No Coração da Escuridão, de Paul Schrader

A fé verdadeira é um desafio. Por isso, em No Coração da Escuridão, é preciso separar o padre Toller (Ethan Hawke) daqueles que o rodeiam, todos – ou quase – dispostos a não viver a fé dessa maneira – ao contrário do protagonista. Sobretudo a personagem de Amanda Seyfried, Mary, em quem a religiosidade não será intensa.

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É uma daquelas moças que, em filmes sobre padres, ou com estes em posição de destaque, correm para a igreja para preencher o vazio que não sabem explicar, como se na cidade em que vivem nada tivesse além disso, como se na posição em que estão – no caso de Mary, a da viúva – caminho algum houvesse para trilhar senão aquele.

Para ela, aproximar-se de Toller é flutuar, é viver fuga estranha, a proibição explicada pelo aplacamento da dor. Como se a igreja fosse ao mesmo tempo o menos possível dos espaços para reencontrar o amor, ao mesmo tempo o único refúgio possível para vivê-lo de novo. Não à toa, No Coração da Escuridão dá a impressão de se passar em outra época.

Desde o início, com a placa à frente, sabe-se da tradição daquela igreja pela qual passaram diferentes padres. Toller reserva algo dos antigos, resiste a viver entre os novos: o filme de Paul Schrader é também uma defesa desse espírito anterior, que não se curva, ao qual “uma vida sem desespero é uma vida sem esperança”.

As palavras são suas, ditas, a certa altura, ao marido de Mary, dias antes de o mesmo se suicidar. Não chega a ser uma revelação importante sobre a trama. O rapaz, ativista fanático, tenta justificar ao padre por que escolheu não ter o filho que sua mulher carrega, optando pelo aborto. Segundo ele, vida alguma merece estar neste mundo degradado.

Após conversas com o rapaz e com Mary, Toller aprofunda-se nos problemas ambientais. Aquecimento da Terra, animais mortos, pessoas doentes. Ele próprio carrega o câncer e, entre um gole e outro de bebida alcoólica mesclada a outros fluídos, ao que parece acelera o processo de autodestruição, cada vez mais amargurado.

Schrader retorna ao clima frio, o da cidade protegida, dos primeiros instantes de Hardcore: No Submundo do Sexo; aposta, outra vez, na personagem que escolhe o extremismo para resolver os problemas de um universo podre no qual descobre viver, como o Travis de Taxi Driver. Tais mergulhos, como o de Toller, esbarram na religiosidade: o desespero não existe sem a esperança, em algum momento se apela ao sangue.

Diz ao marido de Mary, enquanto tenta convencê-lo a não abortar: “A coragem é a solução para o desespero. A razão não dá respostas. Não sei o que trará o futuro. Temos que escolher apesar da incerteza. A sabedoria encerra duas verdades contraditórias na nossa mente, ao mesmo tempo. Esperança e desespero. Uma vida sem desespero é uma vida sem esperança. Manter essas duas ideias na nossa cabeça é por si a vida”.

Toller prega em uma igreja bela mas vazia. Não se vê sinal de sujeira. Impecável não fosse o piano com defeito. Sua dor ao olhar ao vazio, aos poucos fiéis, faz pensar em Luz de Inverno, de Bergman, no padre que fica sem argumentos perante as questões levantadas por um fiel, que também opta pelo suicídio. O silêncio de Deus, ou a falta de palavras para lidar com algumas questões, faz pensar no cinema do mestre sueco.

No entanto, ao se debater em desespero e utilizar a narração como forma de expor as dúvidas da fé, ou da profundidade da entrega, é em Robert Bresson que Schrader mira outra vez. Para homens como Toller, a fé é um problema necessário; em mundos como o seu, nos quais a degradação exibe-se o tempo todo, atos de desespero são palpáveis.

O padre que não compreende “como falam tão facilmente de rezar aqueles que realmente nunca rezaram” poderá, à luz fria e não menos profunda de Schrader, tornar-se um homem-bomba como solução aos cânceres que tomam sua igreja-museu. Contra a entrega à morte – longe do clichê, do efeito meloso – há, possível, curioso, o amor.

(First Reformed, Paul Schrader, 2017)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Quadros: Hardcore: No Submundo do Sexo

Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper

A transformação de uma cantora de talento em Lady Gaga diz muito sobre a nova versão de Nasce uma Estrela: os candidatos e candidatas ao posto precisam se adaptar aos palcos, servir a uma monstruosidade chamada “mundo do espetáculo”. Não que não fosse assim há décadas. As regras do jogo feito à purpurina são antigas.

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A nova versão é dirigida por Bradley Cooper, também um dos roteiristas e à frente do elenco, ao lado de Gaga. As linhas gerais continuam intactas: astro da música entra em decadência enquanto sua parceira de palco emerge como estrela. Linhas da versão de 1976, que levou a história ao mundo da música com Barbra Streisand e Kris Kristofferson.

Se Streisand pode ser a mesma o tempo todo, do anonimato à condição de artista famosa, Gaga não tem o mesmo privilégio: ao longo da obra, ela precisa se tornar algo distante do natural – e, é verdade, algo que alimenta a crítica ao mundo dos famosos. É, em cena, a Gaga conhecida, que precisou se despir para ser a mesma.

Nem nos créditos deixará de lado o nome de sucesso. Diferente de Streisand, que nunca chega a parecer um produto mecanizado, Gaga, ainda que com inegável voz para a música e presença forte na tela, reforça o limbo em que vivem as estrelas.

Cooper mostra que não basta ter talento: de uma forma ou outra, a depender de quem projeta o artista ao sucesso, é necessário vestir uma personagem. É preciso se submeter às chamadas “tendências”, ao império da moda. Gaga, por isso, terá de ser Gaga – como uma obrigação, ao passo que o público fica cansado com tamanha falsidade.

O filme cai. Da naturalidade, do jeito menina que se descobre, que enfrenta o grande público e se apaixona, passa à figura montada. Poderia ser uma crítica contundente, mas Cooper recua. Nunca assume por completo o problema, o de uma indústria que vive de mutações, de peças, de prêmios, de escândalos, de hits passageiros.

Desvia, mira sua personagem, Jack, cantor afundado na bebida, a certa altura sem poder sobre si mesmo. A moça ama-o. O sentimento é recíproco. Sobre ambos está o peso do mundo do espetáculo, massa de moer carne feita aos mais equilibrados, ou àqueles que aceitam perder os cabelos – um pouco da alma – e servir com profissionalismo.

Como Gaga, talvez perto do que seja de verdade (sugestão ao risco do erro); diferente de Jack, homem que existe aos montes, que não aguentou esse mesmo mundo cruel. A ele soma-se o passado de problemas familiares, com o pai e o irmão, refúgio dramático da versão de Cooper – sem lançar toda a culpa no meio em que vive.

Para estar ali ele precisa da bebida. Eis a ironia de Nasce uma Estrela: o mais autêntico é o mais desequilibrado. Desde o início, ele recolhe-se, como se quisesse se esconder; a fala grossa ajuda no tom dramático, trágico; com o motorista, sai em busca de um bar, qualquer um, justamente o local em que se depara com a amada.

A versão de Cooper tem méritos. A falsidade do universo que traz à tona está mais alinhada à versão de 1954, com Judy Garland e James Mason, menos à de 1976. Diferente das duas anteriores, consegue colocar na tela um casal com química. Cooper e Gaga constroem, na primeira metade, uma história de amor convincente.

A versão de Frank Pierson é enfraquecida pela presença de um Kris Kristofferson desalmado, também por parecer apenas um veículo para Barbra Streisand soltar a voz. Neste caso, o cantor em decadência não carrega o mesmo drama e mais parece um adolescente revoltado que picha paredes por diversão e atira contra os indesejados.

Ainda assim, é preciso reconhecer o quanto a aparência suja, real, contribui à alma do filme: a versão de 76 é um retrato da época, na qual artistas revoltados não queriam ser apenas peças fabricadas. Podiam ser eles mesmos. O novo Nasce uma Estrela mostra que bastam o homem, a mulher e um pouco de música. O que vem depois estraga.

(A Star is Born, Bradley Cooper, 2018)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Vídeo: Nasce uma Estrela (1954)

Bastidores: Kramer vs. Kramer

A direção de [Robert] Benton deve primeiro ser elogiada por sua escolha de atores e sua colaboração com eles. Este é seu primeiro filme sério: anteriormente ele dirigiu Má Companhia e A Última Investigação, ambos fortemente cômicos. Aqui ele está lidando com mágoa, mesmo que seja vista através de um temperamento de comédia rápida, e sua mão é justa e correta. Ele se dá bem com o interior das cenas, o movimento dos atores e da câmera, os cortes internos. Minha única briga é com a edição geral, a junção de sequências. Sempre estou consciente de que ele está cortando as lacunas do tempo, começando com uma inserção precoce de caminhões de lixo – depois que Streep sai – para nos dizer que a noite passou. E muitas vezes, no final da seqüência, Benton corta ou desvanece para o preto. Este dispositivo, uma vez comum, é agora relativamente raro e deve permanecer raro. Ninguém quer ser sacudido para a consciência da própria tela enquanto assiste a um filme, a menos que aquele momento de preto, aquela consciência da existência da tela, seja ela própria parte do filme, como às vezes tem sido em Bergman.

Stanley Kauffmann, crítico de cinema, no site da revista The New Republic (a crítica é de dezembro de 1979 e pode ser lida aqui; a tradução é deste site). Abaixo, Dustin Hoffman e Meryl Streep durante as filmagens.

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kramer vs kramer

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Bastidores: Operação França

Culpa, de Gustav Möller

O policial está preso ao telefone, à tecnologia, aos meios que dispõe para ajudar. É alguém humano, obstinado, nem sempre no controle, disposto a não fazer apenas a sua parte. Profissional nada exemplar, ele foi retirado das ruas, confinado à sala da central de emergência da polícia dinamarquesa, atendendo a população.

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Desenrola-se, em Culpa, o que poderia ser uma noite de trabalho como outra qualquer – não fosse a estranha ligação que mudará tudo. O policial Asger Holm (Jakob Cedergren) atende à chamada de uma mulher. Ao que parece, ela foi sequestrada pelo ex-marido e finge, à linha, para conseguir falar com o policial, estar conversando com a filha.

Asger luta, em minutos intermináveis, para descobrir o local em que a mulher está, as características do carro do sequestrador, a casa em que os filhos da sequestrada ficaram e, mais difícil, por que o criminoso teria feito aquilo. Nada será mostrado senão as reações e o ambiente do policial, ora explosivo, ora desesperado.

O filme todo é sustentado a partir da tentativa de salvar a vítima, ou de entendê-la, ou de fazer algo que, nunca em vão, servirá de espelho ao próprio protagonista: o pedido de ajuda da mulher é o caminho para entender o policial. Justifica, assim, o efeito claustrofóbico, o isolamento do público com o homem que, em dia de cão, às vésperas do julgamento que poderá colocá-lo de volta nas ruas, precisa confrontar seus demônios.

O diretor Gustav Möller, em roteiro escrito com Emil Nygaard Albertsen, apresenta um universo em que é impossível se desconectar do outro. E não importa quem seja. O que está em jogo é a empatia, a possibilidade de se aproximar da vítima – de qualquer uma, mesmo que, a certa altura, em aspecto cômico, descarte-se um acidente com bicicleta.

O que dá forma a Asger é a maneira como dialoga, sofre, transpira. A cada volta ao telefone, sem que nada possa fazer, e apesar de sua carga horária ter sido cumprida, ele percebe o quanto pertence àquela história – ou o quanto nada sabe sobre a mulher que pede socorro, sobre seu marido. Mais ainda, sobre a vida que viveram.

Sabe o que deve ser feito no momento, sua ação, apenas, e isso não o conforta. Assim, por meios tortos, às vezes inexplicáveis, ele prefere ficar. Muda de sala, confina-se mais. Chega a ligar para colegas – incluindo o parceiro com problemas com álcool, que no dia seguinte deverá testemunhar a favor dele – para pedir ajuda no caso.

Ultrapassa limites, adentra o inaceitável, quebra o código de ética policial: a certa altura, pede que o amigo, à linha, invada a casa do suposto sequestrador. O público, apenas com Asger e sua parafernália, entende – ou tenta entender – seus crimes. Ao que parece, o policial tem lá seus motivos, talvez seja necessário desobedecer a lei.

É difícil julgá-lo. Resta-lhe, na reta final, a confissão à mulher supostamente sequestrada. O protagonista revela, à menos provável das pessoas, a alguém que sequer pode encarar, a verdade sobre si mesmo. Seu encontro com o espelho é seu encontro com o desconhecido, com a dor que viveu, com vozes que descobriu e curiosamente ajudou.

Ao público é preciso uma dose considerável de imaginação. O universo de Culpa transcende as salas da polícia, as vozes às linhas, o desespero de quem não se vê, mas que compartilha o problema com o qual é impossível não se envolver. Asger, nesse dia turbulento, ouve vozes, reconhece o mal e, para o bem dessa humanidade louca que sente através da linha telefônica, aceita cruzar o limite do aceitável.

(Den skyldige, Gustav Möller, 2018)

Nota: ★★★★☆

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Hannah, de Andrea Pallaoro