A Estrada da Vida

Bastidores: A Estrada da Vida

Nunca peço ao ator um esforço de interpretação particular, ou seja, nunca me obstino a fazê-lo dizer meus diálogos num dado tom. O caso de Giulietta interpretando Gelsomina é o único exemplo em que obriguei uma atriz que tem um temperamento exuberante, agressivo, até pirotécnico, a fazer o papel estilizado de uma criatura retraída de timidez, com um clarão de razão e de gestos sempre no limite da caricatura e do grotesco. Isso me demandou um esforço muito grande e nesse caso particular, Giulietta, contrariamente ao que ela fez por Cabiria, precisou de um esforço de interpretação muito grande, porque Gelsomina é uma “interpretação” enquanto “Cabiria” estava muito mais na sua afinação, com sua agressividade, seu temperamento quase um pouco alucinado, sua prolixidade.

Federico Fellini, cineasta, na revista Cahiers du Cinéma (nº 84, junho de 1958; traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr. e publicado na Contracampo; leia aqui). Abaixo, Fellini e Giulietta Masina.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Satyricon de Fellini

Poucas e Boas, de Woody Allen

A história de Emmet Ray permite duas certezas: ele tem medo de Django Reinhardt e ama a música. Por isso, não sabe lidar com sua arte: pode amá-la, mas não pode se aproximar do único músico que talvez esteja acima dele.

A condução é de Woody Allen, que se perde propositalmente de Emmet para se lançar ao jazz. Essa personagem é a desculpa para falar do estilo musical que adora. Poucas e Boas é sobre música, o que permite ao protagonista ser um demônio feliz.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

poucas e boas

É sua maneira de ser – entre jogos e mulheres, sem se preocupar com a vida em geral. A música significa algo, engajamento, ou mesmo a produção de uma substância cuja beleza não parece clara a qualquer ouvido, ou a qualquer dono de bar e casa de shows.

Os empresários preocupam-se mais com ele, menos com sua arte. Um deles reclama: certa vez, após noites de bebedeira, o músico desaparece. Deixa o público esperando. O dono do estabelecimento não perdoa e demite o protagonista.

A única mulher que talvez veja beleza em sua música não fala uma palavra sequer. Uma delas deseja estudar a paixão por trás das canções, outra não dá a mínima para cada toque, para esse gesto de paixão, entrega – como fica evidente na sequência final.

Enquanto a América via-se afundada na Depressão, Emmet ainda contava com a sorte: ao tentar fugir de um show, depois de ser avisado que o também músico Reinhardt estava na plateia, ele quebra um telhado e cai sobre uma montanha de dinheiro falso. Pensa que é verdadeiro, compra um carro caro.

Em um dia pouco ensolarado da Depressão, ele brinca com um amigo de conquistar mulheres. Sem querer, como quase tudo em sua jornada, conhece uma garota muda, vivida por Samantha Morton.

poucas e boas2

Ele fala demais, toca demais. Ela deixa ver tudo com sua expressão – ao passo que, como uma criança, será capaz de comunicar o amor. Essa relação é o que o filme tem de melhor. Empresta algo de A Estrada da Vida, de Fellini: a relação entre o beberrão Zampano (Anthony Quinn) com a inocente Gelsomina (Giulietta Masina).

O fato de nunca ter existido não significa que Emmet seja menos real. Poucas e Boas prefere o ambiente, as personagens, sobretudo a música. O próprio Allen aparece – como em um falso documentário, na companhia de supostos críticos – para contar algo sobre esse homem, salientar que, mesmo fictício, ele pode ter uma vida que inclui mais de uma versão para o mesmo fato. Um mistério que nunca existiu.

A estranha vida de Emmet leva-o a tocar violão em frente ao trem em movimento, ou a sacar a arma para matar ratos no lixão, ou mesmo a agenciar meninas quando cafetinava. Fez um pouco de tudo, nunca existiu. Ou, como sugere Allen, resta questionar, sob o risco do banho de água gelada: o que isso tem de tão importante?

(Sweet and Lowdown, Woody Allen, 1999)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
A Vida Secreta de Walter Mitty, de Ben Stiller

As Maravilhas, de Alice Rohrwacher

Não é difícil saber muito sobre as personagens de As Maravilhas. São, sem segredos, brutas ou ternas. Entre elas, no filme de Alice Rohrwacher, está a jovem Gelsomina (Maria Alexandra Lungu). Tem o mesmo nome da mulher humilde, pequena, de A Estrada da Vida, de Fellini: nascida para sofrer nas mãos de um homem grande, bruto.

No filme realista e mágico de Rohrwacher, o bruto é o pai. Ele não deixa a filha escapar. Sua visão é estreita: naquela velha terra entre abelhas e caçadores não tão distantes, o melhor é ficar por ali, resistir, contra as “maravilhas” do mundo externo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

as maravilhas

Mas Gelsomina entenderá o contrário: aos poucos, será iluminada pela ideia de fugir, pela fantasia ligada a tudo o que pode estar além dos muros imaginários. Suas fantasias têm início quando, na companhia do pai e das irmãs mais jovens, assiste à gravação de um programa de tevê chamado No País das Maravilhas.

O pai, Wolfgang (Sam Louwyck), acredita que tudo não passa de bobagem: o verdadeiro mundo a se apegar está a alguns metros à frente, na terra, na família, nas colmeias de abelha que, aqui, sintetizam a família ou seu oposto.

Na verdade, sintetizam o desejo do pai, e se revelam a alienação contra qual Gelsomina deverá lutar para viver. Ela não pode terminar presa àquelas ações intermináveis, resumidas em trocar baldes, trabalho braçal, em impedimentos constantes.

A menina sonha, e por isso não pertence àquele meio. O olhar que recai nela é o do artista. Há algo deslumbrante aí: as pessoas só podem escapar, diz Rohrwacher, quando entendem a necessidade de criar mundos imaginários, ou quando se lançam ao sonho.

A realidade é chata, com abelhas, suas colmeias, atividades repetitivas. Ao mesmo tempo, toda essa chatice revela-se necessária: a família precisa trabalhar para viver, precisa se adaptar às novas leis, precisa encontrar meios para se aliviar.

as maravilhas

Quando o programa de televisão vai àquela região distante, com a intenção de descobrir as “maravilhas” de um universo supostamente perfeito, a jovem Gelsomina não pode deixar de sonhar. Ele olha à bela atriz e apresentadora do programa (Monica Bellucci) e automaticamente se deixa levar pelo sonho: vê a verdadeira princesa.

Contra a vontade do pai, a menina coloca a família na corrida pelo prêmio do programa. À frente, ele assistirá sua gravação, olhará à pequena televisão que serve à equipe técnica, a pequena caixa que o deixará enquadrado, sem palavras.

O que há por trás daquela “mágica” – o que talvez Gelsomina não possa entender por completo – revela apenas mais dor. É a interpretação, à qual a pequena protagonista não se deixa lançar. Aqui, as irmãs e um jovem menino adotado são sempre espontâneos, como os pais e os outros, o que surpreende os artistas e produtores da cidade grande.

Ao mesmo tempo em que revela o choque entre pai e filha, entre o bruto e a jovem sonhadora, As Maravilhas questiona o quanto a fábrica de sonhos da televisão pode ser enganosa, fria, falsa – e o quanto ela ainda pode despertar desejos.

Benéficos ou não, esses sonhos abrem portas, revelam a mudança, como mensagem no ouvido da jovem Gelsomina, que tenta tocar as luzes entre sombras, enquanto procura escapar daquele local afastado e opressor.

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Cinco grandes filmes de 2015 dirigidos por mulheres

Anthony Quinn, 100 anos

Com jeito exótico e distante dos traços tipicamente americanos, Anthony Quinn começou com personagens exóticas. Pequenos papéis, aos poucos revelando sua grandeza. O jeito rochoso já estava lá: era imponente, impossível não ser notado.

Fez filmes desde a década de 30. Demorou a ganhar relevância. Os dois Oscars – por Viva Zapata! e Sede de Viver – vieram por coadjuvantes, ao lado de outros dois gigantes: Marlon Brando e Kirk Douglas. Ainda assim, conseguia se impor.

É lembrado, claro, por papéis em outros filmes, como A Estrada da Vida, de Fellini, e Os Canhões de Navarone, cuja personagem nasceu para ele – em claro contraste à figura de David Niven, o “cérebro” da turma. Quinn era pura massa. Entre tantas personagens, a mais famosa é certamente Alexis Zorba, apaixonada pela vida.

Nos anos 40, antes do grande sucesso, fez um papel pequeno, “maldito”, em O Intrépido General Custer (abaixo), ao lado do “tipicamente americano” Errol Flynn. Servia ao contraste, de novo. Quinn é o índio Cavalo Louco, responsável por matar o herói americano, quando os nativos venceram os brancos na batalha de Little Big Horn.

o intrépido general custer

A Trapaça, de Federico Fellini

Tanto em A Estrada da Vida quanto em A Trapaça, ou mesmo em Noites de Cabíria, as personagens terminam sozinhas. Dos três, em A Trapaça vê-se o pior cenário: um homem machucado, largado pelos comparsas à beira da estrada, lutando para pedir ajuda.

Ao falar sobre esse filme, Federico Fellini disse que é imoral contar uma história conclusiva. Como se sabe, o neorrealismo italiano rompeu com a lógica típica do conhecido “realismo romântico fechado” hollywoodiano. Os filmes não precisavam mais “se fechar”.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

a trapaça2

E, dos filmes fellinianos, A Trapaça está entre os mais cruéis, sem ser necessariamente o típico exemplar neorrealista. Ao fundo, ecos da religião, como se viu em A Estrada Vida, com o homem arrependido, em desgraça, em busca do perdão.

Ou o jeito quase santo, feliz, não necessariamente ligado à imagem imaginada para uma prostituta, em Noites de Cabíria. Fellini suaviza, faz o feio belo, traz partes de uma vida miserável para depois entregar certa redenção: suas personagens – antes do maravilhoso A Doce Vida – não são corrompidas por inteiro.

Por isso, resiste a esperança nas expressões de Augusto, o bandido bonachão, que resiste tanto à bondade quanto à maldade. Ele é um homem dividido: consegue aplicar golpes em pessoas miseráveis, em A Trapaça, e ainda assim parecer um bom pai.

Essa dualidade marca a fita de Fellini, com Broderick Crawford, famoso ator de filmes americanos. Era necessário um ator mais velho para o papel e, não por acaso, mais de uma vez sua personagem fala de idade ao longo da história.

Ele e outros tentam ser livres. “Quando se é jovem, a coisa mais importante é ser livre, é mais importante do que o ar que se respira”, Augusto explica para outra personagem, Picasso (Richard Basehart).

Importante, também, mostrar a vida comum por trás do grupo de trapaceiros, para assim chegar ao lado humano da história: a filha inocente de Augusto e a mulher desconfiada de Picasso, Iris, vivida pela musa de Fellini, Giulietta Masina.

a trapaça1

E, assim, à impossibilidade de ser livre, ou à ironia da total liberdade que o encerramento parece anunciar: a imobilidade do homem quase morto, cujo desfecho Fellini não deixará o público saber. Ou o desfecho que resta, pois não há filme inconclusivo, mas sim uma história sem conclusão.

O problema de Picasso é estar dividido como os outros. Sua mulher apenas desconfia que ele seja um trapaceiro. Quando aparece com o bolo de dinheiro fruto de um crime, ela solta um olhar de dúvida. Com pouco, Masina extrai muito.

Começa com o crime contra duas senhoras em uma região afastada, local em que persistem a religiosidade, a inocência e o desejo de enriquecer. Fellini explora a ideia de que nem todos são santos: a cobiça sobrevive por todos os lados, o que talvez alivie o pecado dos trapaceiros. Todos partilham os mesmos desejos.

Ao oferecer aos camponeses um tesouro, os bandidos também anunciam a necessidade de pagar por algumas orações a um morto enterrado no local, cuja ossada faz companhia ao ouro e às joias do velho caixote. O golpe está pronto.

A certa altura, na última ação de grupo, Augusto sente-se tocado pela presença de uma menina com paralisia, de muletas. Não diz muito, ou nada, mas o público entende o que quer dizer. Talvez não deseje ir em frente, aplicar o golpe, faturar com crentes e miseráveis. Sua natureza, como a da personagem de Humphrey Bogart em O Tesouro de Sierra Madre, é mais forte. Ele termina na miséria, rumo ao ouro e à morte. Sozinho, à espera da salvação.

(Il bidone, Federico Fellini, 1955)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Seis grandes cineastas inspirados por Federico Fellini