A Mulher de um Espião, de Kiyoshi Kurosawa

Em atuação à câmera do marido, a mulher retira os óculos escuros e soa mais livre – muito mais – do que na vida real, na qual desempenha o papel de mulher de um empresário. Com o companheiro, ela realiza pequenos filmes por diversão, para apresentar a amigos, em casa, entre os anos 1930 e 1940, antes da Segunda Guerra Mundial.

Estamos sob seus olhos, e o retirar dos óculos prenuncia o que essa mulher pode ser. Ela pode mudar. Descobre, ao longo de A Mulher de um Espião, que seu mundo ao redor não é exatamente como imaginava: a política bate à porta de sua bela casa, e seu marido, saberá mais tarde, não é apenas um empresário – ainda que negue ser um espião.

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No Japão alinhado à Alemanha e à Itália, ele desvia-se do nacionalismo irracional, denomina-se um cosmopolita. Age, após uma viagem à Manchúria na qual descobriu crimes contra a humanidade, para entregar documentos aos norte-americanos. E lá se vai metade do filme para chegarmos, com a mulher, a essa descoberta, após fartos sinais.

O filme é dela. Dele não temos quase nada: é um homem frio, capaz de mentir para a amada, mas não de lhe dar de bandeja ao inimigo. Ele tem frases automáticas, parece um daqueles espiões profissionais que só deixam a máscara cair sob o mais profundo gesto de sinceridade: diz para ela o que a mesma não quer ouvir, e só o faz porque descobre que ainda pode confiar cegamente na mulher que o ama em meio a tamanho labirinto.

O diretor Kiyoshi Kurosawa precisa apenas dessa relação a dois para desenvolver sua história – mesmo que, na reta final, seja preciso recorrer ao posicionamento da mulher na História, a mulher presa ao hospício, sob bombas, sozinha no Japão despedaçado pela derrota. Esse filme poderoso serve-se desse prisma: é a resistência dela e sua posição no tabuleiro que evitam que sejamos lançados ao lugar do espião e a outras histórias já vistas.

É pela dificuldade de ver – ou só ver o que é possível – que o drama ganha corpo em A Mulher de um Espião: esta é também uma obra sobre o lugar da mulher e seu movimento por protagonismo. Ela, Satoko (Yû Aoi), vive feliz com o marido, entre os filmetes que realizam, a empresa de tecidos que ele conduz, as viagens repentinas que ele resolve fazer.

Em uma delas, ele, Yusaku (Issey Takahashi), vai para a Manchúria na companhia do sobrinho. Voltam carregando um livro, uma lata de filme. Com eles vem uma bela mulher, uma desconhecida. Dias depois, a mulher aparece morta. O sobrinho diz que vai escrever um livro e se isola em uma hospedaria – a mesma em que a mulher estava.

São situações que questionam Satoko, que logo percebe o envolvimento do marido em algo muito maior que a empresa de tecidos. Os militares rondam. Ela tem dúvidas, chega a sonhar com o amado nos braços da bela mulher morta. Os tons dados pela fotografia de Tatsunosuke Sasaki e pela direção de arte de Norifumi Ataka contribuem: os ambientes parecem saídos de uma fotografia envelhecida, as luzes fortes escapam aos cantos, o ar é consumido por partículas que nos fazem pensar em um tempo despregado do real.

Em um filme sobre uma mulher que tenta enxergar, tudo isso contribui; e para um filme sobre uma mulher que pode enlouquecer de tanto amor – tamanho amor que a leva a viver e aceitar os movimentos do marido -, esse visual serve com perfeição.

Perseguido, o casal precisa retornar ao cinema. À lata de filme. O desfecho não vale contar. O que se retira dessa experiência é que algumas pequenas grandes histórias podem nos vencer pelos detalhes, pelos gestos de seus seres, pelo controle invejável da câmera – os planos longos e gerais em contraponto a planos e contraplanos certeiros utilizados em diálogos-chave – que faz de Kurosawa um dos maiores da atualidade.

Na aventura da mulher por um país tomado pelo espírito do autoritarismo, presa ao amor incondicional pelo marido, a absolvição é dada a ela – e a nós – graças à arte. Cabe lembrar a palavra à qual a mesma mulher recorre – “bravo!” – quando os militares acreditam assistir ao filme escondido pelo espião. O “bravo!” responde aos desejos do artista, à necessidade de reconhecimento, aqui a um irônico golpe final.

(Supai no tsuma, Kiyoshi Kurosawa, 2020)

Nota: ★★★★★

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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