O espaço dos rejeitados

Açougueiro, gordo, 34 anos, Marty ainda não conseguiu se casar. A mãe e algumas clientes questionam essa personagem pacata. Ele próprio não tem esperanças: à mesma mãe, em uma das cenas mais comoventes, diz ser feio, o que explicaria o fato de estar encalhado. Sobe o tom de voz e chega a se levantar da mesa, no jantar, em um dos momentos dramáticos inesperados do filme de Delbert Mann, com roteiro de Paddy Chayefsky.

Na mesma noite, ele decide seguir o conselho da mãe: ir a um baile repleto de mulheres interessantes e solteiras. Em Marty, mesmo com o peso da rejeição que o protagonista carrega, resta sempre um ar de esperança em seu sorriso largo, em seu tom camarada e confiável, fruto de Ernest Borgnine, comum, antes, na pele de vilões e coadjuvantes.

No baile, ele encontra seu par, a mulher igualmente rejeitada. A história dela, Clara (Betsy Blair), encaixa-se à dele no momento em que passa por seus olhos o “filme” da vida da moça, cena magnífica e até corajosa. Magnífica pela composição e capacidade de tanto dizer, corajosa porque alonga um plano por mais de um minuto sem corte.

Com Marty, estamos sozinhos no baile. Com Clara, temos algumas pessoas ao lado, o casal de amigos e o amigo deste mesmo casal, indicado para lhe fazer companhia. O problema é que o rapaz não quer nada com ela e, para conseguir curtir a noite em outra companhia, oferece alguns dólares para Marty acompanhar a moça até sua casa.

O encontro dos dois homens ocorre ao acaso. Marty é o primeiro que o outro enxerga, a figura perfeita à mulher que quer descartar. Um encalhado para outro. Mas Marty não aceita o dinheiro e a execução do plano – o que faz o rapaz levar a proposta para outro homem.

A composição da cena, quase toda desenrolada em um único plano (à exceção da imagem do protagonista visto de frente, enquanto ocorre a negociação entre os outros dois), é extraordinária e expressa a ideia da conexão de Marty com Clara: trata-se, no campo exposto à frente dele, o primeiro momento em que enxerga a amada, a história que ele conhece bem, o espaço e o sentimento que lhe fazem sentido. A dor dela é a dele.

Da primeira conversa ao movimento do protagonista, através da parada e da pontuação de cada espaço que ele precisa observar, percebemos a diminuição das pessoas em pé, da aglomeração, até o momento em que o campo é aberto e a maioria está sentada. Da aproximação e da festa passamos ao retrato da total indiferença.

Do canto direito ao esquerdo, pouco a pouco à margem (ou à parte da própria imagem), Marty não precisa se aproximar para entender aquela história, nem nós: o rapaz apresenta o outro a Clara, que, como imaginamos, não aceitará a segunda companhia.

Ficamos com o som da festa. Marty está de costas. O principal está na profundidade de campo, na visão privilegiada, no tamanho de todos os outros (sentados, à exceção dos rapazes) e, sobretudo, na mise-en-scène que expõe com perfeição a mulher aprisionada pelos homens que não a desejam, a quem ela serve como produto a ser descartado. A forma dos homens em pé acompanha os pilares, os riscos das cortinas ao fundo, da mobília.

O “filme” imposto a Marty é o da crueldade. Ele conhece bem. Ao alto, não deixamos de reparar na cortina que remete ao aspecto do palco ou da tela após iniciado o “espetáculo”, a arte como revelação e reflexo de si mesmo, o filme dentro de outro.

Essa história de amor passa-se em um único fim de semana. Não é só Marty que descobre em Clara seu reflexo. Ela não demora a perceber o quanto se encaixam – contra todos os comentários alheios, mesquinhos. Os outros adoram apontar o dedo ao solteirão, mas não suportam saber que ele terminou a noite com alguém e está decidido, no alto de seus 34 anos, a ter uma companheira.

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)