4:44 O Fim do Mundo

Cinco filmes recentes sobre pessoas em situações extremas

Alguns filmes não precisam de vilões de carne e osso. Com situações extremas, levam o espectador ao medo e à aflição. Nessas obras, os minutos são valiosos e cada passo em falso pode custar a vida de diferentes personagens.

E nem sempre precisam de supostas “histórias reais”, ou retratar um universo possível: como se vê na lista abaixo, é possível supor situações extremas e ainda questionar o espectador sobre lidar com a morte a partir da ficção livre.

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127 Horas, de Danny Boyle

Após ter o braço preso a uma rocha, em estranha obra do acaso e não menos da infelicidade, rapaz tenta se libertar e acaba mergulhando na própria imaginação. No filme de Danny Boyle, ele terá de tomar uma medida desesperada para sobreviver.

127 horas

A Aventura de Kon-Tiki, de Espen Sandberg e Joachim Rønning

A história é verdadeira: em 1947, um pesquisador tentou provar que a Polinésia tinha sido ocupada antes pelos povos da América do Sul e não pelos do oeste. Para tanto, lançou-se com outros aventureiros em uma expedição cheia de contratempos e situações arriscadas.

Kon-Tiki

4:44 – O Fim do Mundo, de Abel Ferrara

O filme do mestre Ferrara explora o fim do mundo a partir de situações íntimas, de um casal que – como o resto do planeta – sabe o dia e o horário do apocalipse e tem de lidar com esse mal. Eis a situação extrema final e inescapável: a própria morte.

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Gravidade, de Alfonso Cuarón

Astronauta tem como pior inimigo sua condição: está perdida no Espaço, local em que a vida é impossível, ou quase. Cada pequeno gesto ou minuto vale contra ou a favor da mulher vivida por Sandra Bullock – cuja situação de desespero tem ecos existenciais.

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Everest, de Baltasar Kormákur

O realizador de Sobrevivente volta a tratar de um caso real, dessa vez sobre um grupo de alpinistas no pico mais alto do planeta. Sua conquista carrega obsessão e contra as personagens estão tempestades, avalanches, o frio e a falta de oxigênio.

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4:44 – O Fim do Mundo, de Abel Ferrara

A ideia do fim do mundo tem gerado filmes variados. Nem todos são diretos, ou sobre relações passadas em quatro paredes. Para o diretor Abel Ferrara, o fim não precisa de pessoas correndo para sobreviver, prédios em cacos. Importa mais o que parece menor: um homem e uma mulher juntos, sozinhos, em um apartamento.

Com 4:44 – O Fim do Mundo, Ferrara propõe o fim da raça humana a partir do olhar individual: o mundo vai acabar e todos sabem disso. O mundo chegou ao fim nas palavras do apresentador de televisão, que, mesmo em momento tão complicado, continua a ser o que manda sua personagem, em mesmo tom.

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Nesse meio, Ferrara diz ao espectador que as pessoas, próximas ao fim, talvez revelem quem realmente são. O desespero acompanha verdade.

O homem assume sua fuga, sua vontade de falar com a filha, com a ex-mulher, a vontade de usar drogas. O amigo, a certa altura, é sincero: as pessoas estão morrendo desde o dia em que chegaram ao mundo.

Apoiar-se na religião, apenas, parece não ser o suficiente. Naquele apartamento grande, sem muitas paredes, o óbvio expõe-se: o mundo que chega ao fim, nesses espaços, aproxima a arte à tecnologia, a espiritualidade à carne.

Fora, no terraço, vê-se apenas o retrato daquela civilização: prédios, luzes, marcas em lojas, carros por todos os lados. O mundo como é, o mesmo que – com suas sombras, com seu medo – cercava as personagens de Maria, obra anterior do diretor.

Não se sabe muito sobre o casal. Ele, Cisco (Willem Dafoe), é um ator. Ela, Skye (Shanyn Leigh), é artista plástica. Horas antes do fim, tentam levar a vida como sempre foi, ainda que seja difícil esconder o incômodo dentro daquelas paredes.

Não demora muito para ele transcender os limites do espaço, não apenas por meio da tecnologia. Quando briga com Skye, decide ir à rua, na casa de amigos, que celebram o fim com bebida e drogas. Chegou a hora de fazer o que desejam, sem limites.

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Mas Cisco ainda está um pouco perdido, sem rumo. Ao ver um homem suicidar-se, em um prédio ao lado, ele não esconde a perturbação. Alguns não aguentaram esperar o fim anunciado, calculado em seus minutos – com a imagem do céu verde, o vidro que se quebra, ou o simples branco que contraria, ao fim, a escuridão esperada. O branco tem lá sua incerteza: pode ser qualquer coisa, a salvação ou o simples encerramento.

O fim do mundo é a parte seguinte de Ferrara às questões que inquietam a raça humana, após a espiritualidade em Maria e a violência em Napoli, Napoli, Napoli. Esse fim tem seu lado curioso: as pessoas tentam ser indiferentes a ele e são vítimas do medo.

No encerramento, Cisco é preso aos braços da mulher, acolhido como uma criança indefesa. Pouco antes, ela desejou engravidar, ali, próxima ao fim. As palavras do amigo ecoam entre eles: algo começa a morrer justamente quando é concebido.

(4:44 Last Day on Earth, Abel Ferrara, 2011)

Nota: ★★★☆☆

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