Bastidores: Morte em Veneza

Durante o jantar, não consegue retirar os olhos de Tadzio, tendo até mesmo afastado o vaso de flores que enfeita a sua mesa para poder apreciá-lo melhor. Envolvido pela atenção que lhe é demandada, lembra-se de suas conversas sobre o Belo com Alfred, que surgem como se fossem uma iluminação dos sentimentos que agora experimenta e que o fazem pensar sobre as suas próprias convicções. Poderia mesmo o Belo ter surgido assim do nada, do puro acaso de uma combinação genética maravilhosamente realizada, mas que não demandou, na verdade, nenhum trabalho do espírito em sua elaboração? Mas, se negar esta possibilidade com fundamento em suas concepções artísticas, como explicar aquilo que ele tem sob seus olhos, para seu profundo deleite e prazer, fruto proibido do pecado e irresistível convite à paixão? Como explicar este súbito arrebatamento dos sentidos que não é fruto de nenhum trabalho ou exercício do espírito?

Paulo Menezes, professor, em À Meia-luz: Cinema e Sexualidade nos anos 70 (Editora 34; pgs. 103 e 104). Abaixo, o ator Dirk Bogarde nas filmagens.

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A Trama, de Laurent Cantet

Estimulados a criar uma história de ficção, os adolescentes não conseguem escapar à realidade – à deles, à do país em que vivem e, ainda mais, à do momento, com os ataques terroristas promovidos por radicais islâmicos. A roda jovem, por sinal, levanta discussões que passam do diálogo saudável a ânimos exaltados, à quase violência.

O diretor Laurent Cantet outra vez aposta no diálogo. Ou em sua dificuldade, nas palavras que se cruzam e nem sempre deixam entender. Fica a impressão – como em alguns momentos importantes de A Trama – do contraditório. Aos jovens em cena, nem sempre é possível sustentar uma ideia sem parecer um pouco radical.

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O jovem protagonista não será explicado com facilidade. À maioria dos espectadores, é provável que Antoine (Matthieu Lucci) seja presa fácil ao discurso político nacionalista que visa defender territórios e expulsar “estrangeiros” – mesmo quando este conceito, em um país tão miscigenado como a França, escape da definição fácil.

Cantet lança Antoine primeiro ao olhar do público, depois ao da professora à frente desses encontros entre jovens, em uma oficina voltada à criação literária. Ela, escritora, chama-se Olivia Dejazet (Marina Foïs), tem alguns livros no currículo e chama a atenção de Antoine. Ambos tentam se descobrir, quebrar a barreira que os separa.

Os adolescentes constroem juntos o que pode ser uma trama de assassinato, o início de um livro. Surgem sugestões: um corpo em um iate de luxo, um assassino cruel, árabes e franceses, o sentimento de rancor que migra da realidade em que vivem àquela suposta ficção que ganha tons políticos para além das voltas policialescas.

As ideias de Antoine assustam: o jovem sugere que o assassino deve ser árabe, a vítima um típico francês. Poderia, claro. Mas, no caso do garoto, a escolha revela um sentimento de ódio, o que alguns atos, aos olhos de Olivia, só confirmam: os vídeos que posta em uma rede social, com amigos, com arma à mão, com o rosto sujo de lama.

Impressiona, em A Trama, o que cerca as personagens, todas as diferenças que dão espaço a uma curiosa semelhança: o desejo por contar histórias. O que mais confronta Olivia talvez seja a qualidade dos textos de Antoine, seus detalhes, a delicadeza apesar do conteúdo, como o sangue que indica pelas palavras, e que gera repulsa nos outros adolescentes.

Correm por ali os restos da história da cidade em que vivem, fincada em rochas, tocada pelo oceano. A história que retorna em filmes antigos, quando, em La Ciotat, a crise de desemprego levou muitos trabalhadores à desgraça – ao suicídio, ao alcoolismo, ao drama de não se ter nada, como recorda um homem que serve de guia pelo mesmo estaleiro.

Do que restou dele, ainda com suas estruturas, com sua torre que pode ser vista de longe pelos mesmos jovens inclinados a pensar o tempo em que vivem, não o tempo passado. A grandeza desse filme de Cantet reside justamente nesse conflito entre tempos, na nova direita que se projeta no espaço de resistência dos trabalhadores, de passado não tão distante.

Em qualquer caso, na ficção de diálogos ásperos ou nas antigas filmagens da vida à sombra do estaleiro, a realidade pulsa no cinema de Cantet. Parte dela, das relações possíveis mas nem sempre prováveis, o olhar da professora ao aluno, do aluno à professora. Da intelectual e escritora ao jovem que pode ser mais um entre tantos a se fundir às fileiras do extremismo que visa fechar barreiras, de discurso totalitário.

A atração dela pelo menino reserva-se à ideia que o mesmo parece emitir, pela constatação do mal que representa – tão perto, tão verdadeiro. Ele, por sua vez, vê-se atraído pela mulher formada, pelas palavras de seu livro, pela vida distante e confortável que projeta. Tentar invadir a realidade do outro, para ambas as personagens, pode ser traumático.

(L’atelier, Laurent Cantet, 2017)

Nota: ★★★★☆

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Bastidores: A Estrada da Vida

Nunca peço ao ator um esforço de interpretação particular, ou seja, nunca me obstino a fazê-lo dizer meus diálogos num dado tom. O caso de Giulietta interpretando Gelsomina é o único exemplo em que obriguei uma atriz que tem um temperamento exuberante, agressivo, até pirotécnico, a fazer o papel estilizado de uma criatura retraída de timidez, com um clarão de razão e de gestos sempre no limite da caricatura e do grotesco. Isso me demandou um esforço muito grande e nesse caso particular, Giulietta, contrariamente ao que ela fez por Cabiria, precisou de um esforço de interpretação muito grande, porque Gelsomina é uma “interpretação” enquanto “Cabiria” estava muito mais na sua afinação, com sua agressividade, seu temperamento quase um pouco alucinado, sua prolixidade.

Federico Fellini, cineasta, na revista Cahiers du Cinéma (nº 84, junho de 1958; traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr. e publicado na Contracampo; leia aqui). Abaixo, Fellini e Giulietta Masina.

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Nocturama, de Bertrand Bonello

Entre bombas e explosões, uma estátua queima em Paris. Não qualquer uma: é a estátua dourada de Joana D’Arc, a pensar na luta, na liberdade, no gesto feminino. Quem a encara antes de atear fogo é uma das garotas que participam dos atos terroristas apresentados pelo filme de Bertrand Bonello. A estátua, na imperfeição do talho, na composição da face, parece reter lágrimas. A menina observa-a, como se a compreendesse.

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Seu grupo, em Nocturama, mais um filme extraordinário de Bonello, decide praticar atos terroristas em Paris. A obra conversa com a atualidade, em tempos de explosões em estádios, de chumbo em casas noturnas. Mas Bonello revela os revoltados de dentro, jovens de classe média que se unem para abalar a ordem, dar um recado, não necessariamente para matar.

Mais tarde, indagam-se sobre quantos teriam morrido com seus atos. Primeiro estão livres, em andanças, sob a montagem alternada, de um lado para outro: pelo metrô, pelas ruas, pelo interior dos carros, pelas portas que não deveriam atravessar, armados para matar alguém e, no caso da garota citada, próxima à estátua atingida pelas chamas.

Das ruas seguem a uma loja de departamentos. São cercados – e vestidos, levados a consumir com o furto, por diversão – por produtos de luxo. Marcas, beleza sem vida, manequins que terminam por refletí-los: alguns bonecos possuem as mesmas roupas que as personagens, em estranha e consciente mescla que resulta na inutilidade dos atos em questão: ao tentarem se livrar das amarras do sistema, terminam como sempre foram.

Há, portanto, distância incalculável entre a estátua da mártir e o boneco feito em linha de produção, para a linha de produção: cada forma morta tem sua representação própria e, frente aos jovens, servirá aos questionamentos aos quais Bonello conduz o público. Não estranha que o filme tenha sido rejeitado por tanta gente, pois não diz a que veio.

Seria, sob o julgamento fácil, um filme sobre terrorismo. Mais parece um filme sobre niilismo, descrença, sobre questionar o modelo vigente: em diálogo com a amiga e cúmplice, um dos jovens arquitetos dos atos dá indicações de seus impulsos. Eles conversam sobre política em uma lanchonete. “Qual a sua teoria?”, pergunta a menina. “Basicamente, o século 20 demonstra que a democracia perfeita cria problemas, e só pode ser julgada por seus críticos, não pelas suas consequências”, responde. Em seguida, conclui: “observamos que a civilização tem as condições necessárias para a ruptura da sociedade”.

Cerca-se pelo mal-estar. Da tensão das ruas, dos atos, do tempo contado no relógio, do celular que reproduz a comunicação em imagens – não poderia ser diferente – desses tempos atuais. Jovens matadores decididos a explodir o mundo, ou parte da capital que, diziam alguns, aspirava à liberdade plena. Jovens de roupas coloridas, não tão distantes de crianças.

Por isso o filme assusta tanto: é da reprodução do medo que se fala. Primeiro, o medo do que vem pela frente; depois, o medo da morte, a madrugada no interior da loja, quando a maior parte – ou todos – entende que não há saída. Está presa àquilo que deveria combater, talvez sem enxergar, ou entregue a suas benesses: um templo de consumo.

Um deles, interpretado por Finnegan Oldfield, convida um casal de mendigos para o interior do loja. Enquanto Paris pega fogo, do lado de fora, os pobres esbaldam-se sob a imagem de uma marca qualquer, sob a facilidade de tomar e consumir. O momento em que banqueteiam faz pensar em Viridiana, de Buñuel, com o falso sentimento de acesso ao paraíso dos ricos.

Os jovens terroristas acompanham as novidades pela televisão. Aguardam o amanhecer. O filme oferece, em momentos, o retorno ao passado, a um fato ocorrido há horas ou, depois, há instantes. A narrativa de Bonello oferece o mal em diferentes pontos de vista, enquanto a música é cortada por tiros, ao passo que o fim é iminente.

(Idem, Bertrand Bonello, 2016)

Nota: ★★★★☆

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