Nada de Novo no Front, de Edward Berger

Há quem prefira a turbulência. Fico com os detalhes, com seu poder de nos lançar ao centro do campo de batalha. Com cada pequena partícula da lama seca sobre parte da face do protagonista, com as manchas da sujeira, secas, que percorrem o capacete, com o pelo saliente das raposas enquanto dormem, ainda no início.

Com o céu branco, no fim, quando o soldado volta o olhar à copa das árvores enquanto urina – o que nos confere um efeito difícil de explicar, como se esse militar, nos dias finais da Primeira Guerra Mundial, estivesse prestes a ser tragado, ou a cair em uma armadilha. Esperamos algo que não tarda a aparecer: atrás dele, uma criança armada. A morte.

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Alguns exemplos, e não apenas eles, tornam as mais de duas horas de Nada de Novo no Front, de Edward Berger, uma experiência difícil de esquecer. Por se tratar de um filme tão violento, não se pode simplesmente excluir o que chamei antes de turbulência. Outras palavras serviriam à descrição. Os momentos turbulentos que vivem os soldados – as corridas pela terra de ninguém ao efeito das bombas, com os pés na lama, entre a fumaça e a poeira que os cercam – servem os detalhes e estes igualmente os servem.

Ou seja, não é apenas ação. Não são apenas chacoalhões e banhos de sangue, mortes cruéis e golpes de baioneta, machadinhas ou pedras. Na terra de ninguém, mergulhamos no pavor das fagulhas, dos pedaços de madeira, da piscina de lama que ainda serve para o soldado beber água enquanto espera a hora certa de sair, como um rato sob tensão.

O filme é baseado no livro de Erich Maria Remarque, que, no passado, deu origem à obra-prima de Lewis Milestone. Comparar as duas versões é jogar baixo com ambas. Tempos diferentes, cinemas diferentes. Se antes, com Milestone, prevaleciam o quadro e as expressões dos atores, prevalecem com Berger o movimento e todas as pequenas partes que podemos sacar pelo caminho. O ponto de partida é o mesmo, ou quase.

Para Berger, é importante mostrar como funciona a máquina de matar e substituir vidas – para morrerem outras vez – que é a guerra. A guerra moderna, diz um professor, um daqueles tipos que louva o suposto heroísmo dos que colocam o pescoço na linha do abate, tornou-se um evento de proporções relacionadas ao grupo, não ao indivíduo.

Dos escritórios e bunkers, os líderes enxergam a massa. O cinema de Berger – e o de Milestone – leva-nos ao homem, ao que realmente se posiciona ao meio. Para tanto, precisa eleger uma personagem e colocar outras ao seu lado. Mas é com ela, sobretudo, que seguimos inferno adentro: a espera, o som dos estouros, o estranhamento e a triste constatação, depois de tanta correria, de que o inimigo é um homem frágil.

O escolhido é Paul Bäumer (Felix Kammerer), anjo de rosto quadriculado, cabelos ondulados. Seu olhar parece indicar sempre a presença do pior – o que torna sua insistente sobrevivência tão apavorante quanto a do protagonista de Vá e Veja. O medo, neles, está estampado nas linhas da face, petrificação perante a tragédia.

Não estranha que seu destino final seja, para além da morte, a fixação de um rosto. Como se o menino entusiasmado com a aventura, antes, passasse ao homem que não tem mais o que fazer ou o que dizer, a quem sobra apenas lutar como um autômato entre o grupo, depois. Ele fixa-se em nós como uma estátua de bronze banhada pela mistura de todas as partículas que encontrou pelo caminho, ele próprio um mapa cuja sujeira explica muito (de novo, os detalhes). Por guardar alguma tranquilidade após a morte, não terá sua plaquinha de identificação retirada do corpo. O menino que as recolhe, responsável pela contagem dos mortos, toma dele apenas o lenço. Como se ainda sobrevivesse.

Pensei nas escolhas de Berger por um longo tempo. Por que seu protagonista olha fixamente à luz forte que vem de fora da trincheira e depois termina como que eternizado pela pele metalizada? A luz seria sua redenção e o metal, o material que perpetua a guerra? Ou só na morte os homens tornam-se o que desejam seus líderes e o próprio conflito?

Não é apenas um filme com cenas de batalha de cair o queixo. É um filme sobre a substância que melhor define a guerra – e outra vez corro o risco de pecar ao aproximá-lo da obra-prima de Elem Klimov. Ambos nos conectam aos sentidos, ao toque, ao cheiro, à avalanche de pequenas pedras e grãos de areia à frente daqueles que correm e, tamanho o horror a cada passagem, a cada avanço pelas missões, não cansam de se surpreender.

(Im Westen nichts Neues, Edward Berger, 2022)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
A perseguição nazista a Sem Novidade no Front

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