Eu te Amo, Eu te Amo, de Alain Resnais

Algumas personagens e planos são aleatórios: alguém veste uma máscara de peixe, um homem afoga-se no interior de uma cabine telefônica. Em comum, a água, o mesmo material que envolve o protagonista em seu retorno ao passado. Aleatoriedade? Talvez tudo não seja o que parece. Talvez nada se dê ao acaso, e cada peça esteja no devido lugar.

Ao ser submetido a uma experiência de viagem no tempo, o protagonista surge sob as águas do mar, na praia em que se banha na companhia da amada. Ele nada, ela toma sol. Ele emerge e fala dos peixes que viu, ela continua relaxada. A cena repete-se em Eu te Amo, Eu te Amo; algo dá errado e a máquina do tempo termina por aprisionar sua cobaia.

O protagonista de Alain Resnais é Claude Ridder (Claude Rich), que tentou o suicídio e fracassou. Ao ter alta de uma clínica psiquiátrica, antes de embarcar em um táxi para voltar para casa (para seu passado, ou início de seu futuro), ele é abordado por dois homens do grupo que faz experimentos com o tempo e já o observavam.

“Eu não sei se sobrevivi”, afirma, após sair da clínica, a caminho do centro de experimentos no qual será convidado a reviver momentos de sua vida – ou só lembrá-los. Em muitos de seus filmes, Resnais questiona-nos sobre o passado, a memória e se ambos são compostos da mesma matéria. Aqui o questionamento cabe à perfeição: o que Ridder volta a viver é seu passado ou o que ele acha que é seu passado? Ou, ainda, um passado refeito?

Todos vivemos no passado. É o que nos diferencia dos ratos de laboratório. Voltamos todos, em algum momento, a Marienbad, ao tempo em que muito se repete – o local, as pessoas, as ações, os jogos. Ridder vive esse retorno, agora escancarado, acrescido de outro problema: quando a máquina do tempo apresenta defeito, sua memória é embaralhada.

A máquina serve melhor aos animais, que, antes ou depois, serão sempre os mesmos. Levar um homem de volta ao passado não pode ser feito sem o custo do conflito da cobaia com seu próprio eu, seus traumas e fugas, amores e obsessões. E seu imaginário. Resnais parte da obra de Jacques Sternberg para fazer um exercício de montagem: reflete a memória como ação de descontinuidade, tempo fatiado, negação da aleatoriedade.

Momentos aparentemente banais da vida ganham outro peso quando reposicionados. A forma determina o sentido e a vida de Ridder que veremos. Para o realizador, o homem pode ter várias e a cada volta à memória uma delas salta à frente, uma nova possibilidade de nascimento – no oceano, em um trem, em um escritório, na cama. (Fico imaginando Resnais na sala de edição, divertindo-se com todos os caminhos possíveis para sua história.)

Ridder crê ser o responsável pela morte de sua amada, Catrine (Olga Georges-Picot). Traumatizado, ele é um prisioneiro do tempo. Aceitar voltar ao passado no interior de uma máquina redonda feita de plástico, em um bunker que mais parece o covil de um vilão da série 007, talvez seja a maneira de tentar reajustar as peças, curar-se.

A máquina não suporta o homem – não o compreende, não o sustenta. Não é a máquina do tempo que apresenta defeito; é o material humano que não pode ser posto sob seus códigos matemáticos. O tempo é uma criação nossa. O que realmente importa é a memória.

Resnais expõe um paradoxo: ainda que não pare nunca, o tempo repete-se incessantemente. “São três da tarde. No entanto, ainda faltam três horas. Três minutos atrás eram três da tarde. Em três semanas ainda serão três da tarde. Daqui um século também. O tempo passa para todo mundo, mas para mim, trancado nesse quarto, o tempo permanece estático. Procure o seu tempo. São três horas da tarde sempre”, diz o protagonista em momento revelador.

O tempo que aprendemos a calcular – horas, dias, meses, anos – é a tentativa de dar ordem ao caos. A máquina do tempo, com seu suposto defeito, termina por revelar nossa forma e como é a nossa volta ao passado: em cena, o confronto à ordem, o necessário apelo ao caos e o que nos define por inteiro: a memória do que vivemos, e do que não vivemos.

(Je t’aime, je t’aime, Alain Resnais, 1968)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Veja também:
Meu Tio da América, de Alain Resnais

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