público a se prender ao essencial. Nesse caso, um jovem punk que se transforma após ingressar em um novo trabalho, que passa a vestir roupas comportadas para se integrar à sociedade.

O rapaz em questão é Emilio Estevez, cujo mínimo esforço deixa ver o trágico, o fracasso dessa civilização. Um jovem cansado, sem rumo. Caso o espectador prefira algo mais explícito, há tudo o que o rodeia: drogas, sujeira, gangues, assaltos, assassinatos, guerras.

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A visão futurista de Alex Cox prefere o passado. O cineasta não se importa em ser datado. Mais que o futuro, vê-se o retrato – às vezes cômico, às vezes absurdo – de um país verdadeiro e pulsante, de forças descontroladas que dão vez ao mesmo rapaz, aos ladrões de carros com permissão para roubar, às conspirações do governo.

Há também a questão alienígena. O monstro – o outro, o desconhecido, aquilo que não tem forma, apenas luz – está preso ao porta-malas de um antigo Chevy Malibu guiado por muitas personagens antes de levantar voo e partir para as estrelas. O caminho não poderia ser outro: nem os alienígenas viram-se interessados por essa civilização de punks, de latas sobre rodas, de falsos pastores na televisão.

E nem a esperança de uma nova civilização serve à velha carcaça do universo delineado por Cox: os alienígenas, coitados, foram abandonados no banco de trás de um veículo. Nesse sentido, Otto (Estevez) é apenas o acidente, a exemplo de muitas personagens de filmes de ficção científica: gente comum que esbarra na conspiração e se vê perseguida.

Otto é um bandido sem saber. Se sabe, não divide com o público. Personagem de pouca consciência, guiada apenas pela emoção: nas trombadas dos carros, ou dos corpos em uma festa punk, ele encontra graça. Nem por isso a personagem difícil de entender. Quando chega em sua casa, em sequência-chave, depara-se com o pai e a mãe paralisados na frente da televisão, enquanto assistem ao discursos de um pastor.

O dinheiro que deveria servir à formação de Otto foi entregue pelos pais a essa igreja virtual, televisionada, sob a figura do mesmo pregador que, ao fim, será sacado para enfrentar os alienígenas – ou a luz que explode do porta-malas, a força sem forma, a queimar o objeto que os homens encontraram para guiar suas vidas: a Bíblia Sagrada.

O filme tem outras figuras estranhas. Harry Dean Stanton serve tão bem à farsa quanto Estevez. É, com seu rosto levemente deformado, jeito embriagado, a personagem perfeita ao ambiente dos ladrões de carros, ou “agentes do confisco” (tradução possível para Repo Man), profissão criada para um futuro caótico, ou um passado real.

Repo Man – A Onda Punk não é exatamente uma ficção científica. Tudo grita a favor de sua época. Explode. A luz alienígena é a Caixa de Pandora, como a mala que lança luzes e destrói o que há ao redor, aberta no clímax de A Morte Num Beijo, noir de Robert Aldrich. O surgimento e o fim da vida, ou, em Repo Man, o convite a outra galáxia.

A certa altura, o protagonista que restou – punk convertido em menino de negócios – assiste às tragédias pela televisão. As notícias não são agradáveis: americanos teriam lançado napalm sobre mexicanos. Outra guerra, talvez. Enquanto o cinema americano tentava atropelar as lembranças da década anterior com dramas familiares, Cox realizava um filme de alienígenas sobre o caos da América.

(Repo Man, Alex Cox, 1984)

Nota: ★★★★☆

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Dez loiras fatais do cinema

Elas compõem o grupo das damas fatais, ou femme fatales, que por muito tempo povoou o cinema noir americano. São mulheres perigosas, capazes de tornar a vida dos companheiros um verdadeiro inferno. Boa parte delas não ama. Algumas ainda mostram sentimentos e podem se transformar ao fim. Abaixo, dez loiras de filmes inesquecíveis.

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Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

O diretor Billy Wilder confessou que a peruca loira era proposital. A ideia era tornar Stanwyck uma “mulher barata”. Sua composição é assustadora e histórica.

Barbara Stanwyck

Cora Smith (Lana Turner) em O Destino Bate à Sua Porta

Difícil esquecer a primeira aparição de Smith, a loira aproveitadora em um restaurante à beira da estrada, casada com o homem errado, sob os flertes de John Garfield.

o destino bate à sua porta

Elsa Bannister (Rita Hayworth) em A Dama de Shangai

Tão perfeita quanto Hayworth no papel – o oposto da Gilda de cabelos volumosos – é o “pato” interpretado por Orson Welles, também diretor e então marido da atriz.

a dama de shangai

Gabrielle (Gaby Rodgers) em A Morte Num Beijo

A falsidade e o desejo ficam claros na forma como ela alisa a mala, a suposta Caixa de Pandora. Ela engana o anti-herói de Ralph Meeker e, a certa altura, ousa abrir a caixa.

a morte num beijo

Madeleine/Judy (Kim Novak) em Um Corpo que Cai

Em meio ao jogo que inclui o medo de altura do herói de James Stewart, ela terá novamente de assumir os cabelos loiros ao fim, ser sua velha personagem.

um corpo que cai

Marnie Edgar (Tippi Hedren) em Marnie, Confissões de uma Ladra

O terreno é, de novo, o de Hitchcock, com suas relações psicanalíticas, sobre uma ladra compulsiva e um ricaço que talvez deseje fazer amor com ela enquanto esteja roubando.

marnie

Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

Não é muito bonita. Torna-se cada vez mais estranha, repulsiva: mata pequenos animais, faz jogos com a mulher do amante e até leva o filho dele para passear.

atração fatal

Catherine Tramell (Sharon Stone) em Instinto Selvagem

Lembrada pela cruzada de pernas, Stone está à vontade e se deixa levar pelo jogo perigoso. Paul Verhoeven acerta o tom nessa homenagem aos homens fracos do cinema.

instinto selvagem

Lynn Bracken (Kim Basinger) em Los Angeles: Cidade Proibida

Hollywood abriga figuras falsas, prostitutas com rostos de atrizes. É o caso de Bracken, sósia de Veronica Lake, que coloca os dois protagonistas e policiais a seus pés.

los angeles cidade proibida

Laure/Lily (Rebecca Romijn) em Femme Fatale

Os filmes de Brian De Palma sempre foram acusados de beber na fonte de Hitchcock. Os ingredientes são irresistíveis: a bela fatal, o mundo do cinema e identidades trocadas.

femme fatale

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30 grandes filmes, há 60 anos

Não é exagero: 1955 tem tanto peso ao cinema quanto 1939. Talvez não tenha o mesmo número de filmes americanos importantes, mas tem todos os ingredientes que dariam vez ao cinema moderno, além de filmes com contornos clássicos.

Lançados há 60 anos, alguns desses filmes abordam a juventude, têm grandes diretores que ainda não tinham chegado ao topo, outros que terminavam a carreira, além da façanha de antecipar movimentos como a nouvelle vague e o cinema novo. Ano para não esquecer.

30) Sementes de Violência, de Richard Brooks

Professor pacato tem de conviver com os conflitos de uma nova geração. O filme de Brooks marcou época e tem na abertura o som de “Rock Around The Clock”.

sementes de violência

29) Geração, de Andrzej Wajda

Primeiro filme de Wajda, sobre a luta de resistência polonesa contra tropas nazistas. É o primeiro da Trilogia da Guerra, da qual fazem parte Kanal e Cinzas e Diamantes.

geração

28) A Trapaça, de Federico Fellini

Trapaceiros profissionais encabeçados pelo bonachão Broderick Crawford fingem ser homens da igreja para levar dinheiro de fieis em pequenas vilas pobres da Itália.

a trapaça

27) Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos

Filme brasileiro que abriu caminho ao cinema novo da década seguinte, com um panorama da “cidade maravilhosa”, seus abismos e, claro, o futebol.

rio 40 graus

26) As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot

Para compensar a falta de talento de Véra Clouzot há a presença de Simone Signoret nesse suspense sobre duas mulheres (amante e esposa) unidas para matar um homem.

as diabólicas

25) Noite e Neblina, de Alain Resnais

Marcante documentário sobre a memória do Holocausto, com imagens em cores dos campos de concentração e outras da época dos fatos, com doses de horror.

noite e neblina

24) Conspiração do Silêncio, de John Sturges

Homem misterioso e correto desembarca em pequena cidade perdida no mapa para investigar um assassinato. É o suficiente para deflagrar diferentes conflitos.

conspiração do silêncio

23) Ricardo 3º, de Laurence Olivier

Mais lembrado pela adaptação de Hamlet, Olivier levou às telas – com fotografia extraordinária – essa exuberante história de cobiça a partir de Shakespeare.

ricardo 3

22) O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger

O diretor só conseguiu fazer esse trabalho graças à presença de Frank Sinatra. À época, tratar o uso de drogas ilícitas no cinema era algo novo e poderia causar afronta.

o homem do braço de ouro

21) Ensaio de um Crime, de Luis Buñuel

Filme de serial killer que segue a mania de Buñuel sobre a impossibilidade de concretizar um ato. Algo sempre dá errado quando a personagem tenta matar alguém.

ensaio de um crime

20) Sorrisos de Uma Noite de Amor, de Ingmar Bergman

Traições entre diferentes casais embalam a comédia de Bergman, com a presença luminosa de Harriet Andersson, empenhada a provocar um rapaz puritano.

sorrisos de uma noite de amor

19) A Morte de um Ciclista, de Juan Antonio Bardem

Grande filme mexicano sobre um casal que mata acidentalmente um ciclista, à estrada, e tem a vida transformada quando há a suspeita de que alguém teria presenciado o crime.

a morte de um ciclista

18) Quinteto da Morte, de Alexander Mackendrick

Contra os experientes bandidos está o impensável: a pacata senhora que acredita se tratar de um grupo de músicos profissionais. Última comédia dos Estúdios Ealing.

quinteto da morte

17) Abandonada, de Francesco Maselli

Rapaz burguês tem a vida transformada ao hospedar uma família pobre em sua fazenda, nos tempos de guerra. A certa altura, ele vê-se obrigado a lutar com a resistência.

abandonada

16) A Rosa Tatuada, de Daniel Mann

Presença de força, Anna Magnani é a mulher deixada pelo marido e que tem de cuidar da filha. A certa altura, conhece outro homem, vivido pelo ótimo Burt Lancaster.

a rosa tatuada

15) Stella, de Mihalis Kakogiannis

A presença da atriz Melina Mercouri entrou para a história do cinema, interpretando uma cantora que seduz homens diversos e não aceita ser domada.

stella

14) Grilhões do Passado, de Orson Welles

O mestre Welles interpreta mais uma figura curiosa, Gregory Arkadin, com um trabalho estranho a um homem perdido no mundo: investigar sua própria vida.

grilhões do passado

13) Império do Crime, de Joseph H. Lewis

Com toques expressionistas, a obra de Lewis tem sequências magistrais. Segue a corrida do policial vivido por Cornel Wilde, no rastro do chefão do crime e preso às sombras.

império do crime

12) Juventude Transviada, de Nicholas Ray

Com O Selvagem e Sementes de Violência, o filme de Ray coloca o jovem definitivamente nas telas do cinema. Nesse caso, o rebelde sem causa.

juventude transviada

11) Férias de Amor, de Joshua Logan

O forasteiro recém-chegado à cidade arranca suspiros das mulheres: com o peito nu, sem raízes, ele logo se envolve com a garota mais bela do local.

férias de amor

10) La Pointe-Courte, de Agnès Varda

Antes dos filmes que deram vez à nouvelle vague, no fim dos anos 1950, a diretora Varda utilizou parcos recursos e conseguiu antecipar o movimento.

La Pointe-Courte

9) Rififi, de Jules Dassin

Após ir embora dos Estados Unidos, perseguido pelo macarthismo, Dassin realiza esse grande filme de assalto. A sequência do roubo, meticulosa, entrou para a história.

rififi

8) Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

Melodrama classe A, talvez o melhor de Sirk ao lado de Palavras ao Vento, sobre o amor (quase) impossível entre uma mulher madura e seu jardineiro.

tudo que o céu permite

7) Casa de Bambu, de Samuel Fuller

No Japão cheio de americanos do pós-guerra, a bandidagem ianque lucra alto enquanto policiais infiltrados tentam descobrir os tentáculos dessa organização.

casa de bambu

6) A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

Como o típico filme noir, as mulheres são inconfiáveis, o chão é um tabuleiro de xadrez e a surpresa final, nesse caso, ainda permite a abertura da Caixa de Pandora.

a morte num beijo

5) Lola Montes, de Max Ophüls

Último filme do mestre Ophüls, mais uma de suas obras-primas. Chegou a ser mutilado na época e só mais tarde ganhou a versão que o diretor desejava.

lola montes

4) Vidas Amargas, de Elia Kazan

O rapaz deslocado de James Dean é um inconformado: deseja ajudar o pai a todo custo e reencontrar a mãe. De quebra, talvez acabe apaixonado pela namorada do irmão.

vidas amargas

3) A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

A religião divide mais do que une nesse grande filme de Dreyer, com a incrível sequência final, capaz de emocionar até os espectadores mais céticos.

a palavra

2) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray

A primeira parte da Trilogia de Apu é também o primeiro filme de seu diretor, sobre a difícil vida de um garoto em região rural da Índia, em meio à pobreza absoluta.

a canção da estrada

1) Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton

Com os dedos tatuados e amedrontador, às vezes até engraçado, Mitchum é o vilão perfeito, o falso pregador que persegue duas crianças inocentes.

o mensageiro do diabo

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20 objetos que definem o cinema

Detalhes continuam presos à mente: sapatos, armas, instrumentos musicais e até uma pena cujo peso é difícil calcular. Em diferentes filmes, esses objetos ajudaram a definir a magia do cinema: não são simples adereços, mas partes das histórias contadas, das imagens produzidas, signos que não resistiriam, talvez, fora de seus universos. O cinema tem esse poder: torna maior o menor, amplia o olhar, gera significados. A lista abaixo tem objetos de filmes conhecidos e de outros nem tanto. Alguns deles se tornaram motivo de culto, outros talvez nem sejam lembrados.

Os sapatos de cristal (O Mágico de Oz, de Victor Fleming)

mágico de oz

O trenó (Cidadão Kane, de Orson Welles)

cidadão kane

A estátua do falcão (O Falcão Maltês, de John Huston)

falcão maltês

A arma (Winchester ’73, de Anthony Mann)

winchester'73

A caixa (A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich)

a morte num beijo

A harpa (A Harpa da Birmânia, de Kon Ichikawa)

harpa da birmânia

O punhal (12 Homens e Uma Sentença, de Sidney Lumet)

12 homens e uma sentença

O sino do cliente japonês (A Bela da Tarde, de Luis Buñuel)

a bela da tarde

O osso (2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick)

2001

A gaita (Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone)

era uma vez no oeste

A capa vermelha (Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg)

inverno de sangue em veneza

O sapatinho da criança assassinada (Mad Max, de George Miller)

mad max

O bóton da paz (Nascido para Matar, de Stanley Kubrick)

nascido para matar

O relógio (Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino)

pulp fiction

A Bíblia (Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont)

um sonho de liberdade

A pena (Forrest Gump – O Contador de Histórias, de Robert Zemeckis)

forrest gump

A máscara (De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick)

de olhos bem fechados

Wilson (Náufrago, de Robert Zemeckis)

naufrago

O cilindro de oxigênio (Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen)

onde os fracos

O peão (A Origem, de Christopher Nolan)

peão

Entrevista: Inácio Araújo

Ao ser convidado para relatar os dez filmes que levaria para uma ilha deserta, no livro Filmes, da coleção Ilha Deserta, Inácio Araújo quebrou o protocolo e elegeu 11. Em sua justificativa, ele diz que seria impossível deixar algumas obras memoráveis de fora – filmes da estatura de Rastros de Ódio e A Morte Num Beijo. “Como na Lista de Schindler, me comovem muito mais os milhões que morreram do que os poucos milhares que se salvaram. Façamos por 11”, justifica.

E o último da lista – o décimo primeiro não convidado, o “subversivo” – é justamente Anjos do Arrabalde, de Carlos Reichenbach, morto no último 14 de junho. Com a palavra, o crítico: “Nos filmes de Carlão Reichenbach, o bom e o mau gosto, o homem culto e o cafajeste rematado, o torturado existencial e o vigarista são invariavelmente contíguos, com frequência vivem no mesmo bairro ou rua”.

A entrevista abaixo foi feita via e-mail dias antes da morte de Reichenbach. O crítico da Folha de São Paulo escreveu um texto repleto de emoção sobre o cineasta brasileiro (leia aqui), o que parece raro àqueles que acompanham seu blog e suas críticas em páginas impressas – que, sem dúvida, fazem dele um dos grandes do ofício no Brasil. Alguém duvida?

Antes, entre seus textos famosos, Inácio já havia chorado – em palavras, em tão belas expressões – a dor da perda de um grande cineasta. Falava, naquele caso, de Samuel Fuller, citado na entrevista abaixo. Com exclusividade, aborda também a própria profissão, a situação do cinema brasileiro atual e cita um cineasta que admira – não necessariamente um que ama, como Reichenbach e Fuller.

Houve um tempo em que uma crítica podia mudar o desempenho de um filme na bilheteria. Acha que, hoje, isso ainda é possível?

Não sei se eu concordo com a tua premissa. A função da crítica nunca foi atrair ou repelir espectadores de determinados filmes, mas, na medida das nossas capacidades, refletir sobre cada um deles a partir de nossas reflexões mesmo sobre o cinema e a arte em geral. Por isso, me parece que a queda de influência geral da crítica (não apenas a de cinema) não afeta as bilheterias (na verdade, desde sempre o alcance da crítica nesse particular é restrito a um tipo de filme com pequenos lançamentos e que dependem do prestígio obtido em jornais, festivais etc.), mas me parece que a arte em geral hoje é um assunto mais de mercado, mais de comércio do que outra coisa.

A crítica “crítica” de cinema é uma profissão em extinção?

Ela é menos importante do que já foi, talvez seja menos capaz. Dizer que está em extinção ou não é mero chute. De todo modo, me parece que a internet é um meio que lhe confere certo vigor e capacidade de renovação.

O que forma um bom crítico?

É difícil dizer. Cada um tem uma contribuição a dar: o que já teve contato com a prática, o que não teve, etc. Mas a contribuição dele será necessariamente vinculada à visão de mundo que ele traz. Uma visão muito pobre, mesquinha, acanhada, certamente não favorece essa prática. E, claro, sem um olho não se chega a nada, só se é enganado.

Com o passar dos anos, nesse mundo tão cheio de imagens em que vivemos, seu leitor ficou mais ou menos exigente?

Não sei. Acho que com o tempo o leitor já sabe um pouco o que esperar de cada crítico, já conhece seus gostos, suas opções. Isso é bom, de certo modo, porque mesmo se o espectador não concorda com o meu modo de pensar ele já pode prever o que encontrará no cinema, quando for ver o filme. Por outro lado, o cinema muda sempre, é preciso se atualizar, não imaginar que tudo já foi feito. O modo de exploração do cinema hoje, por exemplo, seria impensável há 20 anos.

Você recebe muita “pedrada” de leitor, seja por carta, seja por e-mail? Lembra de algum caso curioso e que gerou algum debate?

Há pessoas que se identificam mais ao que eu penso, outras menos, outras nada. Isso é normal. Se elas se dão em nível de respeito, isso é bom. Não há nada absoluto, imutável, com toda razão. Cada vez que eu recordo os grandes pensamentos críticos que existiram aqui, que opunham Rubem Biáfora (passou por vários jornais, como Folha da Tarde e O Estado de S. Paulo) a Paulo Emílio (Sales Gomes, crítico e historiador de cinema paulista), eu penso que ambos transmitiram muitos ensinamentos, cada um à sua maneira.

Em texto publicado nos anos 80, você diz que perder Samuel Fuller foi como perder o pai. Qual a importância desse cineasta para sua formação como cinéfilo e crítico de cinema? Alguma lembrança especial?

Ah, foi muito grande. Para a minha geração foi o grande cineasta americano que dizia tudo o que tinha a dizer, que punha a busca da verdade acima de tudo, e essa busca podia ser até meio selvagem, mas era sempre uma luz e também uma contestação, uma demonstração de que se podia fazer cinema fora do cânone, e bem.

No mesmo texto, diz que há diretores que se admira e que se ama. Qual outro diretor que se situa no segundo campo para você?

Digamos que a admiração vem de algo objetivo: o valor, a originalidade, as virtudes de um cineasta. O amor vem de certa identidade com o artista, é algo mais subjetivo. Eu admiro Bergman, mas não o amo. Não quer dizer que ele seja inferior a outros.

Você publicou, em seu blog, um post no qual diz que algumas produções nacionais de sucesso deste novo século reataram a confiança do espectador brasileiro em relação aos filmes feitos aqui. No entanto, acho, essas obras estão próximas da produção televisiva, o que provoca maior identificação com a maioria. Não acha que a televisão, em grande parte, vem pautando nosso cinema?

Eu disse isso, é? De todo modo, concordo inteiramente que quem está pautando o cinema no Brasil é a TV. Ou, podemos expandir: certa política cinematográfica para a qual o importante é a conquista de grandes plateias. Isso só pode ser feito, num país como o Brasil, com uma produção próxima à TV ou às vezes vinda diretamente da TV. Acho que a aposta dessa política, que vem desde o fim do governo Collor, é que através da TV se chegue paulatinamente a criar uma produção cinematográfica que seja ao mesmo tempo popular e de prestígio. Isso me parece um sonho, porque os cineastas, em sua maioria, já não têm formação de cinema. E com esse tipo de política dão menos importância a isso ainda, serão ainda mais irrelevantes do que hoje. Mas espero que eu esteja errado e os governos, certos.

Em outro texto, no blog, você repercute e discute uma crítica de um colega de Folha, o Cássio Starling, sobre o termo “buzz”. É grande mal do cinema atual?

Sim, acho que é o que eu disse acima. Eu não sou contra o marketing, longe disso. Às vezes se associa marketing a mentira, a falsidade. Não é. Marketing é a maneira de identificar o seu público e de chegar a ele. Isso é importante. Agora, o que o Cássio chama de “buzz” não é isso, é essa coisa coordenada, que tem muito a ver com a simpatia de certas pessoas, às vezes, que leva um filme nulo a ser visto como coisa muito importante. Nessa hora é que, me parece, o crítico precisa intervir.

Um filme como Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios não cai na graça do grande público, ao que parece, por motivos óbvios, mas é feito com patrocínio, renúncia fiscal, etc. O papel estatal é importante? Acha possível o financiamento de cinema, no Brasil, sem a presença do Estado?

Não se faz cinema sem que o Estado tenha um papel relevante, de alguma espécie. Pode ser financiamento, como na Europa, pode ser apoio político, como nos EUA. Veja a Argentina, recentemente: um filme que entre com mais de 20 cópias passa a pagar um imposto, que é progressivo: quanto maior o número de cópias, maior o imposto. A justificativa é ótima: para que o público não pense que existe apenas um tipo de cinema! Ora, aqui não se faz nada disso. O público acha que só existe um tipo de cinema. Que o que foge a isso é anomalia. E o governo incentiva filmes que imitam esse “tipo único” e, como não faz nada de consequente, isenta os produtores de todo tipo de risco. Ou seja, está tudo errado.

O que tem te surpreendido no cinema atual? Ainda dá para surpreender um “macaco velho” (palavras do Merten) com tantos anos de estrada?

Bem, quando eu tiver a idade do Merten, o nosso decano, não sei o que vai acontecer. Mas tenho a impressão de que em arte sempre há margem para o inesperado. Hoje ela é menor do que em 1920 ou 1950, claro. Muitas coisas já foram inventadas. E o estado do mundo não é favorável à arte, às artes em geral, a ideia de negócio é que é dominante. Então, existem dois riscos: o de coisas novas acontecerem e você não identificá-las. Ou de tentar ver o novo onde há apenas aparência de novo, mas nada muito profundo. São riscos que sempre corremos, velhos ou novos, e humanos.

Rafael Amaral (04/07/2012)