Daria um outro filme a história da equipe de Rio, 40 Graus, por Janio de Freitas

Todos os episódios que envolvem a realização do primeiro filme neorrealista brasileiro, Rio, 40 Graus – desde a ideia que o gerou até o recente ato do Chefe de Polícia revogando sua aprovação pela Censura – por si só bastariam para compor o enredo de um novo filme, tragicômico, em que os principais coadjuvantes seriam o idealismo e a vontade sem desvios, a arte e o estudo da técnica, o humor e as dificuldades mais diversas. Os papéis centrais estariam a cargo de um pequeno grupo de jovens, os quais constituíram a primeira equipe do cinema nacional integrada apenas por brasileiros, e, também, a primeira equipe masculina do Brasil composta exclusivamente de homens.

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O Rio nasceu aqui
A ideia de realizar Rio, 40 Graus surgiu aqui mesmo no Rio de Janeiro, de um jovem advogado paulista que, incompatível com a lida dos processos, trocara-os pela arte cinematográfica. Este paulista é o moço Nelson Pereira dos Santos, que, tão logo, sentiu surgir a história para concretização do primeiro filme neorrealista brasileiro redigiu o script e levou-o à mão de vários produtores. Estes, de pronto garantiram realizá-la, mas embaraços relativos à importação de películas virgens realçavam suas dificuldades, como justificativa dos trabalhos de filmagem.

Nelson, porém, não se dispôs a esperá-los: tomou a si o encargo de constituir uma equipe própria de técnicos e artistas e, logo que possível, iniciar as filmagens.

Voluntários e idealistas
Com essa decisão, Nelson encontrou a primeira grande dificuldade: reunir um grupo de idealistas que, desinteressado das vantagens imediatas, estivesse disposto a enfrentar todas as dificuldades que, certamente, apresentar-se-iam dali por diante.

Em tempo que se pode considerar recorde, no entanto, a equipe foi constituída. Alguns, já integrados ao cinema nacional, apenas trocaram suas sólidas posições em companhias por um lugar na equipe; outros, levados pelo idealismo ou a sedução que encerra o trabalho no cinema, deixaram seus empregos e juntaram-se ao grupo de Nelson para a realização do filme.

No primeiro grupo estavam além do próprio Nelson, o diretor de fotografia Hélio Silva e seu assistente, Ronaldo Ribeiro, que compunham o quadro da Maristela; no outro grupo, Jece Valadão, que abandonou a posição de locutor e rádio-ator da Rádio Tupi, passando a ser uma das figuras centrais da história do filme e, ainda, assistente de direção; Guido Sampaio de Araújo, que chegara da Bahia e ficou encarregado da continuidade dos trabalhos; Ciro Cury, funcionário do Banco do Brasil que, embora não abandonasse seu emprego, entregou-se quase inteiramente à realização de Rio, 40 Graus; Olavo Mendonça, que deixou seu emprego de propagandista; José Flores, Rafael Valverde.

Depois, os artistas
Os artistas, logo à primeira proposição, Nelson os foi reunindo: Ana Beatriz, Roberto Batalin, Glauce Rocha, Sadi Cabral (que cumpria um contrato, mas de imediato se prontificou a tomar parte no filme), Modesto de Souza e seu filho, Jackson de Souza, e vários outros. A maioria dos artistas, no entanto, a própria história exigia fossem pessoas do povo, colhidas no momento exato em que necessitava o episódio a ser filmado.

Diário Carioca (1955)

Veja também:
O caso de Rio, 40 Graus, por Jorge Amado

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