A vitória de Gosto de Cereja no Festival de Cannes

Fiquei satisfeito com a Palma de Ouro, não só por ter recebido o prêmio, mas pelo tipo de filme que ela premiou. E foi totalmente sincera minha surpresa. Nunca tinha imaginado que um júri de Cannes, onde se prefere assinalar o que ocorre no cinema comercial, daria importância a esse tipo de filme. O prêmio fez com que muitos espectadores, mais interessados pelo cinema de Hollywood, tenham se interessado em conhecer esse tipo de cinema. Foi uma espécie de reconciliação entre o cinema comercial e o cinema de autor. É o tipo de coisa que nos encoraja a continuar fazendo esse tipo de cinema, constantemente preterido em relação ao cinema americano.

Abbas Kiarostami, cineasta, autor de Gosto de Cereja, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (Caderno Ilustrada, 24 de outubro de 1997).

Se houve política na premiação de Cannes 97, e houve, ela não visou chamar a atenção para a luta dos cineastas (e outros) contra a censura (e outros) no Irã.

Ou seja, Gosto da Cereja não dividiu a Palma de Ouro com A Enguia, de Shohei Imamura, por razões extracinematográficas (sabe-se que Gosto da Cereja quase foi proibido de participar do evento pelas autoridades iranianas).

A atitude do júri foi política, sim, mas por retomar a tradição de dar até mesmo o grande prêmio do festival a filmes com produção pequena, mas imensamente fortes, como no caso desse trabalho de Abbas Kiarostami.

O júri foi tão mais corajoso porque dessa vez Kiarostami veio um tanto mudado. Até aqui, seus filmes nunca descreviam um mundo feliz. Havia pobreza, terremotos, angústia. Mas, a todas as vicissitudes, o cineasta sempre contrapôs a força da vida.

Inácio Araújo, crítico de cinema, na mesma edição da Folha de S. Paulo (leia sua crítica completa aqui).

Houve um grande drama em Cannes no ano passado, quando o diretor iraniano Abbas Kiarostami foi autorizado, no último momento, a deixar seu país e assistir à estreia no festival de seu novo filme, Gosto de Cereja. Ele foi aplaudido de pé ao entrar no teatro, e outra vez ao final de seu filme (embora desta vez misturado com vaias), e o júri acabou tornando o filme co-vencedor da Palma de Ouro.

De volta ao Hotel Splendid, no saguão, discordei energicamente de dois críticos que respeito, Jonathan Rosenbaum, do Chicago Reader, e Dave Kehr, do New York Daily News. Ambos acreditavam ter visto uma obra-prima. Eu acreditava ter visto o imperador sem suas roupas.

Roger Ebert, crítico de cinema (leia sua crítica completa aqui).

Acima, Kiarostami com a Palma de Ouro. Abaixo, o ator Kôji Yakusho, de A Enguia, a atriz Catherine Deneuve e Kiarostami na premiação. Na ocasião, a presidente do júri foi a atriz Isabelle Adjani. Outros grandes filmes concorriam à Palma em 1997, como Violência Gratuita, Felizes Juntos, Violento e Profano, Los Angeles: Cidade Proibida e O Doce Amanhã.

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