O Conformista, por Alcino Leite Neto

Marcello Clerici é um cretino. E O Conformista, filme de Bernardo Bertolucci que a Globo exibe à 1h*, é a história de um cretino. Sua vida é uma série de traições, a principal delas contra si mesmo. Seus movimentos, seus olhares, são de um personagem de farsa que tivesse sido empurrado para um palco de tragédia. O filme oscila entre as duas cenas, farsa e tragédia, e isto o faz decididamente contemporâneo, apesar de em 1970 ter sido visto como um recuo acadêmico do “experimentalista” Bertolucci, então com 29 anos. Pela primeira vez o diretor filmava com uma grande companhia norte-americana, a Paramount. Era um tempo de radicalismos – políticos, estéticos, existenciais. Em 1972, viria O Último Tango em Paris, que conduziria Bertolucci de uma vez por todas do âmbito das vanguardas para a consagração mundial. Até hoje alguns não lhe perdoaram este feito.

Alberto Moravia, escritor italiano morto no ano passado, foi uma espécie de aval para que a Paramount financiasse Il Conformista. É dele o romance homônimo no qual o diretor se baseou, adaptando-o à sua imagem e semelhança. É seu filme do inverno de 69/70, feito em seguida às filmagens de A Estratégia da Aranha, seu filme do verão. A luz alcançada pelo extraordinário fotógrafo Vittorio Storaro – expressionista neste, pontilhista em Estratégia –, define uma e outra produção do ponto de vista estético, e as duas se correspondem no mesmo esforço de encontrar sentido para um cinema pós-godardiano, que recuperasse a narrativa, a psicologia, o desejo de cinema sem fazer tábula rasa das rupturas contemporâneas.

Bertolucci é um maneirista – e existe um maneirismo não pejorativo. Sua fascinação pelo grande afresco é simultânea à obsessão pelo detalhe, pela deformação do detalhe. Marcello Clerici (Jean-Louis Trintignant) é um detalhe no movimento do fascismo italiano, mas para Bertolucci a hipertrofia deste detalhe pode explicar um bom montante da psique fascista e do fascismo “lato sensu”. De família decadente da alta burguesia, Marcello é seduzido na infância pelo seu chofer, no qual ele atira e que pensa ter matado. O trauma, o segredo, o recalcado vão acompanhá-lo pela vida e dizem respeito menos ao assassinato que ao desejo homossexual.

As suas emoções em desordem vão encontrar sossego na paz medíocre da pequena-burguesia, com a qual ele se liga pelo casamento. É a classe que consolida a ordem e as aspirações do movimento fascista, a que Marcello acaba por prestar serviços de espionagem. Mas o inconsciente lateja e Marcello ainda deverá realizar a punição da mãe, amoral e indiferente, e a imolação do pai simbólico, o professor Quadri, um antifascista que tem o mesmo número de telefone de Jean-Luc Godard em Paris, à época. Ao final, a derrocada de Mussolini é simultânea à confrontação de Marcello com sua ferida narcísica.

Marcello transita entre Roma e Paris. Bertolucci filma as duas cidades de maneira impressionante, ressaltando seu aspecto cenarístico grandioso, grandiloquente. Estamos bem longe de Antonioni, para quem o espaço abre o vácuo da ação aos personagens. Nestes espaços retóricos, operísticos, o conformista de Bertolucci é um homem de ação, muitas vezes violenta, principalmente teatral. É o bufo de uma tragédia que ele orquestra nos detalhes mais cruéis, a marionete de uma “bufonerie” inconsciente que ele não domina.

“Farsa e tragédia duelam em O Conformista”, Folha de S. Paulo (*6 de fevereiro de 1991)

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