Imagem

Vittorio Taviani (1929–2018)

Nunca pensamos que para falar da realidade que nos cerca seja obrigatório realizar obras ancoradas no presente. Não é preciso estar no contexto da crônica diária para refletir sobre a realidade. O equívoco surge da confusão que muitas vezes se faz entre a trama e o sentido de um filme. Não é na trama e em sua ambientação – uma série de acontecimentos que move uma série de personagens – que encontramos a verdade de um filme: a verdade está no sentido, nos sentimentos, nas reações que aqueles acontecimentos provocam no espectador: enfim, está justamente naquela lasca de sentido que um autor procura extrair do caos da vida que experimenta na convivência com os demais.

Vittorio Taviani, cineasta, em entrevista contida no livro Cinema Político Italiano – anos 60 e 70, de Angela Prudenzi e Elisa Resegotti (pg. 112; Cosac Naify). Com o irmão Paolo, Vittorio realizou grandes filmes como Pai Patrão, A Noite de São Lourenço e Kaos. Abaixo, à direita, ao lado de Paolo, nas filmagens de César Deve Morrer.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Bastidores: Viagem à Itália

Milos Forman (1932-2018)

Fazer cinema é como amar: você tem que sentir um frio na barriga a cada nova paixão. Eu não sinto mais essa sensação. Então não há o que contar. E, no meu caso, se não há desejo, não há como dar prosseguimento ao tipo de obra que eu construí, centrada no embate entre o indivíduo e as instituições.

(…)

Para fazer um filme, você precisa de tempo para entender o que ele representa, como narrativa, como linguagem, como gesto político. Não tenho mais esse tempo. Estou velho. Não houve problemas com Hollywood, até porque, nos EUA, onde vivo como cidadão naturalizado americano, ninguém jamais será tratado como artista excluído se tiver ideias minimamente rentáveis, por mais polêmicas que sejam. A questão comigo hoje é mais do que cansaço. É a sensação de que não há mais interesse pela verdade individual. Ninguém mais quer se debruçar sobre o ponto de vista de um autor e dissecar seus sentimentos. E cinema para mim é compartilhar verdades minhas e trocá-las pelas verdades dos outros, a verdade do espectador, do crítico.

(…)

Tecnologia nenhuma é difícil de dominar quando você entende da técnica do cinema. Mas de nada adianta um parque tecnológico sofisticado se você não tiver uma boa história para contar. Esse é o paradoxo estético do cinema.

Milos Forman, em entrevista ao jornal O Globo (junho de 2014; leia a entrevista completa aqui). Abaixo, o cineasta nos bastidores de Um Estranho no Ninho, que lhe rendeu o primeiro Oscar de melhor diretor.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

forman

Veja também:
Mike Nichols (1931-2014)

Bastidores: Em Pedaços

Com notável segurança narrativa, Fatih Akin desenvolve ao mesmo tempo, de forma imbricada, o resvalamento de Katja em seu abismo interior e a sua ação externa em busca de vingança, com uma atitude que em vários momentos parece adquirir um aspecto de hipnose ou sonambulismo. Uma mulher que passou pelo que ela passou é capaz de tudo – e o filme explora muito bem essa imprevisibilidade, bem como o terreno movediço em que Katja se move. E não foi por acaso que Diane Kruger ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes.

José Geraldo Couto, crítico de cinema, jornalista e tradutor, em seu blog no site do Instituto Moreira Salles (leia aqui o texto completo). Abaixo, o diretor Akin e os atores Diane Kruger e Numan Acar durante as filmagens do longa-metragem.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Bastidores: Dois Dias, Uma Noite

Monólitos da vida real

O monólito de 2018 está acoplado ao corpo humano, quase uma extensão dos membros superiores. Aparelhos celulares e tablets que têm se mostrado fonte de tristeza, solidão e discórdia, muito mais do que de iluminação.

A semelhança do iPhone com o monólito só não é mais assombrosa porque Steve Jobs e seus colegas são fruto da cultura que bebe consciente ou inconscientemente em Kubrick. É uma geração que conheceu 2001 ainda criança e que carrega o filme em seu imaginário.

No enredo do longa, a equipe que avista o misterioso objeto negro na Lua, procurando manter segredo sobre a descoberta, inventa a história de que haveria uma epidemia na base lunar. No episódio inicial do filme, o efeito do monólito nos símios é epidêmico: o primeiro animal transforma o osso em ferramenta/arma, e não tarda para que seja imitado pelos outros.

O paralelo com a atualidade salta aos olhos: adultos, jovens e crianças vivem afundados nesses monólitos portáteis, com consequências que vão de epidemias de obesidade, depressão e suicídio até atentados com armas.

Helen Beltrame-Linné, editora-adjunta da Ilustríssima, no caderno Ilustríssima (Folha de S. Paulo; 01 de abril de 2018). Leia aqui o texto completo (para assinantes). Abaixo, três momentos de 2001: Uma Odisseia no Espaço em que surge o monólito alienígena.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Os cinco melhores filmes de Stanley Kubrick

A relação gay em Ben-Hur

Nos especializamos nos subtextos… sem dizer uma palavra sobre ele. O melhor exemplo disso para mim foi escrever Ben-Hur. Ben-Hur e Messala, um judeu, o outro romano, se conhecem desde a juventude. Brigaram por política e se odiariam pelas próximas três horas. Não é muita coisa para fazer um filme de três horas, mesmo para um épico como Ben-Hur. O diretor, William Wyler, perguntou o que eu ia fazer. “Quero tentar uma coisa. Digamos que eles se conheçam há muito tempo. Foram amantes e agora se reencontraram, e o romano quer reatar o romance. Messala, que é Stephen Boyd, quer começar de novo com Ben-Hur, que é Charlton Heston. Sei lá por quê. É um romano.” Willie ficou me olhando, incrédulo. Falei: “Não vou falar nada. Nem uma palavra. Não será declarado, mas ficará claro que Messala é apaixonado por Ben-Hur.” Willie disse: “Gore, isto é Ben-Hur. O subtítulo é Um Conto de Cristo”. Aí ele disse: “Bem, é melhor do que o que temos. Vamos tentar”.

(…)

[Wyler] Perguntou se eu tinha falado com alguém. Disse que não. Ele disse: “fale com Boyd, o Messala. Não diga nada a Heston. Pois ele desmoronaria. Deixe ele comigo”. Heston achou que fazia um machão, com a cabeça sempre erguida. Stephen Boyd interpretou as duas coisas. Alguns olhares são óbvios.

Gore Vidal, escritor, um dos roteiristas de Ben-Hur, mas não creditado. A declaração está no documentário O Outro Lado de Hollywood (Rob Epstein, Jeffrey Friedman, 1995). Apesar de o roteiro adaptado do livro de Lew Wallace ter sido assinado apenas por Karl Tunberg, ele passou por outras mãos, como as de Christopher Fry e as do próprio Vidal. Abaixo, Boyd e Heston em cena famosa.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Dez clássicos com subtexto gay