Segredos escondidos na película

Anunciada a morte do guitarrista Jeff Beck, no último 10 de janeiro, não demorou nada para que a internet resgatasse e compartilhasse a famosa cena em que ele aparece destruindo uma guitarra Gibson ES-175 em Blow-Up, o primeiro filme que Michelangelo Antonioni dirigiu fora da Itália – no caso, a Inglaterra da efervescente swinging London.

Beck era membro da banda The Yardbirds. Jimmy Page também compunha o elenco. A plateia – em uma casa de show escondida entre lojas, decorada com pinturas de rostos aos gritos nas paredes – em sua maioria não se movia, apenas observava a performance da mítica banda que Antonioni coloca de passagem em sua obra-prima, um dos filmes que resume o clima de transformação da sociedade da época, os agitados anos 1960.

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Seu pequeno herói é um fotógrafo de moda que, certo dia, em passagem por um parque, fotografa um casal. Mais tarde, ao ampliar as imagens em seu estúdio fotográfico, entre idas e vindas, rolos com meninas fáceis, descobre que pode ter fotografado um crime: na película que aumenta e “explode” (“blow-up”), o mesmo fotógrafo (David Hemmings) enxerga o que pode ser um corpo. Sem querer, e antes sem ver, pode ter registrado um assassinato.

E o que parece ser a intrusão de uma trama policial é, para Antonioni, um questionamento sobre o real e o abstrato, sobre o que vemos e o que queremos ver, sobre o que a fotografia – e, por extensão, o cinema – esconde dos olhos e, em relação diametralmente oposta, sobre o que a arte leva-nos a enxergar. Seria o corpo uma visão do próprio artista?

Intrigado, o fotógrafo volta ao parque e encontra o corpo. No dia seguinte, o corpo desaparece. Invadem seu estúdio de fotografia, roubam seus filmes. Questionamos o que ele viu, o que ele viveu, sobretudo por se tratar de alguém cansado de fotografar modelos em estúdio, alguém atrás de algo que pode mudar seu cotidiano, como um crime.

Não foi apenas a morte de Jeff Beck que me fez voltar a Blow-Up. Vi, na semana passada, o novo filme de Steven Spielberg, Os Fabelmans. É seu melhor trabalho desde Guerra dos Mundos. E lá se vão quase 20 anos. No filme, o jovem Sammy Fabelman (Gabriel LaBelle), alter ego do próprio Spielberg, faz pequenos filmes com sua câmera, um deles com sua família em um final de semana, quando viajam ao meio das montanhas.

Enquanto edita o filme e manuseia a película, Sammy descobre algo que não imaginava: sua mãe tem um caso com o melhor amigo de seu pai. Ele percebe a relação entre ambos, o toque de mão, a troca de olhares. Pela película que volta, acelera e pausa, ele descobre algo que lhe traz dor. De maneira inteligente, com roteiro escrito junto a Tony Kushner, Spielberg representa na relação do garoto com o cinema o amadurecimento de sua personagem central: confrontar-se com o que nos confunde e ter de lidar com isso é parte de nosso crescimento. Sammy sabe que, dali em diante, nada será como antes.

Ele descobre que sua mãe é uma mulher, que tem desejos, e que talvez seu pai não possa fazê-la feliz. Descobre, através de seu pequeno filme em 8mm, que o mundo é mais complexo do que parece e que uma imagem passageira – como a do casal em um parque, em um dia como qualquer outro – pode guardar segredos inesperados.

A aproximação entre Blow-Up e Os Fabelmans para por aí. O filme de Antonioni é uma experiência obrigatória para todo e qualquer estudante de arte e cinema e, ao contrário do que dizem alguns, venceu a prova do tempo. O de Spielberg é um belo drama familiar à forma americana, uma homenagem à arte de contar histórias com imagens.

Publicado originalmente no Jornal de Jundiaí em 18 de janeiro de 2023.

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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