Os Desajustados, de John Huston

A bela mulher sussurra. Em momentos sua voz sai com esforço. Delicada, frequentemente assustada com a atitude dos homens ao redor, ela recua, amedronta-se; pede a eles um pouco mais de tempo, menos ação. Em Os Desajustados, a personagem de Marilyn Monroe pede pelo impossível, existe para driblar o curso dado, a história posta.

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Isso nos ajuda a compreender um filme estranho. Representante de uma passagem, ele tem três homens e uma mulher com características diferentes, e cada um a serviço do que vimos outras vezes – à exceção de Monroe. Com direção de John Huston e roteiro escrito pelo ex-marido Arthur Miller, a estrela tenta ser real, despregar-se da forma da boneca de carne que representou outras várias vezes, a deusa do sexo sem cérebro.

É o último filme dela. O último de Clark Gable, seu par romântico na tela, o homem de meia-idade que não consegue domar cavalos, mas é capaz de guiá-la – seguindo uma estrela no céu – ao que acreditamos ser um final feliz: casamento, família, filhos.

O cinema celebrado nessa última cena ainda guarda esperanças: Gable e Monroe ainda são os mesmos, as estrelas do passado, a despeito de toda a areia que tiveram de comer. No caso dele, areia misturada com o falso sangue que escorre da testa, o suor de quem teve de lutar bravamente para domar um cavalo. A história é essa: a da luta do homem contra a natureza, à medida que esse combate é reprovado pela bela mulher em cena.

Na passagem do clássico ao moderno, com a direção do maverick Huston, o resultado não poderia ser menos que estranho, às vezes confuso: três homens lutam contra seus instintos, revelam-se quando bebem, terminam fazendo o que devem fazer, o que cabe aos caubóis no deserto de cavalos selvagens. Ela, a civilização que se importa com a vida dos bichos, a menina que sofre com a dor dos inocentes, é nosso ponto de equilíbrio.

Monroe interpreta Roslyn Taber. A estrela, foco principal dos holofotes na ocasião da estreia do filme, ficou com o segundo lugar nos créditos. O primeiro foi dado a Gable, representante maior da Hollywood clássica. O terceiro lugar ficou com Montgomery Clift. Também estão em cena os talentosos Eli Wallach e Thelma Ritter.

A companheira de Monroe na abertura é Ritter, a senhora Isabelle Steers, que ajuda a moça a lembrar das palavras que terá de dizer em frente ao juiz. Ela está prestes a se divorciar. Difícil assistir à sequência – que conta também com a chegada de Guido (Wallach) para avaliar o carro de Roslyn – e não lembrar das dificuldades da atriz para decorar suas falas.

A grande Ritter é como uma professora – uma guia – à estrela que vive sob o peso do sucesso. E a estrela que encerra um casamento. No caso de Roslyn, a separação é a abertura para um universo de possibilidades no qual termina como que levada pelo vento, tragada contra suas forças. O filme todo celebra a presença da bela mulher que descontrola caubóis sem maior esforço. Quando o faz, chega a ser tocada, como na sequência da raquete.

Huston capta bem o clima de acidente. O texto de Miller desnuda seus seres com alguma rapidez: é mais sobre como podem resistir do que sobre o que pensam e querem. Ninguém tem dúvidas sobre o caminho traçado, sobre a sexualização da mulher como ponte para desestabilizar o universo, sobre o fracasso dos homens enquanto tentam laçar cavalos.

Diferente de outros filmes com Monroe, como Os Homens Preferem as Loiras ou Quanto Mais Quente Melhor, nos quais à estrela era dada uma aparição, uma entrada, e nos quais ela assim subia aos céus aos olhos dos homens, aqui seu surgimento dá-se no espaço da mulher de casa, da mulher comum. Huston trabalha duro para fazê-la diferente, torná-la gente como a gente, e para a surpresa de ninguém parcialmente fracassa.

É um filme de estrelas escondidas – que tenta escondê-las – entre pessoas comuns. Huston enfrenta a natureza para dobrá-las, sujá-las, e as lança às pequenas cidades interioranas de rodeios e crianças com roupas de couro, miniaturas de caubóis. A fotografia de Russell Metty contribui. De repente elas podem ser tocadas em uma mistura de erotismo e selvageria.

A cena que melhor representa essa mescla é a da raquete, quando Monroe, em bar lotado, diverte-se em disputa e sacode o corpo. Um homem não resiste e toca suas nádegas. Estoura uma briga. Gay Langland (Gable) já está um pouco alterado, como todos. Bêbados, os homens deixam-se enxergar: Gay lamenta o desaparecimento dos filhos; Perce (Clift) relembra a mãe, que deixou seu pai e se casou com outro; Guido fala de seus dias como piloto na Segunda Guerra Mundial, quando lançou bombas sobre cidades.

Os piores dias não ficaram para trás. Vive-se à sombra de novas bombas. A fuga ao deserto – ou aos desertos – do Nevada são como as fugas devem ser: meros pretextos para ignorar o que há do lado de fora. “Soltar uma bomba é como contar uma mentira. Fica tudo tão quieto. Você não ouve mais nada, não vê mais nada”, observa Guido, um dos três homens que mentem para si mesmos, possuídos por diabos internos.

Cansa ver Monroe sofrer pelos animais. Compreendemos ela. O problema é que seu sofrimento reduz sua personagem à figura mais frágil, à bela dama perdida, à criança que não está pronta para aquele universo. Duvidamos que ela tenha feito sexo com Gay. E para Gable, que surge em cena com camisa impecável para dentro da calça após acordá-la, vale a mesma observação. Por fim, ela termina vencida por eles.

O filme de Huston é um belo fracasso: diz muito sobre impotência enquanto todos em cena desejam provar algum tipo de força. É irônico, com o dissabor típico dos neo-westerns que tocam o realismo, como seria, pouco depois, O Indomado, de Martin Ritt. Um fracasso que encerra duas carreiras e dá a Huston a possibilidade de transformação.

(The Misfits, John Huston, 1961)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Algumas lições de John Huston

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