120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

As partículas desintegram-se no ar. Antecipam o mal que espreita, nada difícil de prever ao longo de 120 Batimentos por Minuto: algumas de suas personagens vivem momentos derradeiros, sabem que, ora ou outra, perderão a própria vida. Elas são vítimas da aids. O filme acompanha as ações do grupo Act Up, na França.

Doentes, os jovens são pura energia. Não custa, ainda que pareça clichê, repetir o quanto a morte traduz a vida, o quanto a aparência de fim lança respiros – e uma frase do protagonista, Sean (Nahuel Pérez Biscayart), quando dramatiza e depois recua como se fosse brincadeira, é justamente sobre a descoberta da vida ao descobrir a aids.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Vida e morte, assim, dançam lado a lado, e o filme é cheio de altos e baixos. É real quando precisa ser, ou seja, quase sempre. É tocante mesmo quando insiste em ser real, ou apelar à carne. Ou seja, quase sempre. É um desses apelos à palavra que não demanda rodeios, nas discussões que às vezes dão a impressão de não tirar ninguém do lugar.

Discutem e atacam. Na verdade, atacam mais do que discutem. Seus encontros têm regras próprias. Os aplausos não se fazem com palmas, mas com estalos do dedo. O som daquela sala, a sala de aula, encontra organização entre a aparente bagunça de vozes que se cruzam, que digladiam enquanto a discussão avança. Os temas são variados, todos sobre o que fazer enquanto o tempo passa, enquanto a morte é mais próxima. Discutem como chamar a atenção, como gritar no rosto das autoridades. Algo como “quero viver!”.

O filme de Robin Campillo é, inteiro, sobre esse grito. Não dirão exatamente isso. Sacam outras palavras, novos protestos, no tempo que conta à medida que outras partículas desmancham-se no ar, à medida que a vida de cada um – ou de todos – deixa ver o desespero do momento, as manchas comuns aos filmes sobre a aids.

As manchas no corpo, aqui, são mais “naturais”. Ou apenas parecem. Campillo não as usa para dar peso ao drama. O filme não apela ao aspecto da pessoa doente que carrega, nos detalhes, um estado de miséria. Tampouco à frase sensível, ao mero gesto amoroso que tanto maqueia as relações; prefere o sexo verdadeiro, a carne, a dança, a música eletrônica.

Sean aos poucos ganha protagonismo. Poderia, fosse outro filme, apenas servir de base ao rapaz ao lado, o novo amante que, no início, descobre o Act Up. O outro, Nathan (Arnaud Valois), é o deslumbrado, a quem tudo, na partida, é novidade. O que lhe chama a atenção é a energia dessas pessoas dispostas a lutar.

Vem então o experiente, aquele que falará sobre a responsabilidade de quem leva o vírus e de quem o recebe – ambos com responsabilidades iguais, segundo ele. Os amantes não abrem mão do prazer, apesar da aids. Campillo, em belo momento, filma os rapazes na cama, à noite, quando Nathan vê uma foto da mãe de Sean e questiona o outro sobre o possível incômodo de estar sob a observação da mulher.

Antes, em uma escola, é Sean quem rouba um beijo, em provocação à garota que dizia não precisar de proteção, associando a aids aos homossexuais. À mesma, coitada, para estar à mercê do vírus bastaria ser lésbica. É quando Sean dá-lhe o troco não em palavras, mas no beijo que toma do novo companheiro. O rosto de Nathan é, outro vez, de deslumbre.

O trabalho de Campillo ultrapassa essa relação. Vai dela ao grupo. A história de amor não se opõe à ação. O oposto também não se vê. Ao fim, quando todos estão reunidos ao redor de um corpo, o espectador entende que há mais em jogo: o grupo, dessa vez em quietude, em lágrimas, volta a se unir. A manhã se aproxima, a vida continua.

120 Batimentos por Minuto, desde o título, tem a pulsação como central, o que pode ser traduzido pelas batidas do coração ou pela música penetrante. Por trás da luta, da dança, das investidas no jantar de grã-finos para protestar ou da invasão de um laboratório que se recusa a divulgar resultados sobre testes com um medicamento. Os jovens são incansáveis. De batida em batida, elevam o ritmo; a despeito das partículas, permanecem juntos.

(120 battements par minute, Robin Campillo, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Seis filmes sobre a aids e seu impacto social

E a Vida Continua, de Roger Spottiswoode

As lembranças que perturbam o protagonista, o médico Don Francis (Matthew Modine), levam a outro país, a outras pessoas, a outra doença. Ele estava às margens do rio Ebola, no Congo, quando viu a devastação causada pela doença que levaria o nome do afluente. Veria, anos depois, a devastação causada pela aids, ao longo dos anos 80.

Ainda no continente africano, ele é interpelado por um jovem desesperado. Deseja saber por que ele, um médico, não pode salvar as vítimas. Mais ainda, por que não tem as respostas àquela ação do inimigo invisível. Por sinal, o médico não tem respostas. O rapaz tem alguma razão. O filme de Roger Spottiswoode lida o tempo todo com a impotência.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Reconstrói, no início dos anos 90, o surgimento da aids e sua proliferação por alguns países do mundo, especialmente os Estados Unidos. Passa por inúmeras vidas sem perder o mesmo médico de vista. Chega à politicagem e seu silêncio perpetrado, por certo tempo, pelo republicano Ronald Reagan, depois à vaidade do médico americano que queria para si a descoberta do vírus que, antes, havia sido detectado pelos franceses.

Para além de questões políticas e científicas que o filme reconstrói, na luta e no clima da época, há questões humanas que, não raro, proporcionam o drama do qual a obra alimenta-se. Sequências como a caminhada de Francis pela chuva, que o faz retornar àquele fatídico dia no Congo, são postas propositalmente para emocionar.

Verdade que esse filme feito para a televisão, bancado pela HBO, tem inúmeros méritos. O elenco é adequado, a direção é eficiente na medida do possível. Por outro lado, resta a impressão de que houve certo cuidado para “não avançar demais”, “não mostrar muito”, talvez pelo medo da recepção pelos telespectadores da época.

A questão social retratada, como lembra o crítico Heitor Augusto, não pode ser restringida aos anos 80. A época em questão, com a aids, é um momento para soterrar o sentimento de liberdade, a luta e os avanços de décadas anteriores – com seus altos e baixos. A aids tomava o mundo de assalto ao embutir medo, ao frear liberdades sexuais, além de ser chamada de “praga gay”, o que atingia em cheio determinado grupo.

A abertura no Congo tem justificativa: os afetados e esquecidos, antes, eram os negros de um continente pobre; as vítimas de outra doença, em seguida, são os homossexuais de um país rico então governado por um presidente conservador. Era mais fácil, ao que parece, deixar os gays em gueto próprio, a se virar como podiam com seus problemas.

Vilão maior, aos investigadores ou aos doentes, é o medo. O do médico, o medo de não ter as respostas que os outros exigem. A doença, durante bom tempo, está à frente, disseminada, à espera de compreensão. Homens batem cabeças o tempo todo. O filme é recheado de diálogos, de cruzamentos, de pequenas personagens que somem e depois reaparecem, de figuras que sequer têm nome – como a personagem de Richard Gere.

Um dos infectados, comissário de bordo, fala com prazer à médica – ainda pouco consciente do estrago da doença, sem saber que ele próprio está doente – dos vários homens com os quais foi à cama, dos quais, em muitos casos, sequer lembra o nome. O filme, nesse ponto, fornece a imagem do gay que ronda a cabeça dos preconceituosos. É um dos pontos baixos. O gay em cena é promíscuo e despreocupado, caricato.

Tal personagem passageira pode gerar ainda outra interpretação: o relato prazeroso de suas aventuras pelo mundo é o sinal que de as liberdades individuais atingiram – para o bem e contra o medo e a culpa – o máximo. Pode ser vista com dubiedade, até coragem.

Ao que parece, o título original, And the Band Played On, faz referência à peça Os Rapazes da Banda, de Mart Crowley, que virou filme pelas mãos de William Friedkin. Interessante pensar no título, na tal banda que segue tocando, viva, sem que seja necessário se esconder, com medo, após as muitas conquistas de décadas anteriores.

(And the Band Played On, Roger Spottiswoode, 1993)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Mulheres do Século 20, de Mike Mills

Seis filmes sobre a aids e seu impacto social

De forma geral, os filmes abaixo abordam questões sociais. Em todos estão a homossexualidade, o preconceito, a associação errônea entre o gay e a doença, como se outros grupos estivessem ilesos. Em todos os casos saltam, sobretudo, histórias humanas que esbarram na política, nos tribunais, que geram protestos. Ainda que a doença, hoje, não assuste como antes, as obras abaixo dão uma visão poderosa de determinada época em que reinaram a desinformação e o medo.

Meu Querido Companheiro, de Norman René

Nem o visual nem o elenco ajudam muito. Ainda assim, o filme é lembrado por ser um dos primeiros a abordar a presença da aids em uma comunidade gay. Bem ao espírito daquele momento, os anos 80, mostra a passagem da vida de liberdades e sucesso ao momento de relaxamento e medo. A doença ganhava espaço na mídia.

E a Vida Continua, de Roger Spottiswoode

Produção feita para a televisão e patrocinada pela HBO. Está cheia de nomes conhecidos, alguns em pequeníssimos papéis. Centra-se tanto na luta dos médicos para descobrir a doença e chegar ao vírus quanto na reação dos homossexuais, nas mortes, além do silêncio ensurdecedor do então presidente Ronald Reagan.

Filadélfia, de Jonathan Demme

A história do advogado que move um processo contra o escritório em que trabalhava, após ser demitido por ter contraído a aids. Hanks brilha no papel e leva seu primeiro Oscar. O filme teria sido uma resposta do diretor à comunidade gay, devido aos ataques que sofreu pelo anterior O Silêncio dos Inocentes, no qual o assassino é homossexual.

Clube de Compras Dallas, de Jean-Marc Vallée

Homofóbico, o protagonista é Ron Woodroof (Matthew McConaughey), eletricista que descobre ter aids e, mais tarde, a possibilidade de lucrar ao vender medicamentos aos doentes de seu país. Aborda também a briga para possibilitar o tratamento, em uma cruzada que faz nascer o herói da personagem errante e desagradável.

The Normal Heart, de Ryan Murphy

Outra produção da gigante HBO. Os Estados Unidos dos anos 80, das liberdades ao medo, com a luta da comunidade gay para forçar os políticos e a nação a olharem à devastação da doença. No elenco, Julia Roberts e Mark Ruffalo têm bons momentos. O destaque fica por conta de Matt Bomer, que ganhou o Globo de Ouro de ator coadjuvante.

120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo

As investidas do Act Up na França. O filme chama a atenção pela energia, pela velocidade, pelo desejo de mudança entre jovens. Em clima realista e montagem rápida, mostra das reuniões do grupo às ações em campo, das festas regadas à libertinagem à imposição do doença que, ora ou outra, faz novas vítimas. Grande Prêmio do Júri em Cannes.

Veja também:
Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Verão 1993, de Carla Simón

A câmera avança à criança que caminha. Suas costas estão próximas, também os cachos. O fundo não é visto facilmente. Há pouca profundidade em Verão 1993, sobre uma menina que perde os pais, vítimas da aids, e, sem saber, carrega o mesmo vírus nesse filme tocante, realista, à base de movimentos e reações verdadeiras.

Para a felicidade do espectador, a criança é criança: sem enfeites, sem frases artificiais, sem aparente interpretação. A câmera está a seu serviço, não o oposto; há momentos em que se vale do registro, do olhar, o da menina real. À casa de campo em que é levada, a menina passa a viver com os tios e a prima, a nova família.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Adaptar-se é o passo seguinte. Observar o novo mundo, a natureza, os muros artificiais, o sangue que sai do joelho e põe medo, a certa altura, na mãe de outra criança, na escola. O sangue é, ao mesmo tempo, sinal de perigo a alguns, sinal de rompimento, de descoberta a essa menina que se depara com o mundo bruto.

Mais tarde, com olhar magnético, ela observa o sacrifício do cordeiro, a maneira como os homens seguram o pescoço do animal até vazar todo sangue. O vermelho é mostrado, posto à cena para se entender do que trata a obra de Carla Simón: a criança fará descobertas sozinha, em silêncio, como se viu em outros grandes filmes da história, como os franceses Brinquedo Proibido e Os Incompreendidos, para ficar em dois exemplos.

Pelo verde que cerca sua nova casa, no campo, ela percorre uma trilha que leva ao buraco de uma árvore, no qual está uma santa. Por ali, espera pelos sinais da mãe morta. Sinais que não surgem, e nem poderiam. O filme é realista, feito do registro, à espera do milagre traduzido pelos menores sinais da infância – milagre nada impossível a essa fase da vida.

É o que resume um filme aparentemente sem conflitos: é da realidade desse pequeno ser curioso, atento às trovoadas, aos movimentos dos novos pais, com ciúme da nova irmã, que trata. Mais tarde, quando cansa de esperar para ir embora, resolve tomar a mochila e partir no meio da noite. Fracassa, claro, para retornar à mesma casa, prometendo tentar de novo – no espírito típico dessa infância de descobertas.

As crianças, entende Simón, como entendia François Truffaut, dispensam interpretações: são, sozinhas, sem esforços, feitas para a câmera. Retorna-se assim ao já citado milagre, à pequenez que dá vez a algo não raro assombroso, à vida que se expõe e à qual não se pede nada senão que se desloque, que observe, que espreite o real.

Não custa lembrar o olhar assustado, inesquecível, da pequena Ana Torrent em O Espírito da Colmeia ou Cria Corvos, grandes filmes espanhóis dos anos 70. O olhar ao fantasma, ao cinema de horror, o olhar que traduz o medo nos tempos de Franco. Na Espanha de Verão 1993, a expressão da menina em cena leva às décadas seguintes, à sombra da aids, ao mesmo tempo à descoberta do sangue, da dor, da ausência dos espíritos.

É contra o mundo real que a criança debate-se. Ao espectador cabe a proximidade, saber de sua doença sem que a mesma saiba. Frida (Laia Artigas) não tem consciência dos problemas. O espectador, por sua vez, assiste às conversas e reações dos adultos, tem acesso ao inesperado, a essa odisseia de momentos extraordinários, ainda assim contidos.

(Estiu 1993, Carla Simón, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Campo Grande, de Sandra Kogut