Robert Altman segundo Paul Thomas Anderson

Parece caseiro e feito à mão. Centenas já tentaram ser Robert Altman – ou Altmanescos – mas lhes falta um certo ingrediente: não são ele. Não existe ninguém como ele. Ele pode ser imitado e pode influenciar, mas é impossível de ser alcançado ou capturado – é imprevisível e o rio que segue é só dele. É obstinado e generoso, petulante e reconfortante, e tem o melhor sorriso que um diretor de cinema pode ter. Um homem de Kansas City que lutou em guerras, tatuou cachorros, escreveu músicas e socou produtores.

Não se pode chamar muitos diretores de artista. Mas Bob é. Diretores podem ser um grupo malévolo e intragável, mas quando surge o nome de Bob – todos param e mudam o tom. Todos respeitam o Bob. Todos se curvam em reverência.

Assistindo a seus filmes como um fã e depois como um observador em seus sets, constato uma verdade: é impossível saber onde a conversa termina e a cena começa. Tudo parece um ensaio geral e antes que se tenha tempo de pensar duas vezes ou reconsiderar, ele já segue adiante. Se algo já foi dito, por que falar de novo? Como ele mesmo gosta de dizer, “Vamos ao verbo”.

Assisti o Bob rodando uma cena com um grande sorriso no rosto – e à medida que a cena se desenrolava, os atores se distanciavam mais e mais do roteiro e só melhorava, até que ele disse: “Assim é que é. Boa desintegração”.

E se Robert Altman tivesse que preencher um formulário e listar seu currículo? Seria engraçado. Provavelmente pareceria falso. Como uma pessoa pode ser responsável por tantos filmes bons? Ou melhor, como uma pessoa pode ser responsável por tantos filmes verdadeiramente incríveis? O trabalho e tudo que o envolva é puro alimento para ele. Uma vez lhe contei que estava indo de férias para o Havaí e ele me olhou como se eu fosse louco. Perguntei por que me olhava daquele jeito e ele disse: “Nunca poderia fazer isso. É longe demais da ação”.

Roubei do Bob da melhor forma que pude. Quando realmente comecei a digerir filmes como algo que pudesse fazer, os trabalhos que mais tinham a ver comigo eram os dele. Seus filmes e o homem que ele é imprimiram uma marca suave em minha mente, que estimo.

A partir do trabalho dele, comecei a perceber que não precisava de nenhuma das coisas que havia aprendido no livro de como fazer filmes. Não eram necessárias lições ou moral à história; as coisas poderiam simplesmente acontecer e as histórias poderiam divagar e serem mais efetivas em breves momentos de verdade em vez de em conclusões finais. Poderiam ser longas, poderiam ser musicais sem pessoas cantando, poderiam ser sujas e inteligentes ao mesmo tempo. Começos, meios e fins poderiam flutuar delicadamente juntos em qualquer ordem, e para isso nem era necessário que fosse um grande filme. As coisas poderiam acontecer sem muita explicação ou fanfarra, que os resultados aconteceriam por si só. Essa é a grande contribuição de Bob: não é necessário explicá-la. Se tudo já está ali exposto e o espectador quiser aproveitar, é só fazê-lo. E somos espectadores sortudos. Bob deixa sua mente livre e nos permite desfrutá-la. Ele é legal conosco, pois é fiel aos seus instintos. É difícil achar heróis nos filmes de Bob. A maioria de seus personagens são apenas pessoas tentando seguir em frente sem muitas ambições. Os filmes de Bob me ensinaram a acreditar que a coisa mais interessante – ou a única coisa interessante num filme – são as pessoas.

Seus filmes foram os primeiros, a que assisti, despidos de preciosismo. Era possível sentir que as mãos que os tinham feito não eram lá muito delicadas. Bob sempre só precisou de um pouco de celulóide e de algum som para iniciar a ação e colocar os atores em seus caminhos – porque é aí que está o verbo. Então era aceitável ser rude, não havia necessidade de polir e admirar, pois isso seria tolo e obstruiria o caminho da diversão que é fazer filmes.

Sinto-me honrado de estar do lado de Bob de tempos em tempos. Fico sempre atento aos novos rumos que seu trabalho toma. Todos nós. Aquele antigo ditado “Não há nada que já não tenha sido feito antes” é verdadeiro – contanto que estejamos de acordo que Bob o fez primeiro.

Paul Thomas Anderson, cineasta, no prefácio do livro Altman on Altman (traduzido e incluso no catálogo da mostra As Muitas Vidas de Robert Altman). Acima, Altman; abaixo, Thomas Anderson com o diretor de Nashville.

ACOMPANHE NOSSOS CANAIS: Facebook e Telegram

Veja também:
Nashville, por Wim Wenders

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s