A Longa Caminhada

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

A cidade, coadjuvante, ou menos que isso, aponta à rede de sobrevivência criada pelo homem moderno, sistema para confrontar a natureza em seu sentido bruto e selvagem. Forma de adaptação à sombra dessa mesma natureza que não raro se insinua, ou ataca, ou apenas complica a vida de quem tenta sobreviver a ela.

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No início de A Longa Caminhada, a rocha dá vez à parede, que dá vez à cidade; o prédio cresce para além das árvores, a árvore resiste ao concreto que se avoluma. O reflexo das nuvens surge no prédio envidraçado. No interior de uma escola, garotas expõem a respiração ofegante, melhor representação dessa vida em sociedade.

Nesse sistema de prédios, uniformização e paradas cívicas, reina a ansiedade, a dor é acobertada pelo concreto, em prisão discreta à qual Nicolas Roeg enreda o espectador nos primeiros instantes. Ao som de um instrumento tocado pelos aborígines, o didjeridu, o cineasta mostra que do aparente selvagem que escolheu o deserto e a luta pela sobrevivência também emana o som que se assemelha a algo tecnológico, ruído de rádio.

Os dois espaços às vezes se confundem, ou se condensam: da rocha à parede, como se a natureza primeira fosse a mesma, em um alternar sem-fim de formas e configuração de ambientes. A Longa Caminhada inverte a trajetória: uma adolescente e seu irmão pequeno, criados na cidade, vagam pelo deserto australiano, perdidos, após a morte do pai.

O filme é sobre uma caminhada de descobertas. Roeg não revela em excesso: seu cinema repousa no mistério, na sugestão, ponto em que o bruto dá espaço ao onírico. Talvez aquele pai estivesse cansado da vida à sombra dos prédios, ao som do rádio, sob a influência que exercem seus antepassados, a vida que criaram para ele.

Decide romper a barreira, assume sua loucura, o que alguns podem chamar de selvageria: decide, no deserto, matar os filhos, e em seguida se suicida. Os jovens escapam. A garota (Jenny Agutter) passa a cuidar do irmão (Luc Roeg) ao sol escaldante. A certa altura, encontram um jovem aborígene (David Gulpilil), que passa a ajudá-los.

O título original, Walkabout, refere-se aos aborígenes que, desde cedo, são lançados à sobrevivência no deserto, obrigados a se “adaptar”. A essa situação os jovens da cidade também serão levados, por algum momento, como os nativos. Despem-se do conforto, experimentam a descoberta, o isolamento, a vastidão de tudo e nada.

O filme todo pode ser interpretado como uma visão do pai, que, de sua sacada, em belo prédio, vê os filhos brincar na piscina. Ao ser transferido ao deserto, o mesmo programa de rádio ouvido por sua mulher, no apartamento, é agora ouvido no interior do carro. Um indicativo de que permanece no mesmo lugar.

Ao redor da menina e de seu irmão, também do aborígene, animais estranhos aparecem entre o deserto. Seres que se adaptaram, que engolem outros, de couraças espessas, feitos àquele espaço seco a ponto de se confundirem com o mesmo. Por ali surgem as moscas, vê-se o fruto podre, as roupas estão sujas. A natureza não é tão bela.

À visão do aborígine, a menina fecha os olhos, por algum tempo, como se não acreditasse no que vê: alguém aparentemente adaptado, à caça de lagartos. Alguém que parece pertencer ao deserto no qual a vida pouco se insinua para além de répteis e insetos. Do rapaz ficam o contato estranho, a dificuldade de compreensão, de mistura.

O crítico Roger Ebert fala dessa barreira em sua análise do filme de Roeg, de “vidas de algum modo destruídas porque duas pessoas não conseguem inventar um meio de esclarecer seus anseios e sonhos”. O filme eleva os sons, os ruídos, a suposta melodia do didjeridu – como se diferentes civilizações conseguissem se tocar.

O mesmo vale para a montagem paralela, entre a carne do canguru arrancada pelo aborígine e a carne golpeada no açougue, antes de ser comercializada. A proximidade é ilusória. Os cortes e o som evidenciam distâncias, aberturas não preenchidas, seres desconectados.

(Walkabout, Nicolas Roeg, 1971)

Nota: ★★★★★

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Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski

Nicolas Roeg (1928–2018)

Se você não está prestando muita atenção em um dos filmes de Nic, você não sabe o que está acontecendo, porque muito pouca informação é levada ao diálogo. Nesse sentido, os filmes de Nic têm essa linha direta com o cinema mudo. Eu adoro quando um filme conta sua história através de imagens e ninguém diz alguma coisa. Se fosse Game of Thrones, no final a mulher teria se voltado para Julie Christie e dito: “Você está se sentindo bem?” “Estou me sentindo um pouco doente esta manhã, espero não estar grávida.” Teria sido assim em Breaking Bad também.

Mas se você olhar e vê-la, você entende que o marido dela era mediúnico. Nic está tentando falar sobre coisas que não podem ser ditas. Se você fala sobre elas, elas soam banais, e você as rejeita tanto quanto Donald Sutherland rejeita tudo o que sabe ser verdadeiro naquele filme. Ele é o cético que diz ao longo do filme: “Não, isso é besteira, estas são velhas estúpidas, elas estão se aproveitando de você”. E, claro, o que está sempre falando é que ele é o único com a premonição, o único que está tendo essas visões terríveis e que está em total negação. Se você verbalizar essas coisas, ou você as torna muito banais ou inacreditáveis. Considerando que, se você mostrá-las e deixar o público experimentá-las, você terá a noção do que está por aí.

(…)

O trabalho de Nic durará. Daqui a cem anos, veremos os filmes de Nic. Nós não vamos estar olhando para os filmes de blá blá, que ganhou o Oscar no ano passado. Não importa quem elas são, porque são todas iguais, essas pessoas. Elas são apenas pessoas que foram promovidas por Harvey Weinstein durante uma semana.

Bernard Rose, diretor, em entrevista ao documentário Nicolas Roeg – It’s About Time, em 2014 (leia aqui em inglês; a tradução é do site). Em seu depoimento, Rose refere-se ao filme Um Inverno de Sangue em Veneza. Abaixo, o diretor Nicolas Roeg nas filmagens de A Longa Caminhada.

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13 grandes filmes sobre personagens em viagens existenciais

O caminho de diferentes personagens não se limita ao simples deslocamento. Como se vê nos filmes da lista abaixo, são viagens de significados profundos. De descobrimento. A estrada pode assumir sua forma conhecida, de terra ou asfalto, ou mesmo a inimaginável, quando o homem sai em busca de outros planetas e dimensões. A lista traz obras de diferentes diretores, de Ingmar Bergman a Andrey Zvyagintsev.

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Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

Um velho professor viaja para receber uma homenagem. É o que lhe resta para coroar a vida, enquanto, na mesma viagem, assiste ao passado, às lembranças, tomado de assalto. A aparente vida pacata toma outro rumo. Ao mesmo tempo, tem de conviver com jovens que cruzam seu caminho na bela obra de Bergman, autor de mais filmes sobre viagens existenciais, como Monika e o Desejo e O Sétimo Selo. O protagonista é interpretado pelo cineasta Victor Sjöström.

morangos silvestres

Édipo Rei, de Pier Paolo Pasolini

Nem sempre fica entre os mais lembrados do controvertido italiano. É parte daquela galeria mítica do cineasta, à qual se lança para explorar diferentes autores. Com Édipo, tem-se o homem luta contra o próprio destino. Ao longo de sua jornada, matará o pai e se casará com a mãe. Pasolini também investiu tempo e esforços em outras histórias sobre viagens existenciais, como em Gaviões e Passarinhos, e sua própria jornada tornar-se-ia, depois, outra jornada existencial pelas mãos de Abel Ferrara.

édipo rei

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Na aurora do homem, o macaco lança o osso ao alto e, milênios à frente, este dá vez à nave espacial. O salto de séculos, diz Kubrick, é a maior jornada possível: é a consagração máxima da elipse no cinema, o poder do corte, a amostra de que a máxima tecnologia é fruto da violência. Depois, no futuro, o homem toma outra jornada. Lutará contra sua própria máquina – sem aparência nítida, com voz humana – enquanto assiste ao nascimento de outro mundo. Possivelmente o melhor filme do diretor.

2001 uma odisseia no espaço

Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

À medida que tenta se incluir, a personagem de Jack Nicholson termina sempre em explosão. E a certa altura fica clara sua renúncia: simplesmente deixa tudo, o mundo para trás, e embarca para lugar algum. Robert Eroica Dupea não quer mais jogar o jogo. Quer encontrar uma saída, um caminho, talvez um amor no meio de toda sua baderna interna e externa. Nicholson chega ao âmago de uma geração com sua personagem niilista.

cada um vive como quer

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

O ponto de partida dessa viagem é o conflito entre a civilização e o mundo selvagem. Após o suicídio do pai, dois irmãos ficam perdidos no deserto australiano e, com a ajuda de um jovem aborígene, tentam encontrar o caminho para casa. O mesmo caminho levará a diferentes descobertas. O diretor Nicolas Roeg vinha de outra “viagem” ousada em Performance, e ainda faria outra, logo depois, com o magistral Um Inverno de Sangue em Veneza.

a longa caminhada

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O jornalista, ao ter de capturar a vida alheia, talvez nunca esteja totalmente inserido em um meio. A personagem central do filme de Antonioni é interpretada por Nicholson, em outro momento sublime, como o jornalista que muda de vida ao trocar de identidade com um homem morto. A mudança ocorre em um hotel distante, na África, continente ao qual é enviado para sua nova reportagem. O protagonista, Locke, passa a se chamar Robertson e busca assim outro caminho para sua existência.

profissão repórter

Stalker, de Andrei Tarkovski

Outro cineasta que se dedicou a diferentes “viagens existenciais”, com suas personagens percorrendo caminhos físicos e íntimos ao mesmo tempo. Vale lembrar outros de seus filmes – ou de quase todos – que cabem no tema: A Infância de Ivan, Andrei Rublev, Solaris, O Espelho e Nostalgia. Mas Stalker talvez simbolize melhor a busca pelo desconhecido, em um clima selvagem e ao mesmo tempo futurista, quando alguns homens – os stalkers – tentam alcançar um lugar mítico chamado Zona.

stalker

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

A ideia de levar No Coração das Trevas às telas é antiga. Foi levada em conta por Orson Welles, que sequer conseguiu finalizar outra importante jornada da sétima arte, seu É Tudo Verdade. Na versão de Coppola, gestada por anos, encontram-se a composição perfeita, as personagens imperfeitas, o provável discípulo em busca do mestre – talvez para matá-lo e tomar seu posto. Martin Sheen é tão sombrio quanto Brando. Outra figura repulsiva é o Kilgore de Robert Duvall, capaz de destruir uma aldeia para poder surfar.

apocalypse now

Sem Teto, Nem Lei, de Agnès Varda

Os filmes anteriores de Varda são carregados de dor. É o caso de La Pointe-Courte, que antecipa a nouvelle vague, e o incrível As Duas Faces da Felicidade. Nos anos 80, com Sem Teto, Nem Lei, ela mergulha na jornada de uma jovem pela estrada. Chama-se Mona Bergeron (Sandrine Bonnaire), cuja imagem não é suavizada. A partir de histórias de pessoas que cruzaram com ela, essa viagem não a revela por completo, o que fica evidente desde o início.

sem teto nem lei

Paisagem na Neblina, de Theodoros Angelopoulos

Com crianças à frente, o filme de Angelopoulos ganha uma forma especial: cada pequeno trecho percorrido tem sentido de descobrimento maior. Quando se chega ao plano final, com a paisagem sob a neblina, percebe-se que nem tudo pode ser visto. Nessa jornada de descobrimento, as crianças desejam encontrar o pai que nunca conheceram, em viagem da Grécia para a Alemanha, ao passo que são obrigadas a amadurecer.

paisagem na neblina

Naked, de Mike Leigh

O melhor filme de Leigh acompanha o deslocado Johnny (David Thewlis), que furta um carro e foge após violentar uma mulher – nos primeiros e conturbados instantes da obra. Contra todos, a arma do protagonista é a palavra: fala sem parar, como uma metralhadora, e chega a enlouquecer lançado ao chão. Ao procurar uma velha amiga, esse anti-herói termina perdido pelas ruas de Londres e se encontra, ao acaso, com os mais diferentes tipos. Filmaço.

naked

Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

Viagens e janelas são constantes nos filmes de Kiarostami. Em um de seus últimos trabalhos, Um Alguém Apaixonado, as personagens andam muito de carro e falam através das janelas. A obra, por sinal, termina com o rompimento de uma. Em Gosto de Cereja, feito antes, tem-se um homem a bordo de seu carro, que pede aos outros que lhe façam companhia no momento da própria morte. Ele desistiu de viver e precisa que alguém o enterre.

gosto de cereja

O Retorno, de Andrey Zvyagintsev

Antes do sucesso de Leviatã, o diretor russo realizou esse filme forte, ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em cena, a trajetória de dois irmãos com o pai desconhecido. Até então, o único contato com o homem havia se dado por uma foto. Nessa viagem, eles descobrirão outra face do lado paterno, em diversos conflitos. A fotografia gélida ajuda a dar o tom. Zvyagintsev dirigiria depois o poderoso Elena, sobre uma mulher que luta para ter a herança do companheiro.

o retorno

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