Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, de Radu Jude

A segunda parte de Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental é composta por um “Dicionário de Piadas, Letreiros e Maravilhas”, uma série de colagens históricas e cômicas, algumas livremente encenadas, irônicas, sobre a Romênia e o mundo. São pistas interessantes para compreendermos a idiotia social que ataca o filme todo.

Em uma dessas pequenas passagens, o diretor Radu Jude oferece-nos uma boa definição para o cinema, a partir da história da Medusa e de como Perseu venceu a oponente que não podia encarar. Caso a encarasse, ele e qualquer outro se transformariam em pedra. A saída encontrada pelo herói foi enfrentar o monstro observando seu reflexo no escudo.

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Diz o filme: “A moral é que não enxergamos o verdadeiro horror, por que ele nos paralisa com um medo que cega, e que devemos conhecê-lo observando só imagens que reproduzem sua aparência. A tela do cinema é o escudo polido de Atena”.

A definição ajuda-nos a compreender as intenções do realizador desse filme sobre uma professora – mas não apenas sobre ela – prestes a ter a cabeça cortada por causa do vazamento de vídeos nos quais faz sexo com o marido. A “má sorte” é esse vazamento que, sabemos depois, foi causado pelo próprio marido; o “pornô acidental” é no que alguns adultos transformam o vídeo, desesperados para “salvarem” seus filhos.

O filme abre com os vídeos eróticos. O erotismo é uma expressão de liberdade, uma brincadeira caseira entre dois adultos, uma exploração de seus fetiches. Por algum motivo, vaza. Sabemos que ninguém faz imagens ou escreve diários para guardar para sempre. Em tempos de nuvens digitais, o risco de algo escapar é enorme.

Jude primeiro mostra o que chamamos de pornografia e, na nossa luta insana pela autocastração, o que sempre buscamos combater. Depois a história que os envolve e, em seguida, seu longo “dicionário” sobre como chegamos a essa teia de besteiras e barbaridades chamada sociedade. A terceira parte é o julgamento.

A professora caminha por ruas, lojas e supermercados na primeira parte. Na travessia nada é furtivo, a despeito das aparências: a câmera permite que ela passe, saia do campo e, por tempo considerável, busca outras imagens – ao lado, para baixo, para cima. Mostra-nos publicidade, veículos gigantes sobre a calçada, barulho, pessoas e diálogos passageiros, prateleiras, vitrines, cores, bagunça, toda uma selva moderna e opressiva que nós, que ainda nos assustamos e até evitamos pornografia, aprendemos a normalizar.

Contra o que parece tão secreto e proibido, tão corruptivo, ou seja, a pornografia, o filme devolve o que não é capaz – e nunca foi – de nos assombrar: nossa própria realidade, a vida lá fora, prédios e trânsito, o que nós fizemos desse emaranhado que evoca, pela repetição e pela mecanização do espaço urbano, nosso próprio fracasso.

Daí que voltar ao mito de Perseu e do cinema como seu escudo, como reflexo, é importante: é justamente esse mito que Jude tenta combater e contra o qual, em certa medida, é feliz. Esse não é um filme convencional, de reflexos, mas um filme que pretende nos fazer enxergar as coisas como são e, por consequência, em momentos parece um documentário.

E se a ausência do reflexo não é plena, isso talvez se deva à natureza da câmera e das imagens. Perante ela, no cinema ou em casa, estamos sempre a alguma distância do choque do real, sempre a encarar a representação. A última parte é, entre todas, a que melhor responde a esse cinema de encenação: é o teatro abertamente vulgar dos pais contra a professora, o julgamento banhado a luzes coloridas, à artificialidade.

Passadas as duas partes anteriores, a terceira soa desnecessária. O julgamento é obsoleto. Já sabemos que a professora está condenada. E seu resultado, a essa altura, é o menos importante: após alguns confrontos verbais, fica claro o terreno minado de homens e mulheres negacionistas e moralistas nessa Romênia mascarada, sob os efeitos da covid-19.

É mais um episódio, um pouco maior, a compor as pequenas histórias cheias de acidez da segunda parte: a mesma sociedade que combate um vírus busca sua “higiene social”, o que consiste em crucificar uma professora que, em seus momentos íntimos, escolheu gozar. Os inquisidores modernos não suportam as imagens e o que elas representam.

(Babardeala cu bucluc sau porno balamuc, Radu Jude, 2021)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Great Freedom, de Sebastian Meise

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