Um Herói, de Asghar Farhadi

Na tentativa de ser absolvido, o protagonista cria uma situação e, no interior dela, toma uma personagem para si. Ele, em saída temporária da cadeia, tenta conquistar o perdão do homem contra o qual praticou um crime. Precisa de uma história, de um gesto de heroísmo. Junto com a companheira, inventa uma mentira: enquanto ia para casa, ao deixar o cárcere, afirma ter encontrado uma bolsa. Em seu interior, moedas de ouro.

A ideia, em Um Herói, é sensibilizar os outros, mostrar nobreza, ser uma espécie de herói a uma sociedade entorpecida pelos extremos, à qual homens como o protagonista ou só podem ser heróis ou vilões, puros ou farsantes. Rahim Soltani (Amir Jadidi), o dono da história, tem alguns sinais de bondade a seu favor. É alguém honesto, não duvidamos.

ACOMPANHE NOSSOS CANAIS: Facebook e Telegram

Ele precisava apenas dessa narrativa – e não imaginava que outras, piores, poderiam se voltar contra seu “herói”. Será ele, o Rahim de cabelos raspados dos tristes planos finais, um eterno prisioneiro, culpado pelos seus tropeços, alguém que, na fala de um dos funcionários da prisão, ou é muito ingênuo ou muito inteligente.

Depois de colar cartazes para supostamente encontrar o dono da bolsa e do ouro perdidos, Rahim é elevado à condição que desejava alcançar: aparece na televisão, vira garoto propaganda de uma instituição de sua cidade, é indicado para novo emprego. As mesmas pessoas que querem ajudá-lo – que o heroificam – buscam inocentá-lo ao tentar convencer sua vítima a lhe conferir o perdão.

O filme fica ainda mais interessante ao atingir essa camada: o único homem a conceder-lhe a tal graça é um comerciante, Bahram (Mohsen Tanabandeh), que, a despeito do que dizem e enxergam os outros, insiste em não confiar em Rahim. Não acredita que um criminoso pode ter se convertido, ou simplesmente não crê que um bom gesto presente anule um crime passado, um empréstimo que não honrou.

Mais de uma vez Rahim procura Bahram em seu comércio. Quer se aproximar. Na primeira delas, o outro não está e ele sai sem um acordo; na segunda, terminam brigando quando Bahram diz que Rahim usa o filho, com problemas na fala, para sensibilizar a sociedade; e na terceira, a mais curiosa, o protagonista apenas observa o comerciante de longe, também o movimento de pessoas em pequenas lojas que parecem caixotes metálicos.

Como em outros filmes de Asghar Farhadi, toda uma sociedade leva-nos a dúvidas e dilemas morais, e essa sociedade não se resolve aos nossos olhos: nem Rahim nem Bahram nem ninguém pode ser facilmente justificado. Se não herói, tampouco haverá vilão. Desde as primeiras imagens, Farhadi fala-nos dos obstáculos aos quais os homens estão submetidos, com seu protagonista atrás de grades, muros, portões, a transpor escadarias e tecidos.

Para Rahim, é difícil acreditar que seus antepassados subiam montanhas de pedra para adorar os mortos. É como se nos dissesse, por outros meios, que muitos preferem os mortos – ou o que eles significam – aos vivos. Farhadi precisa nos levar ao homem real – bondoso mas cheio de falhas – para compreendermos que, aos verdadeiros vivos, aos verdadeiros seres para além do herói e do vilão, resta apenas a estima de alguns poucos.

Quem chora por Rahim é seu filho e sua família. A mesma sociedade que o leva à condição de herói encontrar-se-á pronta para apedrejá-lo se necessário. E se não apelar ao ataque, será por motivos de autopreservação: os mesmos que o elogiaram de algum modo temem terminar prejudicados e por isso preferem deixá-lo como está, a viver sua farsa.

A mentira útil de Rahim ganha novos contornos: quando sua máscara ameaça cair (ainda que a nós não revele mais do mesmo), é preciso criar uma nova história. O homem comum que seguimos nessa jornada proposta por Farhadi não suporta mais ocupar o centro do palco, à espera de aplausos, de aprovação. A certa altura, só quer ser ele mesmo, o que significa aceitar as coisas como elas são, sua sociedade e suas jaulas.

(Ghahreman, Asghar Farhadi, 2021)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Licorice Pizza, de Paul Thomas Anderson

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s