Tudo (exagerado) em Todo Lugar (sem graça) ao Mesmo Tempo (irritante)

Tudo o que há de pior no cinema atual – maneirismos, exagero, necessidade de parecer inteligente em meio à infantilidade – pode ser encontrado em Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. Os diretores e roteiristas Dan Kwan e Daniel Scheinert embarcam na onda do multiverso, tentam fazer algo diferente e terminam na vala comum.

O que poderia parecer original – são tantas as possibilidades para se impulsionar mentes criativas – termina como brincadeira irritante na qual o que vale é socar, pular, agitar o corpo e se programar com kung-fu. A arte marcial é como uma pepita de ouro de Mario Bros, mais fácil de deglutir que o programa de computador de Matrix, injetado no cérebro de seus viajantes (o que faz Neo aprender a lutar em questão de segundos).

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Sequer uma brincadeira completa o filme consegue ser. É pretensioso, tenta ser existencial enquanto apenas nos joga à gororoba, brinca com Freud sem saber aonde está nos levando com as milhares de portas que abre, embalado à velocidade máxima. Para lhe fornecer um pouco de verniz, há ali o selo da A24, o estúdio que os moderninhos adoram.

Vendo Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo fiquei pensando no quanto a mistura de violência gráfica e comédia pastelão fez mal ao cinema recente. E o quanto essa mescla caiu na graça da garotada que ama filmes como Thor e Guardiões da Galáxia. Ainda que pareça maduro em seu universo sério, com o drama envolvendo uma família de imigrantes orientais, o filme dos Daniel’s não foge nunca a essa mesma natureza.

A família em questão é encabeçada por Evelyn Wang (Michelle Yeoh), casada com Waymond (Ke Huy Quan), mãe de Joy (Stephanie Hsu), filha de Gong Gong (James Hong). Ela é dona de uma lavanderia e enfrenta crises dentro de casa. O filha não se entende com ela, o marido quer a separação, o pai é senil. Para piorar, bate à porta uma fiscal da Receita Federal (Jamie Lee Curtis), típica ressentida, pronta para destruir vidas alheias.

De repente, sem muitas explicações, abre-se uma fenda para outro universo. E abrem-se outras para outros universos. O marido chega em outra versão, também o avô e a filha, que será a grande vilã contra a mãe. A comédia sobre a família desajustada ganha outra dimensão e se torna um filme de artes marciais, de heróis contra vilões, como se todos tivessem tomado drogas alucinógenas para chegar, como em um passe de mágica, às variadas versões de si mesmos, e aos outros conflitos que, claro, refletem o conflito central.

Mas este não é qualquer sonho. Ao seu centro há uma rosquinha gigante, um Donut escuro que pode tragar todos os universos que circundam Evelyn e pôr fim a esses seres humanos que, a gororoba dos Daniel’s faz questão de salientar, não são rochas. Há aqui a obsessão pelo orifício, também pelo falo. Há estátuas usadas como vibradores e vibradores usados como armas contra policiais e seguranças no prédio da Receita Federal.

Toda aparente elasticidade do texto esconde o que vimos inúmeras vezes: este é um emaranhado de narrativas sobre uma mulher de vida infeliz, casada com um boboca, com uma filha (lésbica) que ela não aceita muito bem e, para completar, perseguida pelo Estado. O que ela faz? Foge para suas outras versões para compreender a si mesma. Somos múltiplos, não é? Evelyn precisa lutar kung-fu com inimigos de outros mundos, derrubar paredes e ganhar dedos moles como salsicha para descobrir isso.

É preciso falar do multiverso, que me parece a acomodação perfeita do videogame na sétima arte. Como nos jogos eletrônicos, vivemos na tela diferentes versões de uma mesma personagem, em diferentes fases. E se uma dessas versões morre em determinada fase, ela pode retornar ou ultrapassar um portal e aparecer inteira do outro lado.

Não basta ser engraçado. É preciso aqui ser pueril. Reconheço que em muitos momentos o ridículo é proposital: passamos de algo como Kill Bill, ou de algum filme de Michel Gondry, a um episódio de Power Rangers, com vilões vestidos com fantasias de Carnaval (todo meu respeito ao Carnaval brasileiro; o resultado aqui é bem inferior).

A aparência pueril precisa igualmente ser fofa, com guaxinins e cães colocados no meio de uma luta (fez-me lembrar das comédias dos Irmãos Farrelly). É o filme da era TikTok; em muitas cenas a ideia é apenas explorar a graça pela graça, a dancinha pela dancinha. É o cinema da lacração. A idiotia como regra.

Entre tantos escorregões é preciso reconhecer a garra de Michelle Yeoh. Sua dedicação ao papel protagonista faz o filme até parecer diferenciado. Em suas várias máscaras, da mãe de família à estrela de cinema, passando pela cozinheira e pela companheira de uma pianista que toca com os pés, chegamos até a acreditar que ela saiu ilesa dessa experiência desagradável banhada a uma muleta narrativa chamada multiverso.

(Everything Everywhere All at Once, Dan Kwan e Daniel Scheinert, 2022)

Nota: ★☆☆☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Lamb, de Valdimar Jóhannsson

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