Titane, de Julia Ducournau

A junção entre carne e metal produz algo sensível. É estranho, mas possível. E é este o mérito maior de Julia Ducournau com seu Titane: à contramão do que presenciamos o tempo todo, dos choques, mortes, confrontos, explosões, do fogo que desliza pelo teto e com o qual as personagens precisam lidar, ainda há algo humano em jogo.

A protagonista descobre no metal um ponto de equilíbrio – quase um sentido – quando tem uma placa de titânio presa ao crânio, ainda na infância, depois de um acidente de carro. É o custo de sua sobrevivência nesse filme violento e imprevisível. O metal pregado ao corpo é o primeiro sinal de um “monstro” em gestação na mulher que, para sobreviver, após provocar um banho de sangue, assume a identidade de um homem.

A protagonista é Alexia (Agathe Rousselle), dançarina de roupas provocantes, coberta por maquiagem, em feiras e eventos de automóveis. Exibi-se sobre a estrutura de um cadilaque pintado em cores de fogo, vermelho e amarelo, para mais tarde, nua, retornar ao veículo e consumir com o mesmo – que vive e mexe seus amortecedores – o sexo que nos disvirtua.

É só o início. Alexia é também uma serial killer. O filme tenta justificar – sem nunca absolvê-la – seus crimes em série. Alexia mata pela ausência de afeto, pelo que desconhece, o que só lhe permite chegar ao gozo pela máquina, em festas e perto de gente obsessiva, homens predadores, moleques boçais, fauna de carne frágil.

O sexo com o “monstro” é a recusa à forma imposta, às regras dadas, aos afetos socialmente aceitos, e a atração dessa menina-mulher ao que lhe permitiu viver: o titânio. E aos carros que, desde pequena, aprendeu a amar. Vivemos em um mundo de máquinas e não raro as humanizamos, conferimos-lhes nomes. São objetos utilizados para nosso próprio estímulo e representação – em nossa completa cegueira – da potência.

Para Alexia, é sua última ponte ao prazer e à vida – à revelia dos seres estranhos (escondidos em alguma “normalidade”) e outros apenas ingênuos que cruzam seu caminho. Perseguida pela polícia, ela precisa se transformar; observa um painel com fotos de crianças desaparecidas e decide colher uma identidade. Corta o cabelo, esconde as curvas do corpo com tecido e quebra o próprio nariz para se “masculinizar”.

Redefine-se para um mundo de homens que lhe confronta, para além de seu novo visual. Ao ser dada a um pai, Vincent (Vincent Lindon), passa a integrar uma brigada de bombeiros anabolizados. Encaixa-se com dificuldade e aos poucos se aproxima do homem que quer o filho de volta – mesmo que não seja o verdadeiro. Vincent sabe que não é.

Em um dos treinamentos com fogo, a memória ataca-o: uma criança encolhida e carbonizada dá a furtiva ideia de seus demônios pessoais, e do que Vincent perdeu. Para ele, Alexia, feita Adrien, será a substituta. A partir desse ponto temos a chave para um confronto entre opostos: ela só pode amar o que não tem vida, ele precisa de um filho, um ser vivo para lhe estimular o afeto.

O “monstro” gestado será filho de Vincent, não de um automóvel. O óleo é sangue. A filha deseja o pai. A criança chora. E o metal será visto em outras partes do corpo de Alexia, que, nesse ato de força – dar à luz -, tem a grande experiência humana com o único homem que conseguiu amar, ainda que ele esperasse dela outro papel.

Com a pressa comum à classe, mais de um crítico alardeou: há nas formas de Ducournau o que já vimos algumas vezes em Cronenberg. Discordo. Ainda que a fusão entre carne e máquina aproxime-os, Cronenberg consegue ser mais amargo: compõe mundos em que somos devorados pela ciência, nos quais as neuroses das personagens não são facilmente explicáveis. Ducournau ainda se rende ao humano, chega à maternidade.

Prefiro pensar em Possessão, de Zulawski, no qual uma mulher realiza-se sexualmente com um monstro e confronta a forma feminina esperada, uma personagem em crise no casamento, possuída, a nos carregar – como Alexia – a uma fuga ilusória e à transformação que passa pela forma física, por fluídos, cisões e desemboca em um caso de amor estranho e real.

Não quero dizer que Alexia seja histérica. Não acredito igualmente que a obra do grande Zulawski resuma-se à questão. E nem que Alexia seja apenas uma mulher. Sua androginia possibilita o trânsito por uma zona de não reconhecimento quando pula entre homens ao som do rock pesado e depois dança de maneira sensual, sobre o caminhão de bombeiro, na mesma festa. Ducournau deu vida à personagem-síntese de nosso tempo.

(Idem, Julia Ducournau, 2021)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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