O caso de Rio, 40 Graus, por Jorge Amado

Tive ocasião de assistir a uma exibição do Rio, 40 Graus. Eis aí um filme limpo, honesto, espécie de crônica cotidiana da cidade do Rio de Janeiro, com momentos de alta beleza e de profunda poesia. O espectador não poderá mais esquecer o negrinho vendedor de amendoins com a sua lagartixa, único bem que ele possui, sua afeição maior, dona de todo o carinho desse pequeno órfão da cidade. Os conflitos inúmeros da cidade imensa, as tristezas e alegrias do povo são fixados pela câmera e – por vezes, uma onda de emoção – sacode o espectador. Rio, 40 Graus foi realizado por uma equipe de jovens cineastas, vencendo todas as dificuldades, desde a falta de dinheiro até as deficiências técnicas e a própria inexperiência. Fruto da vocação e do entusiasmo, do amor à sua cidade e a seu povo, de Nelson Pereira dos Santos, um moço que reuniu outros moços em tomo dele para entoar esse canto à Capital do País. Uma constante confiança no homem e nos seus bons sentimentos faz a unidade do filme e marca a sua linha moral. Esse filme, que é a primeira realização de um diretor brasileiro cheio de talento e é resultado do esforço e do sacrifício de um grupo de jovens técnicos e artistas, se está longe, do ponto de vista cinematográfico, de não possuir defeitos, é, sem dúvida, uma das melhores coisas já produzidas pelo nosso cinema. É um filme de conteúdo profundamente brasileiro, altamente moral, cheio de amor ao Rio e aos cariocas. Honra o nosso cinema e a nossa cultura nacional, é um exemplo do caminho a ser trilhado pelos nossos cineastas. O chefe de polícia do Distrito Federal vem de proibir a exibição de Rio, 40 Graus.

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A proibição do chefe de polícia toma como pretexto mostrar o filme “elementos marginais” (os “elementos marginais” devem ser os vendedores de amendoins, os moradores das favelas, os jogadores de futebol, os trabalhadores, os sócios das Escolas de Samba, pois esses são os heróis do filme) e não apresentar conclusões morais. É evidente a ilegalidade da proibição, e odioso é o pretexto apresentado. Caso se mantenha tal proibição, não poderão mais os nossos cineastas mostrar o povo em seus filmes, estão proibidos de criar sobre a vida do povo, sobre seus sofrimentos, suas alegrias, suas esperanças, sobre sua força, que resiste à trágica realidade em que vive, devem se reduzir nossos cineastas aos ambientes chics, às casas dos ricos, e o olho da câmera deve limitar-se aos grandes automóveis, aos milionários, aos senhores da campanhota e às senhoras do café-society. O cinema deverá ser crônica mundana, concluindo – essa é a moral que deseja o chefe de polícia – com algo que prove estarmos no melhor dos mundos. A proibição de Rio, 40 Graus e o pretexto para ela utilizado vêm limitar toda a possibilidade criadora dos nossos cineastas e do nosso cinema nacional.

No entanto, as razões idiotas são apenas pretexto. Por detrás delas estão os verdadeiros motivos da proibição: o desejo de liquidar definitivamente nosso cinema, de ajudar com a falta de filmes brasileiros, os produtores ianques interessados em pôr abaixo a lei que obriga a exibição de uma película nacional por oito estrangeiras. E também o desejo de reduzir ao silêncio os homens da cultura, de impedir que eles sejam, como devem ser, intérpretes da vida do país, que eles realizem obra brasileira e útil ao povo, que eles reflitam em sua criação a vida e os anseios da nossa gente. A grande razão é esta: os homens do golpe, da entrega do Brasil, da preparação de guerra, os que querem novamente arrolhar os brasileiros e transformar nossa pátria num cárcere, os que preparando a triste aventura do terror, da ditadura, desatada sobre os brasileiros, voltam-se contra a cultura, contra os criadores de cultura, querem silenciá-los. A proibição de Rio, 40 Graus é apenas um tímido início dos planos dos inimigos da liberdade e da cultura. Começam com o filme de Nelson Pereira dos Santos para se lançarem, em seguida, contra o teatro e o livro, os quadros e a música. Não estamos longe do tempo do Estado Novo, quando os livros não podiam circular e os pintores não podiam fixar num quadro a figura de um negro. São esses tempos de obscurantismo, de elogio do racismo, de cultura asfixiada que desejam trazer de volta. A ameaça às liberdades e aos direitos dos cidadãos, as violações diárias da Constituição atentam contra a cultura e os intelectuais e agora já o fazem diretamente.

Qualquer silêncio ante a ofensiva contra a cultura iniciada às claras, agora, com a proibição de Rio, 40 Graus é uma cumplicidade criminosa e fatal.

Os intelectuais brasileiros – os escritores, os artistas, os cineastas e os homens de teatro, os cientistas, os juristas – vêm se unindo, de algum tempo para cá, em defesa da cultura nacional ameaçada e pelo seu amplo e livre florescimento. Chegou o momento dessa unidade se fazer sentir plena e vigorosamente. Já saímos do terreno das vagas ameaças, da pregação teórica da nossa cultura e seus criadores, chegamos agora à ofensiva policial. Ou defendemos todos unidos, por cima de todas as divergências partidárias, religiosas e estéticas, a nossa cultura e a liberdade de criação e de crítica ou estaremos servindo aos planos golpistas dos homens que desejam o Brasil mergulhado no terror e no obscurantismo. Ou derrotaremos com o nosso protesto a portaria estado-novista que proíbe Rio, 40 Graus ou concordaremos para que num amanhã próximo não possam os escritores escrever, não possam os pintores pintar, os cineastas filmar, os músicos compor. Estamos diante não mais de ameaças, estamos diante de uma ofensiva violenta contra nossa cultura e contra os seus criadores.

Rio, 40 Graus precisa ser exibido. Porque é um bom filme, obra de talento e de sensibilidade, honesto, brasileiro, patriótico, e porque, ao proibi-lo, estão os homens do golpe iniciando sua luta frontal contra a cultura, contra a inteligência brasileira, contra os criados da cultura. A luta contra o golpe é uma luta de todo o povo brasileiro, por consequência uma luta dos intelectuais. Mas ela é duplamente uma luta dos intelectuais porque o golpe significa o fim das possibilidades de livre criação e de crítica.

É preciso que todos os intelectuais brasileiros se unam para exigir a liberação de Rio, 40 Graus. Para derrotar, de logo, os que desejam silenciar a voz dos intelectuais, ou seja, a voz legítima do povo brasileiro.

Imprensa Popular (1955)

Veja também:
Rio, 40 Graus: da censura à liberação

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