Cassavetes segundo Scorsese

Tive a sorte de ter começado a estudar cinema no começo dos anos 1960. Havia então uma sensação de grande liberdade e entusiasmo na encenação, o sentimento que podíamos tentar de tudo. A nouvelle vague na França, o cinema italiano, o cinema inglês – havia a impressão de que se passava algo em todo lugar. Mas durante essa época incrível, o filme que teve mais impacto em mim foi Sombras (Shadows, 1959). Eu assisti a ele apenas uma vez – é um filme tão poderoso que nos faz ter o desejo de assistir a ele apenas uma vez. Reinava entre os personagens uma tal verdade, uma tal honestidade que provocava um choque. E o filme foi rodado com uma câmera 16 milímetros leve; não havia então mais nenhuma desculpa para os aspirantes a cineasta, a quem os custos de produção ou o número de técnicos causava pavor. Mais tarde, foi Jay Cocks quem me apresentou a John Cassavetes. Jay lhe mostrou meu primeiro longa-metragem, Quem Bate à Minha Porta?, que ele apreciou. Quando conversamos sobre o filme, eu o critiquei com comentários como: “John, esse filme é cheio de defeitos!”, e ele me respondeu: “Não, não – é um filme pleno de sua paixão”. Nos tornamos amigos. Um dia, enquanto eu trabalhava em Assim Fala o Amor (Minnie and Moskowitz, 1971) como montador de som (na verdade, eu dormi no set durante uma semana e, quando precisávamos de efeitos sonoros para uma confusão, eu segurei John antes que alguém ameaçasse agredi-lo), meu agente ligou para o escritório de John para saber de noticias minhas. Sua secretária perguntou a ele se se tratava de algo importante: “Importante? É a maior chance de sua vida! Ele vai fazer um filme. Acabo de receber o roteiro”. Ela simplesmente lhe respondeu: “Não tem graça!”, antes de desligar. Acabei conseguindo falar com ele e, quando o filme, Sexy e Marginal (Boxcar Bertha, 1972), terminou, mostrei a John um primeiro corte de duas horas. Ele me fez ir até o seu escritório, me olhou e disse: “Marty, você acaba de passar um ano da sua vida fabricando essa merda. É um filme correto, mas não se deixe levar por esse tipo de cinema – tente fazer um filme pessoal”. Fazia algum tempo que eu me debatia com a ideia de me tornar um diretor hollywoodiano da velha escola que realizaria filmes desse tipo, mas compreendi mais tarde que a influência dos filmes europeus sobre mim tinha sido muito forte e que eu não tinha mais escolha. Eu me encontrava um pouco dividido, posição que John aceitava e que ele me ajudou a aceitar. Ele me perguntou se eu tinha um roteiro que eu morria de vontade de filmar. Eu lhe disse: “Sim, mas é preciso reescrevê-lo”. Eu então reescrevi esse roteiro, que se tornou Caminhos Perigosos. Quando ouço a expressão “cineasta independente”, penso logo em John Cassavetes. Ele foi certamente o mais independente de todos os diretores. Ele se foi e ficou para mim um guia e um mestre: sem seu apoio e seus conselhos, eu não sei o que eu me tornaria no mundo do cinema. A pergunta “o que é um cineasta independente?” não tem nada a ver com o fato de se estar dentro ou fora da indústria hollywoodiana, nem de saber se se vive em Nova York ou em Los Angeles. O único problema interessante é aquele da determinação e da força; é preciso ter a paixão para se dizer algo tão forte que nada nem ninguém nos impedirá. Cada vez que encontro um jovem realizador ávido por conselhos, eu lhe digo para meditar sobre a vida e a carreira de John Cassavetes. Seu exemplo é uma fonte de grande força. Foi graças a John que eu realmente compreendi que se podia fazer um filme, o que em si é uma ideia louca, posto que demanda uma iniciativa enorme, da qual não entendemos a dimensão quando estamos mergulhados nela… mas então, é tarde demais. John era uma força da natureza.

Nada poderia parar Cassavetes, a não ser Deus, que acabou por fazê-lo. John morreu muito cedo, mas seus filmes e seu exemplo estão sempre vivos. Ele disse um dia: “Não temos medo de nada nem de ninguém quando queremos fazer um filme!” É simples assim. É preciso ser tão audaz quanto ele foi.

Cahiers du Cinéma nº 500 (março de 1996). Acima, Cassavetes; abaixo, Scorsese com Cassavetes.

Veja também:
As melhores cenas do cinema em um filme de Visconti, segundo Hector Babenco

Um comentário sobre “Cassavetes segundo Scorsese

  1. Scorsese é tão habilidoso com palavras como é na direção. Nessa indústria, acho que ninguém exalta Cassavetes com tanta paixão como ele faz (e com razão).

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