Armageddon Time, de James Gray

O pai confessa ao filho que nunca será como o sogro, o avô do menino. São homens diferentes. Em Armageddon Time, de James Gray, logo entendemos por que o protagonista é mais atraído ao avô e menos ao pai: o mais velho, no fim da vida, ainda é terno e dono de palavras que o fazem pensar, que não o deixam desistir da batalha que o filme trata.

O pai é ríspido, às vezes apela à violência, vive em um universo no qual sua honestidade é colocada em xeque quando tem de salvar o filho. Mas será que o avô, na mesma situação, quando o menino é envolvido no roubo de um computador, não teria feito o mesmo? Gray, como em toda sua filmografia, outra vez volta à família e suas tensões.

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O protagonista, Paul Graff (Banks Repeta), vive no início dos anos 1980, no “armageddon” em que tudo parece mudar – próximo à eleição do conservador Ronald Reagan, ainda na Guerra Fria, ainda sob a aparência de um país meritocrático no qual, como diz Maryanne Trump, irmã do futuro presidente Donald, “não existe almoço grátis”.

Ao longo de sua jornada, enquanto tromba com figuras como Maryanne e seu pai Fred e ouve histórias sobre a perseguição aos seus antepassados judeus, Paul percebe as monstruosidades silenciosas de sua sociedade. Entende, nesse conflito com os mais velhos dentro e fora de casa, que os planos para ele – do pai, da mãe, dos avós, da propaganda da boa América saída das vozes da família Trump, dos professores que repelem a gola mal arrumada – envolvem fazer parte da elite.

É tudo o que Paul não quer. Ele igualmente repele o suposto sonho americano: ser o melhor do mundo nos negócios, na política, tomar as rédeas desse clube de garotos e garotas brancos semelhante à linha de montagem. O problema é que, como ocorre a muitos pré-adolescentes, a expressão de Paul dá-se no confronto à ordem da escola e da família. Seu itinerário, em momentos, lembra-me o de Antoine Doinel, que foge da escola e termina detido após roubar uma máquina de escrever em Os Incompreendidos, de François Truffaut.

Paul primeiro está em uma escola em que pode conviver com a diversidade. Ele faz amizade com um garoto negro, Johnny (Jaylin Webb). À frente, é visto fumando maconha com o amigo no banheiro da escola. Sua mãe (Anne Hathaway) repreende-o, seu pai (Jeremy Strong) quase o espanca depois de quebrar a porta do banheiro.

Essas atitudes, somadas à ideia de ser um artista, levam a família a colocá-lo em outra escola. Estamos aqui sob as sombras da fotografia de Darius Khondji, sob a aparência do passado. A nostalgia não é maior que a realidade, a infância – a do menino que brinca com o foguete ganhado do avô – não supera o choque com o mundo adulto em que ainda imperam acordos, o “jeitinho” – mesmo que um jovem negro pague por isso.

Gray, com roteiro de sua autoria, mostra-nos as descobertas de um garoto em terreno arenoso, na época em que Reagan antecipava Trump e os alívios cômicos de um filme com Goldie Hawn limitavam-se a bons momentos de uma sala escura. Não se parecia mais com aquele cinema da década anterior, rebelde e questionador. Os anos 1980, nos Estados Unidos, são marcados por uma série de comédias escapistas; a aparência de que tudo caminhava para dar certo – à sonhada liberdade econômica – casa-se ao riso descompromissado.

Nesse clima em que o desespero é abafado, a fotografia de Khondji encontra terreno perfeito para a falsa impressão de proximidade, de locais aquecidos enquanto frios em excesso. Gray faz mais um filme sobre o passado imperfeito, sobre a América gélida, sobre todos os erros que, à exceção do avô de Anthony Hopkins, tornam os adultos seres de falas quase inócuas, enquanto os mais novos se revestem da resistência que produz a frase mais forte do filme, de autoria do menino negro: “Ninguém vai me defender exceto eu mesmo”.

No caso de Paul, o menino branco salvo pelos acordos do pai e pelo ainda poder financeiro da família, é preciso ter consciência de todas as contradições que o cercam. Ainda em vida, o avô orienta-o a nunca esquecer o passado, “porque você nunca sabe quando podem vir procurá-lo”. Depois de morto, como espírito, segue a aconselhá-lo: “É difícil lutar, não é?”. O filme todo aborda a luta de Paul Graff. Vitorioso ou não, ele segue em pé.

(Idem, James Gray, 2022)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Aftersun, de Charlotte Wells

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