Listas

15 obras-primas que saíram de Cannes sem nenhum prêmio

O Festival de Cannes acertou várias vezes. Mesmo quando não entregou sua Palma de Ouro para um grande filme em disputa, a compensação veio por outro prêmio. No entanto, há casos de obras-primas que saíram do famoso festival francês sem um único prêmio, como se vê na lista abaixo, de 15 títulos escolhidos a dedo.

Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais

É considerado para muitos um divisor de águas na História do Cinema, revolucionário na mistura de cinema e poesia, sobre a relação de amor entre um japonês e uma francesa na cidade atingida pela bomba.

Os Inocentes, de Jack Clayton

Filme de fantasmas com Deborah Kerr no papel de uma governanta recém-chegada a uma grande casa para cuidar de duas crianças. A fotografia de Freddie Francis é um dos pontos altos da obra.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha

Um dos filmes mais importantes do cinema nacional. Foi a Cannes ao lado de outro, Vidas Secas, mas perdeu para o musical O Guarda-Chuvas do Amor. A personagem Antônio das Mortes entrou para a História.

Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri

Dois rapazes caem na noite e contratam duas prostitutas como companhia, para sexo casual. Correm as horas e surgem importantes revelações nesse filme profundo do cinema brasileiro dos anos 1960.

O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso compra outra vida, com o rosto mais jovem e desejável, e vai viver à beira-mar. O que não sabe é que a nova identidade traz também perigo e pessoas estranhas por perto.

Minha Noite com Ela, de Eric Rohmer

Um dos melhores de Rohmer, o mestre dos filmes de encontros e desencontros, da beleza da vida comum. Rapaz religioso vê-se enfeitiçado pela presença de uma bela mulher, após passar uma noite ao seu lado.

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

Menina e o irmão pequeno veem-se perdidos no deserto australiano e recebem a ajuda de um jovem aborígene. Filme espetacular sobre diferentes culturas que se tocam, com linguagem ousada.

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O jornalista de Jack Nicholson muda de vida ao assumir a identidade de um homem morto em um hotel perdido no mapa. Em sua jornada, esbarra em uma nova mulher à medida que o passado volta a perseguí-lo.

O Amigo Americano, de Wim Wenders

Em sua melhor forma, Wenders adapta uma obra de Patricia Highsmith e, à tela, além de Bruno Ganz e Dennis Hopper, leva os também cineastas Nicholas Ray e Samuel Fuller. Puro delírio cinéfilo.

Agonia e Glória, de Samuel Fuller

Momento inspirado de Fuller. O início, em granulado preto e branco, com o cavalo louco sobre a personagem de Lee Marvin após o fim da guerra, é uma aula de cinema e uma das melhores sequências dos anos 1980.

Portal do Paraíso, de Michael Cimino

O grande filme de Cimino – um faroeste moderno e de visual arrebatador – naufragou nas bilheterias e, com frequência, é acusado de ter dado fim à Nova Hollywood. O fracasso custou caro à carreira do diretor.

Van Gogh, de Maurice Pialat

Depois de ser vaiado em Cannes ao recebeu uma merecida Palma por Sob o Sol de Satã, o mestre Pialat voltou ao ensolarado festival para entregar outra maravilha, mas o júri, unânime, preferiu Barton Fink.

A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

Último filme da Trilogia das Cores e de seu diretor, o mestre polonês por trás da série O Decálogo. Aqui, uma bela modelo resgata um cachorro e se aproxima do dono do animal, um juiz que espiona os vizinhos.

Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

O diretor iraniano ganharia a Palma anos depois por Gosto de Cereja. Mas sua obra-prima é este filme, a terceira parte de uma trilogia iniciada com Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, sobre o mundo do cinema.

O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

Nascido no Chile, o grande Ruiz encara nada menos que uma adaptação de Marcel Proust e dá luz a um filme quase sempre labiríntico e com elenco invejável, que inclui Catherine Deneuve e Emmanuelle Béart.

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16 filmes em que as mulheres não são submissas aos homens

Próximos a essas mulheres, os homens ficam pequenos. Alguns, pobres coitados, nem aparecem em tela. E, como se vê abaixo, o poder feminino no cinema é mais antigo do que se imagina. Com o passar das décadas, só tem aumentado – para a alegria de muitos e, em tempos de regresso às pautas conservadoras, tristeza de outros. Heroínas ou até vilãs, essas mulheres transpiram força. À lista.

O Anjo Azul, de Josef von Sternberg

Os alunos do professor vivido por Emil Jannings querem saber o que leva o mestre, todas as noites, ao cabaré distante. Sobre o palco está ninguém menos que Marlene Dietrich, a quem todos se ajoelham.

Pacto de Sangue, de Billy Wilder

A falsidade da peruca loura não tira a força nem torna Barbara Stanwyck caricata em seu filme mais famoso, na pele de Phyllis Dietrichson, que acaba com a vida de dois homens. Clássico absoluto.

Stromboli, de Roberto Rossellini

Em uma vila perto de um vulcão, uma mulher (Ingrid Bergman) enfrenta o olhar desconfiado da população e o machismo que impera no local, visto por ela como prisão difícil de escapar.

Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman

A protagonista, vivida por Harriet Andersson, confronta o pequeno rapaz com seu corpo exposto e sua liberdade. À frente, segue em sua cruzada contra todos, liberta, e chega a encarar a câmera.

O Quadragésimo Primeiro, de Grigori Chukhrai

A mulher, uma atiradora do exército bolchevique, vê-se isolada com um homem do grupo czarista. Surge ali um amor estranho, curioso, com o qual ela deverá se confrontar nesse filme interessante.

Eva, de Joseph Losey

Jeanne Moreau é a destruidora perfeita, a tentação em pessoa, mulher forte, capaz de colocar todos os homens a seus pés. A vítima é Stanley Baker, que tenta sobreviver a ela e às suas investidas.

As Quatro Irmãs, de Gillian Armstrong

Delicado e feminista, o trabalho de estreia da australiana Armstrong conta a história da independente – e nem sempre agradável – Sybylla Melvyn, que nada na contramão dos conservadores de sua época.

Reds, de Warren Beatty

A feminista Louise Bryant (Diane Keaton) é a verdadeira protagonista desse filme sobre tempos de transformação. Ao lado de John Reed, ela assiste à Revolução Russa e confronta os bons modos de seu país.

Corpos Ardentes, de Lawrence Kasdan

Essa espécie de remake de Pacto de Sangue consegue ter uma mulher tão forte quanto o anterior. Em um filme em que o calor é quase uma personagem, ela convence o amante a matar o marido.

Medeia, de Lars von Trier

Medeia resolve se vingar do marido, o guerreiro Jasão, quando descobre que ele vai se casar com a jovem filha do rei. Antes de ser posta em exílio, ela arquiteta um plano cruel contra o companheiro e sua família.

Thelma & Louise, de Ridley Scott

Duas amigas precisam fugir da polícia após matarem um homem. Essa viagem de transformação mistura comédia e aventura e dá vez a um filme encantador, com química invejável das protagonistas.

Instinto Selvagem, de Paul Verhoeven

O detetive vivido por Michael Douglas sabe que pisa em terreno perigoso, mas, tomado pelo desejo, prossegue. Com Sharon Stone à frente, em um jogo de manipulação, é provável que qualquer um faça o mesmo.

As Horas, de Stephen Daldry

Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore são vistas em três histórias diferentes – e três tempos – sobre mulheres fortes que escolheram sobreviver, todas à luz de Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de David Fincher

Rooney Mara brilha na pele da hacker Lisbeth Salander, personagem icônica de Stieg Larsson, unida a um jornalista para investigar o desaparecimento de uma garota. Resultado: ela rouba todas as cenas.

Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller

Tom Hardy até se esforça, mas o filme é de Charlize Theron, a Imperatriz Furiosa de braço mecânico. No meio do deserto, ela desafia um ditador ao fugir com suas ninfas e passa a ser perseguida.

Elle, de Paul Verhoeven

Teve gente que a considerou fraca e até chamaram o diretor de misógino. Mas a dama de Isabelle Huppert, abusada por um homem mascarado com quem volta a se encontrar, é forte e insubmissa.

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Os 100 melhores filmes dos anos 50

Se os Estados Unidos têm 1939 como o grande ano para seu cinema, o Japão tem em 1953 um momento de apogeu. Contos de Tóquio, Contos da Lua Vaga e Portal do Inferno foram lançados nesse ano. Em 1954 chegariam Os Sete Samurais e Intendente Sansho. Fase gloriosa para o cinema nipônico, como se vê na lista abaixo.
Mas não só. Foi uma ótima década para o cinema americano – dos produtos de estúdio, em tela larga, aos dramas realistas com consciência social – e para o francês – do dito “cinema de qualidade” à eclosão das formas da nouvelle vague em Varda, Chabrol, Resnais e Truffaut.

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Está tudo na lista, além de novidades, à época, de países como Índia (Satyajit Ray), Polônia (Andrzej Wajda) e Itália (Valerio Zurlini). Não há filmes brasileiros na seleção e, por isso, alguém deverá reclamar. Alguns grandes trabalhos nacionais (como O Grande Momento e Estranho Encontro) ficaram de fora por simples questão de espaço. Uma lista com 100 títulos pode, à primeira vista, parecer extensa, mas não é.

100) Umberto D., de Vittorio De Sica

99) Doze Homens e uma Sentença, de Sidney Lumet

98) Fogo na Planície, de Kon Ichikawa

97) Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick

96) Verão Violento, de Valerio Zurlini

95) Os Brutos Também Amam, de George Stevens

94) Grisbi, Ouro Maldito, de Jacques Becker

93) A Ponte do Rio Kwai, de David Lean

92) A Morte Neste Jardim, de Luis Buñuel

91) Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann

90) A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder

89) E Deus Criou a Mulher, de Roger Vadim

88) Nas Garras do Vício, de Claude Chabrol

87) Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

86) Juventude Transviada, de Nicholas Ray

85) A Estrada da Vida, de Federico Fellini

84) La Pointe-Courte, de Agnès Varda

83) Mortalmente Perigosa, de Joseph H. Lewis

82) Flor do Equinócio, de Yasujiro Ozu

81) O Testamento de Deus, de Jacques Tourneur

80) Almas em Fúria, de Anthony Mann

79) Eles e Elas, de Joseph L. Mankiewicz

78) Também Fomos Felizes, de Yasujiro Ozu

77) Império do Crime, de Joseph H. Lewis

76) O Alucinado, de Luis Buñuel

75) Bob, o Jogador, de Jean-Pierre Melville

74) Férias de Amor, de Joshua Logan

73) O Segredo das Joias, de John Huston

72) Anjo do Mal, de Samuel Fuller

71) Os Amantes Crucificados, de Kenji Mizoguchi

70) Assim Estava Escrito, de Vincente Minnelli

69) Ben-Hur, de William Wyler

68) Monika e o Desejo, de Ingmar Bergman

67) A Sala de Música, de Satyajit Ray

66) O Homem do Oeste, de Anthony Mann

65) Pacto Sinistro, de Alfred Hitchcock

64) Sombras do Mal, de Jules Dassin

63) Bom Dia, de Yasujiro Ozu

62) O’Haru: A Vida de uma Cortesã, de Kenji Mizoguchi

61) Intriga Internacional, de Alfred Hitchcock

60) A Embriaguez do Sucesso, de Alexander Mackendrick

59) Sedução da Carne, de Luchino Visconti

58) Moulin Rouge, de John Huston

57) As Férias do Sr. Hulot, de Jacques Tati

56) Senhorita Júlia, de Alf Sjöberg

55) Imitação da Vida, de Douglas Sirk

54) Johnny Guitar, de Nicholas Ray

53) Deus Sabe Quanto Amei, de Vincente Minnelli

52) Vidas Amargas, de Elia Kazan

51) Anatomia de um Crime, de Otto Preminger

50) Um Condenado à Morte Escapou, de Robert Bresson

49) Um Lugar ao Sol, de George Stevens

48) Os Esquecidos, de Luis Buñuel

47) Cinzas que Queimam, de Nicholas Ray e Ida Lupino

46) Palavras ao Vento, de Douglas Sirk

45) Rififi, de Jules Dassin

44) A Morte Num Beijo, de Robert Aldrich

43) O Rio Sagrado, de Jean Renoir

42) Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk

41) Os Eternos Desconhecidos, de Mario Monicelli

40) A Casa de Bambu, de Samuel Fuller

39) Orfeu, de Jean Cocteau

38) O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse

37) O Prazer, de Max Ophüls

36) Noites de Cabíria, de Federico Fellini

35) Trono Manchado de Sangue, de Akira Kurosawa

34) Onde Começa o Inferno, de Howard Hawks

33) Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock

32) Viagem à Itália, de Roberto Rossellini

31) A Roda da Fortuna, de Vincente Minnelli

30) Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot

29) Portal do Inferno, de Teinosuke Kinugasa

28) Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan

27) Lola Montes, de Max Ophüls

26) A Marca da Maldade, de Orson Welles

25) Rastros de Ódio, de John Ford

24) O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi

23) Amores de Apache, de Jacques Becker

22) O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

21) Ervas Flutuantes, de Yasujiro Ozu

20) Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder

19) A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

18) Viver, de Akira Kurosawa

17) No Silêncio da Noite, de Nicholas Ray

16) A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz

15) Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa

14) Os Incompreendidos, de François Truffaut

13) Desejos Proibidos, de Max Ophüls

12) Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen

11) Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais

10) A Canção da Estrada, de Satyajit Ray
A primeira parte da Trilogia de Apu é sobre a infância, sobre a descoberta da vida para fora da pequena casa, dos espaços simples de uma Índia rural, antes de se deparar com os trens e com a morte.

9) Pickpocket, de Robert Bresson
A vida de roubos segue uma rotina. Bresson é meticuloso, único nessa reprodução que, ainda que se desvie desse destino, não deixa de mirar à alma de um homem aparentemente vazio.

8) O Mensageiro do Diabo, de Charles Laughton
Os órfãos criados com uma senhora, no campo, esperam pela chegada do homem mau. Duas crianças sabem do destino de uma bolada de dinheiro e são perseguidas pelo vilão de Robert Mitchum.

7) Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan
A trajetória de Terry Malloy, o rapaz feito “menino de recado” dos mafiosos, aquele que poderia ter sido um competidor e teve de entregar a luta. Mais tarde, vê a chance de dar a volta por cima.

6) Contos da Lua Vaga, de Kenji Mizoguchi
O filme de espíritos de Mizoguchi fala de desejos e perdição, de homens que atravessam um lago à neblina para encontrar uma deusa. As promessas logo se esvaem. Ficam a miséria, os derrotados.

5) Cinzas e Diamantes, de Andrzej Wajda
Matador de aluguel precisa cumprir uma missão no último dia da Segunda Guerra Mundial, momento em que o mundo – em um conjunto de personagens e intenções – mostra-se dividido e confuso.

4) Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder
Norma Desmond desce sua escadaria para encontrar a câmera, os policiais, a imprensa. É seu “grande” retorno, pronta para seu close-up, à medida que se deixa consumir pela película que perde o foco.

3) Rashomon, de Akira Kurosawa
As diferentes versões para um crime são contadas por diferentes pessoas. Os pontos de vista mudam os resultados. Não é possível saber a verdade no filme que levou o nome de Kurosawa ao Ocidente.

2) Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock
Homem com medo de altura precisa decifrar o que se esconde em uma bela loura atormentada, capaz de levá-lo à torre de uma igreja para fazê-lo ver seu medo – a exemplo dos próprios sentimentos.

1) Contos de Tóquio, de Yasujiro Ozu
O Ozu mais conhecido, mais celebrado, em sua melhor forma. Como costume, parte de uma história de linhas simples: pai e mãe saem do interior e seguem para Tóquio para visitar os filhos.
O problema é que o mais jovens – filhos, netos, outros parentes – não têm tempo para o casal visitante. Sem movimentar a câmera em momento algum, com a lente próxima ao chão, o diretor dá vida a uma história tocante sobre o choque entre seres próximos mas distantes.

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Cineastas mais presentes na lista:

  • Cinco filmes: Yasujiro Ozu.
  • Quatro filmes: Akira Kurosawa, Alfred Hitchcock, Kenji Mizoguchi, Nicholas Ray.
  • Três filmes: Billy Wilder, Douglas Sirk, Elia Kazan, Ingmar Bergman, Luis Buñuel, Max Ophüls, Vincente Minnelli.
  • Dois filmes: Anthony Mann, Federico Fellini, George Stevens, Jacques Becker, John Huston, Joseph H. Lewis, Joseph L. Mankiewicz, Jules Dassin, Robert Bresson, Samuel Fuller, Satyajit Ray.

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Dez bons filmes recentes sobre ditadura militar

Ditaduras em diferentes países da América Latina são relembradas em filmes poderosos. As narrativas, em alguns casos, fogem ao esperado: não estão em cena apenas o embate físico, a tortura, as ações clandestinas e outras práticas conhecidas. As obras abaixo – de diferentes países – apostam em abordagens como a infância, a memória, a libertinagem, a família e até uma campanha publicitária com boas doses de graça.

Post Mortem, de Pablo Larraín (2010)

O protagonista (Alfredo Castro) trabalha em um necrotério. Quando os militares tomam o poder no Chile, corpos não param de chegar ao local. Ao mesmo tempo, esse homem recluso aproxima-se de sua vizinha, com pai e amante comunistas. Como no extraordinário Tony Manero, Larraín vai aos anos de chumbo de seu país.

Infância Clandestina, de Benjamín Ávila (2011)

Essa produção argentina foi comparada, na ocasião de seu lançamento, ao brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Tratam de assuntos semelhantes: os efeitos da ditadura na vida de dois garotos com pais na luta armada. O protagonista, Juan (Teo Gutiérrez Moreno), vive esse tempo de apreensão enquanto descobre o mundo adulto.

infância clandestina

A Memória que me Contam, de Lúcia Murat (2012)

Já no período democrático, com a esquerda no poder, um grupo de amigos, no Brasil, encontra-se quando um deles está no hospital, à beira da morte. Mesmo antes de morrer, Ana (Simone Spoladore) é o espírito questionador entre todos: é a imagem da liberdade, da revolta nos anos de chumbo, contraponto ao hospital monocromático.

a memória que me contam

O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer (2012)

Documentário poderoso, em momentos difícil de ver, sobre os assassinos a mando dos ditadores na Indonésia. Ao cineasta, eles contam como exterminaram os inimigos comunistas, em detalhes, inclusive reencenando as ações e as torturas. Os homens desse esquadrão da morte gozam a vida em liberdade e ainda reconstroem suas histórias – suas versões – para o cinema daquele país.

No, de Pablo Larraín (2012)

Larraín de novo. Situa-se nos momentos finais da ditadura de Pinochet, no Chile, quando alguns comunicadores – entre eles René Saavedra (Gael García Bernal) – unem-se para derrubar o velho sistema. Utilizam uma arma comum às eleições de regimes democráticos: a propaganda. Nasce assim a campanha pelo “não” (o “no”), com boas doses de criatividade.

no

Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti (2012)

É curiosa a nostalgia que move Giorgetti, mostrando como os tempos de chumbo também davam vez a aventuras amorosas e artísticas. Ao olhar esse passado amargo, o cronista paulistano revela histórias deliciosas, entre elas a da garota Lilian (Julia Ianina), neta de um general (Walmor Chagas), que acaba escondendo dois guerrilheiros em sua casa.

cara ou coroa

Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013)

O contraponto ao militarismo é a libertinagem de um grupo de artistas. Na bela obra de Lacerda, quase tudo está à margem, a começar pelas personagens. E ao centro surge o desejo do soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) pelo homem à frente do cabaré, Clécio (Irandhir Santos), depois de visitar o local. O abismo está exposto: são dois países em um só.

tatuagem

O Clã, de Pablo Trapero (2015)

Mesmo após o fim, a ditadura argentina deixou algumas práticas nefastas em sua sociedade. Entre a família Puccio, seu líder (Guillermo Francella) arrasta o filho mais velho para um trabalho inglório: sequestrar pessoas ricas para conseguir boas quantias de dinheiro. Os crimes são descobertos à medida que a família desfaz-se.

o clã1

O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán (2015)

O documentário do mestre Guzmán (responsável pelo referencial A Batalha do Chile) é uma continuação de A Nostalgia da Luz. Mescla a história do universo, a do cosmos, à sede de poder que culmina com a presença dos militares e as vítimas de Pinochet. Delas, sobram os botões de pérola: as partículas que resistem à água salina.

Uma Noite de 12 anos, de Álvaro Brechner (2018)

A história do cárcere de três revolucionários no Uruguai ditatorial dos anos 1970 e 1980, um deles José Mujica (Antonio de la Torre), que se tornaria presidente do país anos depois. Momentos de dor são casados à ternura. O tempo passa e os homens tentam sobreviver à escuridão dos buracos em que são lançados, em luta contra a insanidade.

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Dez grandes filmes sobre nossos tempos de violência

A lista abaixo agrupa filmes de diferentes épocas com algo em comum: todos oferecem retratos devastadores das consequências de uma sociedade violenta. Filmes que, mesmo com a aparência de certa gratuidade, não terminam na tela.

Violência ao Meio-Dia, de Nagisa Oshima

Duas mulheres mantêm uma relação estranha com um estuprador e assassino. Uma delas foi salva e abusada pelo criminoso, a outra se casou com ele. Relutam em entregá-lo à polícia. A certa altura, o filme leva a uma floresta, à abordagem do suicídio. Esse filme extraordinário de Oshima nem sempre é lembrado.

O diretor aposta em uma narrativa não linear, diferentes tempos que levam ao encontro das mesmas pessoas em cena. Começa como um filme policial, de abuso, segue a um drama em que as mesmas duas mulheres questionam seus papéis nessa sociedade insana. Até se aproximarem do suicídio, do impensável.

A Sangue Frio, de Richard Brooks

Do livro de Truman Capote, o filme é visualmente belo, com fotografia do mestre Conrad L. Hall. A música é de Quincy Jones. Brooks produziu e dirigiu. O próprio Capote confessou não ter gostado tanto do resultado final. Em cena, a viagem de dois assassinos rumo a um assalto que se transforma em massacre.

Interessante observar que Brooks dá a Robert Blake um papel profundo, e o mesmo não faz feio: seu homem, a despeito das aberrações praticadas, nunca chega a ser um monstro. O filme não é fácil. Essa jornada real, claro, não poderia terminar bem. Para complemento, vale assistir ao ótimo Capote, de Bennett Miller.

Se…, de Lindsay Anderson

Antes de ficar imortalizado pela imagem de Alex, em Laranja Mecânica, Malcolm McDowell entregou-se a outro rapaz violento nesse filme sobre a repressão em uma escola britânica, sob a ordem religiosa. Mescla cores com o preto e branco. Um estudo poderoso da revolta entre jovens.

Levou a Palma de Ouro em Cannes em 1969, um ano após o festival ser cancelado devido ao Maio de 68. Fica claro, pelo escolha, uma Palma alinhada àquele tempo, do novo contra o velho, sem julgamentos fáceis. Anderson fez outros bons filmes, nenhum à altura deste.

Cães Raivosos, de Mario Bava

Diferente de outros filmes que o fizeram famoso, no campo do terror sobrenatural, o mestre italiano vai aqui ao espaço do possível, da realidade, da violência. Aborda um sequestro, o confinamento de diferentes pessoas – bandidos e sequestrados – no interior de um carro. É sobre o tempo, sobre o suor visto em cada face.

Os homens são como cães: estão presos a uma certa condição. E nem as vítimas serão exatamente quem parecem ser. Entre os homens, ou cães, há uma mulher. O desejo pelo sexo surge facilmente, parte ao abuso, o que faz elevar a tensão. Um filme que merece ser descoberto e que prova a versatilidade de Bava.

Taxi Driver, de Martin Scorsese

O homem crê-se guiado por força maior para “limpar” a cidade da sujeira que assola. No táxi, vaga como um caubói, logo armado, com faca presa à bota, pistola acoplada a um dispositivo de metal que a faz correr pelo braço. Estará pronto – com o cabelo moicano – para enfrentar seus algozes, pronto para a guerra.

Certa noite, esse homem (Robert De Niro) quase atropela uma jovem prostituta (Jodie Foster). Aproxima-se da menina, deseja salvá-la. O roteiro é de Paul Schrader, que, diz a lenda, teria se inspirado em Rastros de Ódio, de Ford, no qual um pistoleiro percorre meio mundo para salvar a sobrinha, raptada pelos índios.

A Isca, de Bertrand Tavernier

O diretor, também crítico e historiador, realizou algumas pérolas que merecem destaque. Uma delas é A Isca, que ficou com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, desbancando Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, e O Vício, de Abel Ferrara.

É a história de três adolescentes franceses que sonham abrir uma loja nos Estados Unidos. Animados pela violência de filmes como Scarface, de Brian De Palma, decidem cometer um crime que termina em assassinato. A isca em questão é a bela Marie Gillain. Retrato de uma geração vazia.

O Invasor, de Beto Brant

Dois homens, sócios em uma empreiteira, unem-se para matar uma terceira figura metida nesses negócios. O filme é uma denúncia pesada – ainda atual – sobre a união dos extremos, sobre um Brasil confuso, no qual uma certa classe média alta recorre à bandidagem da ala baixa para se manter no poder.

Ivan (Marco Ricca) e Giba (Alexandre Borges) contratam um homem que, em cada poro do corpo, transpira mal-estar, Anísio (Paulo Miklos). O problema é que o contratado quer mais, passa a invadir a vida dos outros dois. Brant é um dos grandes diretores surgidos no período da Retomada.

Elefante, de Gus Van Sant

À frente, a tragédia de Columbine, quando dois meninos armados invadiram uma escola americana e abriram fogo, armados até os dentes, contra outros adolescentes. Ao fundo, uma incursão – em planos longos – por corredores povoados ora por jovens esperançosos, ora por figuras vazias, em um dia que deveria ser como outro qualquer.

As feridas da tragédia real ainda eram evidentes quando Van Sant resolveu fazer esse filme, com elenco quase inteiro desconhecido. Em cena, o comportamento de rapazes e meninas em um local onde todos, alienados ou não, são vítimas. Jovens contra jovens, algo difícil de compreender.

O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

O que se convencionou chamar de classe C ganha espaço nesse filme vibrante, sem vilões claros, tragédia que começa com o desaparecimento de uma criança. Levadas à delegacia, os envolvidos no caso, entre suspeitos e vítimas, começam a dar seus relatos ao delegado.

É quando vem à tona a relação extraconjugal do explosivo Bernardo (Milhem Cortaz) com a jovem e bela Rosa (Leandra Leal). Apaixonada, desesperada, também excluída, a moça decide se vingar do amante e se aproxima de sua família. Torna-se amiga de sua mulher, Sylvia (Fabiula Nascimento). O desfecho é brutal.

A Gangue, de Miroslav Slaboshpitsky

Filme sem diálogos feito por elenco de jovens surdos-mudos. Experiência visceral no interior de um internato. Ali, os adolescentes formam um grupo criminoso, a gangue do título. A obra segue um recém-chegado em sua jornada com os outros, em seu interesse por uma menina que se prostitui para caminhoneiros em local afastado.

Não há concessões. O filme tem cenas violentas. Ainda que pareça clichê a expressão, o silêncio é aqui ensurdecedor. Slaboshpitsky expõe essa caminhada com calma. Contra as doses de crueldade fica o sentimento visto no protagonista. Em poucos momentos, ele ainda consegue se desviar da “escola do crime”.

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