A Bela da Tarde

A caixinha do cliente asiático, segundo Buñuel

De todas as perguntas frívolas que me fizeram sobre meus filmes, uma das mais frequentes, das mais obsessivas, diz respeito à pequena caixinha que um cliente asiático leva consigo ao bordel. Ele a abre e mostra às garotas o que contém (nós não vemos). As garotas recusam com gritos de horror, exceto Séverine, na verdade interessada. Não sei quantas vezes me perguntaram, sobretudo mulheres: “O que tinha nessa caixinha?”. Como não faço a mínima ideia, a única resposta possível é: “O que você quiser”.

Luis Buñuel, cineasta, sobre o famoso objeto de A Bela da Tarde, em Meu Último Suspiro (Cosac Naify; pg. 337). Abaixo, Catherine Deneuve, que interpreta Séverine, descobre o que há na tal caixinha.

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Jovem e Bela, de François Ozon

A jovem e bela protagonista não expressa sentimentos com facilidade. Sua frieza incomoda. Em sua primeira experiência sexual, com um belo rapaz alemão, à beira-mar, ela volta o olhar para o céu, para o lado; vê a si mesma, como se outra parte de seu ser a encarasse, a fizesse sentir vergonha. Talvez seja o momento em que descobre a ausência do prazer.

Ou, em Jovem e Bela, de François Ozon, não sentir o prazer que esperava sentir. Vive naquele amor de verão sua primeira decepção: o mundo ao redor, afinal, não é belo ou colorido como uma casa de bonecas, os irmãos mais novos não são tão inocentes quanto parecem, as mães e os padrastos não são corretos como deveriam.

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A mesma jovem que vive, ou não, esse amor de verão, uma adolescente um pouco sem rumo, prefere radicalizar: torna-se prostituta aos 17 anos. Vivida por Marine Vacth, Isabelle torna-se Léa, cresce alguns centímetros com o scarpin, veste terninho, solta os cabelos, diz ter 20 anos. É a garota dos desejos – e sonhos – de muitos homens mais velhos. Faz sucesso.

A verdadeira – sabe-se lá se existe, ou quem é – usa roupas de colegial, jeans, jaqueta um pouco longa, prende os cabelos e, perto da mãe e do padrasto, parece sempre menor, encolhida, às vezes criança. Vacth segue o conselho de Ozon: mantém-se em silêncio para provocar esse choque, para abrir essa possibilidade de transformação.

A referência à Bela da Tarde de Luis Buñuel vai muito além do título: como a musa Catherine Deneuve, a adolescente de Ozon conserva duas características: prostitui-se na parte da tarde e não esconde a indiferença em relação aos outros e aos seus sentimentos (parece ser má, mas talvez seja apenas fria e direta, ou real).

Isabelle busca mais do que dinheiro em suas investidas na prostituição. Ao seu psicólogo, mais tarde, confessa sentir prazer no perigo que a profissão carrega, a aventura que a leva sempre a um novo quarto, a um novo homem, ao inesperado. Não se trata apenas de buscar prazer ilimitado e com dinheiro; para Isabelle, a prostituição permite viver fora de seu “círculo perfeito”, o da aparente família perfeita.

E, nesse ponto, faz pensar de novo na personagem de Deneuve na obra de Buñuel: a menina rica, casada com um médico correto, em uma grande casa, que passa suas tardes em um bordel discreto, em Paris, para escapar da vida monótona e realizar suas fantasias. Mas no mundo de Isabelle permite-se ainda maior esconderijo. Graças à internet, os encontros são marcados a distância. Dispensa-se o ambiente do bordel.

Na ausência dos sentimentos da protagonista, Ozon oferece personagens secundárias frágeis, a começar pela mãe, interpretada por Géraldine Pailhas. A mãe tenta entender a opção da filha, tenta resolver seu “problema”, às vezes levando o espectador ao caminho mais cômodo e o retirando do mistério da personagem central. Ozon expõe uma normalidade ilusória. Como bem sabe Isabelle e o espectador de Jovem e Bela, a mãe também esconde segredos.

(Jeune & jolie, François Ozon, 2013)

Nota: ★★★☆☆

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Os 20 melhores filmes sobre prostituição

Ao revisar a prostituição no cinema, vale retornar à frase de abertura de Lúcia McCartney, uma Garota de Programa, filme de David Neves lançado no início dos anos 70: “(…) as necessidades que o cinema e a prostituição satisfazem são as mesmas (…), os homens vão ao bordel como vão ao cinema”. Depois, perto do fim, a obra indica que o bordel é o espaço da ficção. Um pouco como o cinema, portanto.

Nas telas, a prostituição ocupou inúmeros filmes. Mas a maioria apenas incluiu uma personagem prostituta ou gigolô. Poucos se debruçaram sobre a prática ou a ela dedicaram maior abordagem, como se vê nos 20 filmes abaixo. Outras grandes obras foram consideradas para essa lista, como O’Haru: A Vida de uma Cortesã, Manila nas Garras de Néon e Ádua e Suas Companheiras, entre outras. Apesar de possuírem personagens em vida prostituta, não se lançam por completo no tema.

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Os filmes abaixo falam também do corpo, da guerra, de questões sociais ainda urgentes. Não tratam do tema com moralismo, a julgar a prática com facilidade. Não deixam saídas fáceis. O critério desse ranking leva em conta a abordagem da prostituição na tela, não necessariamente o resultado final do filme. À lista.

20) A Mulher Infame, de Kenji Mizoguchi

Garota honesta retorna para casa e passa a viver com a mãe, a dona de um bordel. Ambas se apaixonam pelo mesmo homem.

19) O Céu de Suely, de Karim Aïnouz

Sem o marido e sem dinheiro, Hermila torna-se Suely e passa a rifar o próprio corpo, em “uma noite no paraíso”. Enfrenta a ira da cidade.

18) Jovem e Bela, de François Ozon

Homenagem a A Bela da Tarde, de Buñuel, sobre uma colegial que marca programas na internet e, com seu papel, torna-se mulher.

17) Nunca aos Domingos, de Jules Dassin

Melina Mercouri brilha nesse filme engraçado, com um homem que tenta convencer uma prostituta a deixar sua vida infame.

16) Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis

Em Las Vegas, cidade iluminada, falsa, escritor alcoólatra apaixona-se por uma bela prostituta. História de amor improvável.

15) Gigolô Americano, de Paul Schrader

O melhor em seu ofício, gigolô sofisticado termina em uma teia de suspense após uma de suas clientes ser assassinada.

14) Era Uma Vez em Nova York, de James Gray

Mulher imigra para os Estados Unidos e, com a irmã detida e sob as forças de um homem instável, vê-se obrigada a se prostituir.

13) Mulheres no Front, de Valerio Zurlini

Um grupo de mulheres gregas é levado para o front de batalha, para satisfazer os desejos dos homens do exército italiano.

12) L’Apollonide, de Bertrand Bonello

O cotidiano de uma “casa de tolerância”, entre passado e presente, entre sequências violentas e sensibilidade.

11) Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi

Último filme do mestre Mizoguchi, sobre a vida decadente e difícil de algumas prostitutas no bordel Terra de Sonhos.

10) História de uma Prostituta, de Seijun Suzuki

Outro filme sobre prostituição em meio à guerra, dessa vez sobre as japonesas levadas ao confronto contra os chineses na Manchúria.

9) Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri

Obra-prima do cinema nacional, sobre dois amigos que saem com duas prostitutas, em uma noite de diálogos fortes e revelações.

8) Noites de Cabíria, de Federico Fellini

A prostituição a partir de uma personagem cheia de ternura, vítima dos homens, cujo fim leva à estrada, ao inesquecível sorriso.

7) Viver a Vida, de Jean-Luc Godard

A trajetória de Nana, com seu cabelo à la Louise Brooks, outra vítima dos homens no ainda melhor filme do francês Godard.

6) Pretty Baby, de Louis Malle

Menina cresce em um bordel ao lado da mãe, também prostituta, e causa fascinação em um fotógrafo de passagem pelo local.

5) Perdidos na Noite, de John Schlesinger

O caubói vai para Nova York na esperança de faturar alto como garoto de programa. A realidade encontrada é outra.

4) Klute, o Passado Condena, de Alan J. Pakula

Ao investigar o desaparecimento de um homem, investigador vê-se apaixonado por uma prostituta. Oscar de atriz para Jane Fonda.

3) Portal da Carne, de Seijun Suzuki

A vida das prostitutas no pós-guerra e a tentativa de sobreviver à presença dos estrangeiros, clientes que elas não querem.

2) Mulheres da Noite, de Kenji Mizoguchi

O retrato devastador da prostituição em tempos de guerra, entre a pobreza e a necessidade de sobrevivência.

1) A Bela da Tarde, de Luis Buñuel

Entediada com sua vida comum, cheia de desejos ocultos revelados em sonhos, mulher casada passa a frequentar um bordel, sempre à tarde, e se vê entre diferentes homens e fetiches. É o filme mais lembrado do mestre Buñuel.

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O cinema é o espaço perfeito para o voyeur. O espaço para explorar o proibido, o íntimo e impenetrável – ou quase isso. Os filmes abaixo apresentam desejos de pessoas ou grupos, em alguns casos divididos apenas com o espectador, seu cúmplice. Obras de diferentes cineastas e épocas, com os mais variados fetiches.

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Atração por pés (podolatria) – O Alucinado

No início dessa grande obra de Luis Buñuel, seu protagonista, um obsessivo, observa os pés das mulheres no interior da igreja – justamente quando o padre lava os pés dos frequentadores, durante uma cerimônia. É ali que ele atenta-se a uma mulher entre várias, sua desejada e futura esposa. Um filme sobre ciúme e perseguição.

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Atração por deformidades (teratofilia) – A Tortura do Medo

O melhor exemplo do cinema sobre o desejo pela deformação. Esse estranho fetiche vai sendo revelado aos poucos e, a certa altura, o espectador descobre que o protagonista gosta de matar mulheres vendo seus rostos distorcidos no espelho. Em uma cena específica, ele fica deslumbrado por uma prostituta com o lábio deformado.

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Atração por criminosos – Marnie, Confissões de uma Ladra

O marido, vivido por Sean Connery, estuda zoologia e tenta entender a mulher, Marnie (Tippi Hedren), a ladra platinada. O desejo do homem a certa altura fica evidente (e seria confirmado pelo diretor Alfred Hitchcock): ele deseja fazer sexo com ela quando está prestas a cometer seu crime. A saber: ela é uma ladra compulsiva.

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Atração por sujeira ou fezes (coprofilia) – A Bela da Tarde

O mestre Buñuel foi o rei da exploração de fetiches no cinema. Eis outro exemplo famoso: o momento em que Séverine (Catherine Deneuve), amarrada, tem lama lançada contra seu corpo pelo amigo do marido. Trata-se de desejos ocultos divididos apenas com o espectador. Ela torna-se prostituta em um bordel para tentar realizá-los.

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Atração pela monstruosidade – Possessão

O filme mais famoso do grande diretor polonês traz Isabelle Adjani como Anna, que passa a apresentar comportamentos estranhos e é seguida pelo marido, Mark (Sam Neill). O que ele descobre é assustador: a companheira mantém relações sexuais com uma criatura monstruosa. Outro caso de teratofilia, aqui com doses de surrealismo.

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Ser tratado como criança (autonepiofilia) – Veludo Azul

O rapaz (Kyle MacLachlan) está escondido no armário e assiste à sessão de sadismo de Frank Booth (Dennis Hopper), quando este investe contra a frágil Dorothy (Isabella Rossellini). Ele rasteja às suas partes íntimas, cheira gás e, aparentemente dopado, faz-se um bebê em busca de sexo com a representação da mãe. Obra-prima de David Lynch.

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Vestir-se de mulher – Ed Wood

Mais conhecido como “o pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood ganha vida na pele de Johnny Depp nesse filme de Tim Burton. Uma das manias do excêntrico diretor – sempre tratado com certa inocência por Burton – era se vestir de mulher. Apesar de cômica e nostálgica, a obra não deixa de ser um retrato triste de artistas à margem.

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Atração por máquinas e acidentes – Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima de David Cronenberg sobre um grupo de fetichistas ligado às máquinas, ao sexo, também ao cinema. Eles excitam-se nos veículos, exploram o desejo pela deformidade gerada por colisões e chegam a reproduzir acidentes que tiraram a vida de figuras famosas como James Dean. Perfeito retrato da busca pelo prazer na era moderna.

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Ouvir histórias eróticas – Ondas do Destino

Feito ainda no período do Dogma 95, época em que Lars von Trier apostava em uma câmera livre, de imagens “imperfeitas”, aqui a tratar de uma moça ingênua (Emily Watson) que se vê obrigada a procurar outros parceiros quando o marido sofre um acidente. Preso à cama, ele deseja ouvir os relatos de suas aventuras sexuais.

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Atração pelo sangue – Desejo e Obsessão

Há também toques de canibalismo nesse trabalho perturbador de Claire Denis, discípula de Jacques Rivette. Um homem recém-casado (Vincent Gallo) está em lua de mel em Paris e tenta resistir a seu desejo por sangue. Em paralelo, o espectador conhece uma mulher (Béatrice Dalle) aprisionada, que mata homens para realizar seus desejos sexuais.

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Masoquismo – A Professora de Piano

Pianista reclusa, aparentemente fria, a protagonista (Isabelle Huppert) sai em busca de excitação quando não está dando aulas. Frequenta cinemas pornográficos e ambientes de perversão. A história dá uma guinada quando ela passa a manter uma estranha relação com um de seus alunos (Benoît Magimel), o que inclui jogos perversos.

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Atração por cadáveres (necrofilia) – Beleza Adormecida

A protagonista (Emily Browning) é uma prostituta que divide seu tempo entre fisgar homens em um bar e servir às perversões de frequentadores de um castelo afastado. Ela aceita dormir nua, sob o efeito de remédio, sem saber o que se passa no quarto. Os clientes, por sua vez, devem respeitar as regras da casa e não fazer sexo com ela.

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20 objetos que definem o cinema

Detalhes continuam presos à mente: sapatos, armas, instrumentos musicais e até uma pena cujo peso é difícil calcular. Em diferentes filmes, esses objetos ajudaram a definir a magia do cinema: não são simples adereços, mas partes das histórias contadas, das imagens produzidas, signos que não resistiriam, talvez, fora de seus universos. O cinema tem esse poder: torna maior o menor, amplia o olhar, gera significados. A lista abaixo tem objetos de filmes conhecidos e de outros nem tanto. Alguns deles se tornaram motivo de culto, outros talvez nem sejam lembrados.

Os sapatos de cristal (O Mágico de Oz, de Victor Fleming)

mágico de oz

O trenó (Cidadão Kane, de Orson Welles)

cidadão kane

A estátua do falcão (O Falcão Maltês, de John Huston)

falcão maltês

A arma (Winchester ’73, de Anthony Mann)

winchester'73

A caixa (A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich)

a morte num beijo

A harpa (A Harpa da Birmânia, de Kon Ichikawa)

harpa da birmânia

O punhal (12 Homens e Uma Sentença, de Sidney Lumet)

12 homens e uma sentença

O sino do cliente japonês (A Bela da Tarde, de Luis Buñuel)

a bela da tarde

O osso (2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick)

2001

A gaita (Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone)

era uma vez no oeste

A capa vermelha (Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg)

inverno de sangue em veneza

O sapatinho da criança assassinada (Mad Max, de George Miller)

mad max

O bóton da paz (Nascido para Matar, de Stanley Kubrick)

nascido para matar

O relógio (Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino)

pulp fiction

A Bíblia (Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont)

um sonho de liberdade

A pena (Forrest Gump – O Contador de Histórias, de Robert Zemeckis)

forrest gump

A máscara (De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick)

de olhos bem fechados

Wilson (Náufrago, de Robert Zemeckis)

naufrago

O cilindro de oxigênio (Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen)

onde os fracos

O peão (A Origem, de Christopher Nolan)

peão