Festival de Cannes: dez obras-primas que ganharam o Grande Prêmio do Júri

O Grande Prêmio do Júri é a “medalha de prata” do Festival de Cannes. O “ouro” é a Palma. No entanto, não é nada incomum – como se vê nesta lista – o segundo colocado ser melhor que o primeiro. Abaixo, oferecemos dez exemplos de como algumas obras-primas nem sempre ganham os principais prêmios do mundo. O Grande Prêmio do Júri começa a ser entregue em 1967. Antes existia apenas o Prêmio do Júri.

Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri (1970)

O cinema político italiano dos anos 1960 e 1970 tem em Petri um dos seus principais nomes. E este trabalho pulsante, sobre um delegado de polícia que usa das próprias forças para cometer crimes que, acredita, não poderão ser descobertos, é provavelmente seu grande trabalho. Se aqui escapou, a Palma viria pouco depois por A Classe Operária vai ao Paraíso, de novo trabalhando com Gian Maria Volonté.

Palma de Ouro dessa edição: MASH, de Robert Altman

Solaris, de Andrei Tarkovski (1972)

O astronauta perdeu a mulher que amava. Ao sair em viagem ao espaço, tão perto de um planeta com vida própria, ele reencontra a falecida. Seria um espírito? Seria o próprio astronauta, a reproduzir uma imagem mental? Solaris, o planeta, é um oceano em movimento ao qual o protagonista é atraído: seus desejos e suas fraquezas passam por ali. O filme, dizem, é a resposta soviética ao 2001 de Kubrick.

Palma de Ouro dessa edição: A Classe Operária Vai ao Paraíso, de Elio Petri, e O Caso Mattei, de Francesco Rosi

A Mãe e a Puta, de Jean Eustache (1973)

Depois de 1968 e do fim da nouvelle vague, alguns cineastas ainda buscavam o espírito libertário dos tempos anteriores. Essa pérola de Eustache tem mais de três horas de duração e vai fundo nos diálogos, na relação crua entre pessoas. Nem uma mãe nem uma puta estão no caminho do protagonista, vivido por Jean-Pierre Léaud (o rosto da nouvelle vague). Estão por ali, na verdade, duas grandes mulheres.

Palma de Ouro dessa edição: Espantalho, de Jerry Schatzberg, e O Assalariado, de Alan Bridges

O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog (1975)

Um homem sem raízes definidas, sem linhagem, sem fala e, à primeira vista, sem cultura é deixado sozinho para ser encontrado. Ele, Kaspar Hauser, viveu boa parte da vida aprisionado como um animal. O mestre Herzog revela-nos que há algo além de seu rosto perdido e desavisado. A sociedade que o cerca quer entendê-lo. Aos poucos ele passa a viver entre os homens, entre classes, e revela ter alma.

Palma de Ouro dessa edição: Crônica dos Anos de Fogo, de Mohammed Lakhdar-Hamina

Meu Tio da América, de Alain Resnais (1980)

As relações humanas são equiparadas a experiências científicas. Mas os seres humanos, mostra Resnais, tem suas próprias características e complexidades. O tal “tio da América” é uma memória comum entre as três personagens centrais: um camponês que vai para a cidade trabalhar e tem problemas de adaptação, uma atriz e um futuro ministro. Entre ficção e documentário, eis um filme profundo.

Palma de Ouro dessa edição: Kagemusha, a Sombra de um Samurai, de Akira Kurosawa, e O Show Deve Continuar, de Bob Fosse

A Noite de São Lourenço, de Paolo e Vittorio Taviani (1982)

Tem tons de fábula. E tem o realismo comum aos talentosos irmãos italianos, vencedores da Palma, anos antes, por Pai Patrão. Em meio à Segunda Guerra Mundial, um grupo de pessoas de uma pequena cidade vaga pelas estradas da Itália rural e tenta sobreviver ao confronto. Ao mesmo tempo, pequenas histórias desenrolam-se entre essa gente simples. Voltam algumas lembranças e até amores do passado.

Palma de Ouro dessa edição: Desaparecido: Um Grande Mistério, de Costa-Gavras, e O Caminho, de Serif Gören e Yilmaz Güney

O Sacrifício, de Andrei Tarkovski (1986)

Que Tarkovski era um gênio pouca gente duvida. Que Cannes tenha perdido uma segunda oportunidade de lhe dar o prêmio máximo é até difícil de acreditar. Pois O Sacrifício, seu canto do cisne, é visualmente arrebatador e está alinhado a uma carreira exemplar. Em cena, um homem oferece-se em sacrifício quando percebe a iminência de um conflito que pode colocar fim à humanidade.

Palma de Ouro dessa edição: A Missão, de Roland Joffé

A Bela Intrigante, de Jacques Rivette (1991)

Marianne (Emmanuelle Béart) aceita posar para o renomado pintor Edouard Frenhofer (Michel Piccoli). Boa parte desse filme sublime dá-se nessa relação entre artista e musa, para dentro de seu ateliê, no espaço da criação. Baseado em A Obra-prima Inacabada, de Honoré de Balzac, Rivette vai fundo nessa relação entre pessoas e nos mostra como a arte – no seu fazer, no seu resultado – esconde mistérios. 

Palma de Ouro dessa edição: Barton Fink, Delírios de Hollywood, de Joel Coen

Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos (1995)

Desapontado por ter ficado com a “medalha de prata”, Angelopoulos disse ao público de Cannes: “Se é isso que vocês tem a me dar, não tenho nada a dizer”. E saiu do palco, deixando o apresentador Andy Garcia desconcertado. Contra a obra-prima do diretor grego havia outra, a de Kusturica. Três anos depois, Angelopoulos finalmente levaria sua Palma, pelo também incrível A Eternidade e Um Dia.

Palma de Ouro dessa edição: Underground: Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

Era uma Vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan (2011)

É, às aparências, um filme policial, a história sobre homens a bordo de veículos pelas estradas frias da Anatólia. Tentam encontrar o local em que um corpo está enterrado. Os policiais e o criminoso. A viagem assume outro aspecto, o tempo é suspenso, vemos uma fruta rolar e, para tanto, todo tempo do mundo. E quando pensamos encontrar o respiro, Ceylan entrega-nos o mais triste dessa história.

Palma de Ouro dessa edição: A Árvore da Vida, de Terrence Malick

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Foto do cabeçalho: O Sacrifício

Veja também:
15 obras-primas que saíram de Cannes sem nenhum prêmio

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