O Traidor, de Marco Bellocchio

O mafioso supostamente arrependido acreditava em outro sistema. A máfia – ou, como ele mesmo faz questão de corrigir, a Cosa Nostra – perseguia valores que incluíam a lealdade e a preservação da família. O caminho tomado depois foi outro: seus membros inclinaram-se à venda irrestrita de narcóticos e ao lucro sem limites.

Já vimos essa história antes: em O Poderoso Chefão, Don Corleone (Marlon Brando) recusa-se a entrar no negócio das drogas e paga caro. A máfia em questão é um sistema quase intocado, de limites territoriais, no qual não se cruza uma linha sem pagar o preço. Uma máfia que inevitavelmente se abre às possibilidades de lucro e ainda quer guardar algumas características que, fragilizadas, como vê o protagonista, não se sustentam.

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O protagonista de O Traidor é Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino). Extraditado para a Itália após ser preso no Brasil, ele torna-se testemunha-chave de um processo contra a Cosa Nostra e adere à delação premiada. Torna-se a peça do ataque do Estado contra a milícia, o poder paralelo quase sempre visto como recluso, com seus códigos, seus tribunais.

Para o delator, o argumento das drogas é uma saída para justificar sua delação e, mais ainda, uma forma de aliviar a própria consciência. O Traidor, mesmo com toda a distância de sua personagem central em relação a nós, é sobre o que um homem pode se tornar e como ele mesmo, corroído por dores internas, precisa aceitar sua nova posição, ou atuação: no palco do tribunal, ele esforça-se para mostrar que ainda possui valores.

Como tantas personagens de Marco Bellocchio, Buscetta é complexo. Partimos com essa complexidade e terminamos com um homem simples, velho, recluso em Miami. Terminamos por assistir a um estado semelhante àquele dado por Coppola à sua criação mais famosa, Michael Corleone, na terceira parte do Chefão: ao tempo prolongado que reduz todos à mesma natureza, ao homem à espera da morte e consciente da própria culpa.

Não estranha que, quanto mais velho e calejado, mais consciência ele possui. Há ali, por trás de tanta frieza e ponderação, um passado. Bellocchio faz um filme poderoso sobre alguém que não consegue mais deter a própria história ou a versão que precisa dar à mesma, sua narrativa, seu entendimento do que é ou do que foi o sistema ao qual, por anos, serviu.

E o fato de se enrolar com suas supostas versões, em uma de suas passagens pelo tribunal, só aumenta a densidade da personagem em cena: no fundo, Buscetta não teme ser desmascarado ou ter revelado algo que possa invalidar suas declarações ao juiz Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi). Teme, sobretudo, desmoronar ao descobrir quem é de verdade.

Na sequência de abertura, passada na Itália, ele enfurece-se ao encontrar um dos filhos sob o efeito de drogas. O produto vendido pelo sistema ao qual ele serve está destruindo sua própria família. A ida ao Brasil parece ser a oportunidade para se distanciar dessas raízes. Enquanto vive na América Latina, uma guerra entre clãs extermina homens de lados diferentes. Buscetta teme por sua vida mesmo distante da terra natal.

De volta à Itália, ele aceita colaborar. Bellocchio divide conosco seus momentos no cárcere, suas voltas de bicicleta pelo espaço de um corredor, o momento em que pinta o cabelo antes de dormir. Bellocchio dá pistas insuficientes para encontrarmos esse homem que, no passado, já foi um matador e não esconde ser um mulherengo.

O “traidor” em momentos soa sincero, em outros nem tanto. Para Falconi, ele relata a história de como esperou um homem distanciar-se do filho – ao longo de décadas, do batizado ao casamento do garoto – para que pudesse matá-lo e cumprir uma missão. É a passagem que aponta à velha máfia de “valores” da qual Buscetta falava: um sistema que não podia colocar em risco a vida de um inocente, feito um escudo humano pelo pai.

A concretização desse crime é dada apenas no fim, no encontro de dois tempos: de um lado, um Buscetta velho, temeroso, à espera da morte; de outro, um matador de aluguel com total domínio de suas forças. Sob a ótica de Bellocchio, tal divisão embaralha. Ou mais, politiza. O homem não é um só. Da juventude à velhice, Buscetta é vários.

Inevitável falar sobre política. A máfia é um sistema de poder. Buscetta é um rebelde que preferiu debandar aos braços do Estado, conflituoso, sem respostas fáceis. Alguém que podia trafegar entre famílias, de aparência polida, poucas palavras, decidido a dar sua versão para os fatos e o nome verdadeiro quando é preso em sua casa, no Brasil, com um passaporte falso. Disposto inclusive a contrariar a esposa. Ele precisa ser ele mesmo.

(Il traditore, Marco Bellocchio, 2019)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
A Hora da Religião, de Marco Bellocchio

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