Cada um Vive como Quer, de Bob Rafelson

Em dois momentos distintos, Robert Dupea encontra-se preso no trânsito. Primeiro, com um amigo de trabalho, em uma rodovia. Mais tarde, quando cruza com o carro de uma mulher pela qual se sente atraído, companheira de seu irmão, ao sair de uma balsa. Nos dois casos, ele irrita-se com o som das buzinas vindo dos outros veículos.

São dois momentos em que o caos e a cacofonia produzidos pela situação ajudam-nos a compreender o estado mental do protagonista de Cada um Vive como Quer: sua prisão resume-se sempre ao excesso, ao transbordamento do mundo sobre seus ombros, à impossibilidade de ser ouvido quando todos urram – ou buzinam.

Robert foi descrito por mais de um crítico como uma personagem de sua geração. Ele está sempre tentando escapar, mas não sabe explicar a si mesmo – nem para nós – qual caminho deve seguir, se é que existe um caminho possível. O confronto ao estado das coisas no interior de um labirinto é o que dá ao filme de Bob Rafelson a aparência errônea de não comunicar nada, de não ter sequer uma história a contar.

É o filme de uma personagem, sem dúvida. É um filme que permite assistir a um interior em cacos, à vida de um homem saído de uma família de músicos, cercado por intelectuais, que certo dia decidiu pegar a estrada e desaparecer. Quando o encontramos, no início, encaramos o operário entre as máquinas de exploração de petróleo, alguém que anulou seu passado para viver uma “vida comum” entre pessoas comuns, a jogar boliche nas horas vagas, a beber cerveja com o amigo de trabalho, a escapar com mulheres para sexo casual.

Ao receber a notícia de que seu pai sofreu dois derrames e está debilitado, ele resolve revisitar a família. Mas Robert não muda. Continua o mesmo homem sem filtro, com pouca paciência para a humanidade, até mesmo àquele microcosmo à parte resumido na bela casa afastada, em uma ilha, na qual vivem seus parentes – pai, irmã e irmão.

O protagonista tenta separar a vida atual da passada: sua namorada, Rayette (Karen Black), participa da viagem de retorno ao passado e é mantida em um motel a alguns quilômetros da ilha e da casa em que ele cresceu. É como se não pudesse mesclar universos, como se entendesse que a simplória e um pouco ignorante Rayette não pode entrar no espaço dos músicos e intelectuais, do qual ele fugiu.

Desejava Robert, em sua fuga, descobrir o mundo real? Ele, um pianista, converte-se em operário, integra-se à massa, enfrenta o trânsito, suas buzinas, todo o som de um mundo que, no fim das contas, não suporta – tão insuportável quando o silêncio da velha casa.

No curto retorno às origens, a presença de uma visitante – talvez alguém como ele, um pouco inconformada, em “trânsito” – inspira-lhe o incomum. Catherine (Susan Anspach) é atraente, tem massa crítica e, um pouco como Robert, “invadiu” um local que no fundo não lhe pertence – e, como ele, talvez não tenha encontrado qualquer lugar a lhe saciar.

Ela pede que ele toque piano quando estão sozinhos em um cômodo da casa. Ele obedece e se volta ao instrumento com uma das músicas que aprendeu na infância. Toca Chopin. Ela emociona-se com o momento. Ele desdenha: diz que a música escolhida, tão fácil de tocar, não lhe exigiu muito. Eles brigam, beijam-se, terminam na mesma cama e compreendem, pouco a pouco, que não podem ultrapassar tal impulso.

Robert nunca está contente. Seu inconformismo só se resolve no último plano, quando escolhe desaparecer. É um dos planos mais tristes do cinema, momento em que o caminhão no qual ele embarca some na estrada e, por alguns instantes, a imagem fixa-se no mesmo lugar, no tempo morto, no frio e no posto à beira da pista, na única sobra que a personagem legou-nos. Voltamos ao vazio. Diz-se muito com nada.

Com história e roteiro de Carole Eastman, Rafelson compõe cenas nas quais seu protagonista está sempre em movimento, sempre com algo a fazer, o que faz dele um estranho quando é levado ao estado de espera em sua antiga casa. Estado, sem dúvida, que o corrói: o herói deslocado – herói porque comunica sua autenticidade a qualquer outro inconformado – não quer fazer mais parte do lugar que o gerou, com irmãos felizes e indiferentes, com o pai sem voz, aos cuidados de um enfermeiro, preso à cadeira de rodas.

Jack Nicholson equilibra Robert entre explosões de fúria e pausas para pensar, com o espelho ou o pai diante de si, com algumas escolhas que mudam uma vida toda e são tomadas em poucos segundos. Nem pianista nem operário. Em sua nova viagem, na companhia de um desconhecido, continuará a viver em busca do indefinido.

(Five Easy Pieces, Bob Rafelson, 1970)

Nota: ★★★★★⤴

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Veja também:
Bonnie e Clyde, por Pauline Kael

2 comentários sobre “Cada um Vive como Quer, de Bob Rafelson

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