Infâmia, de William Wyler

Além de má, a criança é irritante. O diretor William Wyler procura sua face, em close, enquanto a circula. É uma criança que interpreta, espécie de pecado que o cinema americano custou a superar – e talvez nunca tenha superado. Algo artificial em excesso, contraste à precisão e segurança das protagonistas Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.

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François Truffaut costumava dizer que crianças não deviam interpretar. Na tela, precisavam ser elas mesmas. A fantasia da interpretação seria uma camada a mais, da qual as crianças não necessitam. Wyler, como em sua versão da mesma peça, de 1935, paga, outra vez, um preço alto: as cenas menos interessantes envolvem crianças.

E elas, sabemos, estão na base do drama de Infâmia. De suas mentiras – contra os adultos e nas quais muitos terminam acreditando – brota a calúnia contra duas professoras, acusadas, quando o ato era considerado crime, de lesbianismo. A peça é de Lillian Hellman, o roteiro de John Michael Hayes. A criança malvada é vivida por Karen Balkin.

Cansada de viver na escola, sob as regras das professoras Karen Wright (Hepburn) e Martha Dobie (MacLaine), a menina alimenta a mentira de que as duas têm um caso. Diz ter visto coisas, ouvido sons estranhos – o suficiente para criar pânico na sociedade conservadora da época, personificada na personagem idosa de Fay Bainter.

Fosse o caso de professoras armadas, não teria ocorrido problema algum. Ao contrário, é provável que os pais aprovassem as medidas de segurança. Mas se trata de um boato sobre homossexualidade. Ou, mais ainda, sobre sexo. E nada inflama mais o ódio dos conservadores do que a possibilidade de um comportamento considerado fora dos padrões.

Conhecemos o desenrolar: as professoras pagarão caro, os pais retirarão, um a um, seus rebentos da escola. Sobram perguntas e as respostas são abafadas, sem jeito, até que alguém resolve falar. Em uma das melhores cenas do filme, um dos pais, do lado de fora da escola, conta para Karen a infâmia espalhada aos quatro cantos da cidade, à medida que o diálogo, nunca ouvido por nós, é observado por Martha com alguma distância.

Diferente de sua versão de 1935, com Miriam Hopkins e Merle Oberon nos papéis das professoras, Wyler retira as sequências de tribunal. As folhas levadas pelo vento, na frente da instituição, dão a ideia da passagem do tempo, do estrago feito. A versão anterior sequer era sobre homossexualidade: na América do recém-instituído Código Hays, o suposto caso lésbico tornou-se um caso de adultério envolvendo Martha e o namorado de Karen.

É provável que Wyler estivesse em débito com as correções. Voltar à mesma história, dessa vez como deveria ser contada, garante um drama adulto, crível, sobre a escola como o último reduto possível contra a intolerância; sobre uma mulher que ama outra e não pode dizer; sobre o medo de tal sentimento e, sobretudo, de servir justamente à personagem que levou a sociedade a enforcá-la – primeiro de forma simbólica, depois literal.

Desde o início, Wyler esforça-se para separar as personagens – na abertura, Karen e Martha estão de lados opostos da sala em que ocorre uma apresentação musical. A distância transmite a ideia de impessoalidade; nunca vemos uma amizade calorosa, o toque, uma relação de mulheres que, mais que confusão, poderia causar entendimento.

Eis o ponto baixo da obra e que quase termina por sabotá-la: há sempre um cuidado em nos dizer quem é Karen e quem é Martha. A primeira, uma mulher perfeitinha, angelical, a Audrey Hepburn saída de A Princesa e o Plebeu (do mesmo diretor) e A Cruz à Beira do Abismo. Não há espaço para a contradição que pouco se estende à companheira de trabalho, a mulher um pouco perturbada, retraída, na pele de MacLaine.

O filme apenas raspa, na superfície, suas inúmeras possibilidades – ainda que, na comparação com a versão de 1935, que terminava com a celebração do amor heterossexual, seja um significativo avanço. Certamente causou barulho na América da época. Seu preto e branco sereno conjuga-se a esse tempo de dramas sobre questões sociais urgentes; o silêncio de suas personagens não oculta, por completo, a vontade de gritar.

(The Children’s Hour, William Wyler, 1961)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Uma Cruz à Beira do Abismo, de Fred Zinnemann

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