Vidas Secas, por Antonio Moniz Vianna

Do romance de Graciliano Ramos, assistimos a uma adaptação fiel até a submissão – não era a acomodação ideal para Vidas Secas no cinema, nem Vidas Secas acabou sendo o que se poderia esperar de (afirma-se) um velho sonho, do diretor & adaptador Nelson Pereira dos Santos, que o resguardou de tentativas incoerentes. A submissão indica o respeito a uma obra importante, mas o respeito só se justifica até o ponto em que não interfere em prejuízo da expressão própria da arte receptora – senão o risco é análogo ao da contrafação, o fenômeno oposto, ou maior, por força de sua natural carga limitadora. A transcrição do romance, sem o equivalente visual das palavras do mestre, não basta; implica, em última análise, na honestidade sem imaginação, em tributo e não em transfiguração.

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Foi o que ocorreu. Vidas Secas é uma homenagem; a primeira no cinema nacional ao grande escritor. E só o artesanato, já aceitável, de Nelson Pereira dos Santos garante à literatura de Graciliano uma exposição no cinema pelo menos digna, ao contrário do que sofreram outros escritores (Jorge Amado, com Terras do Sem Fim; Terra Violenta, um exemplo) e do que se promete infligir a Guimarães Rosa, com anunciada e inconsciente versão de Grande Sertão: Veredas. A homenagem funciona, o filme existe sem brilho, mais pelo reflexo de um bom romance – e sem autor, sabendo-se que, no cinema, o autor é o diretor, não importa a obra em que se tenha baseado, mas desde que impregne o filme de sua visão, de um estilo próprio. Com Vidas Secas, Nelson Pereira dos Santos estaciona ao nível do artesanato, não ousando ir mais longe. Sob esse aspecto, todo o seu semiamadorismo anterior (Rio, 40 Graus; Mandacaru Vermelho) é muito mais pessoal, na comparação, embora Vidas Secas, com um prestígio por tabela, represente mais para sua carreira, em termos estritamente profissionais.

O filme conserva, por tudo o que foi dito, a validade do documento social e permite, quase no fim, uma réstia de poesia na sequência da morte da cadela Baleia. O sertão surge em sua real aspereza, a câmera o focaliza nu em pelo. As virtudes de Vidas Secas são estas – e outras. O ranger do carro de boi, em substituição à música, é de bom efeito. E só um ator (Átila Iório, nunca um sertanejo, no papel de Fabiano) foge ao seu personagem, os demais vêm com a dose de verdade exigida em primeira instância, principalmente Maria Ribeiro (Sinhá Vitória) e Orlando Macedo (o soldado). Bons, ainda, os tipos colhidos de passagem no arraial, no botequim, na prisão, na igreja, no bando de cangaceiros. Verdadeiro o sol, encarado lá mesmo em Palmeira dos Índios, sempre sol quente, queimando a terra, secando tudo, planta, água, gado, gente. A seca trazendo a fome, desafiando a esperança que, transformada em conformismo e em talvez, promove o êxodo. O sertanejo e sua família estão andando no fim, como estavam andando no começo.

O filme para na última frase do livro. E é a arte de Graciliano, ríspida, cortante, na qual seria impossível acrescentar uma palavra sequer ou suprimir outra, que está ressoando ao apagar-se a tela, muito acima de um filme que, temendo violá-la, acabou apenas retratando um de seus maiores romances. Um retrato, uma superfície lisa – como seria possível penetrar assim no drama do retirante e revolvê-lo até descobrir-lhe a essência?

Correio da Manhã (22 de agosto de 1963)

Veja também:
Sob o Domínio do Mal, por Antonio Moniz Vianna

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