Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade

Dois dos conspiradores, em cena que cruza depoimentos passados e presentes, diálogo e confissão, não levam Tiradentes a sério. Não só eles. “Aquele é um doido”, diz Bueno da Silveira, vivido por Paulo César Peréio. Presos e interrogados, esses homens precisam apontar um culpado para escapar da forca, o que melhor cabe ao papel.

É Joaquim José da Silva Xavier, a quem Joaquim Pedro de Andrade, em Os Inconfidentes, nunca dá o posto de protagonista. Seu filme espalha, voz a voz, homem a homem, o que nos revela ser um punhado de contradições: no esconderijo dos que tramam a liberdade de um país, vemos seres decididos, imponentes, equilibrados; no cárcere, figuras fracas, decididas a desviar de suas antigas ideias, a salvar as próprias peles.

“Na verdade, para onde te inclinares, penderá à balança do poder”, afirma Bueno da Silveira, na cena citada no primeiro parágrafo. O filme mostra como homens de verdade, resumidos à carne vermelha sob as moscas na abertura e no fechamento, lidam com o poder: até alguma altura, eles são pura consciência e poesia, e fazem delas o alicerce de seus discursos; uma vez presos, pendem ao desespero e traem a si mesmos.

Tiradentes é um revolucionário enérgico. Diz o que todos pensam e nem sempre verbalizam: é o candidato perfeito ao troféu da Coroa portuguesa – com toda a carne vermelha já citada. Seria, em nossos tempos, o primeiro a levantar a bandeira, o punho, em protesto contra os poderosos, jovem de espírito livre que quer despertar o povo.

No espaço de contradições criado por Joaquim Pedro, no qual a poesia dá lugar à vontade de revolução, no qual o discurso libertário cede à pusilanimidade, Tiradentes será um dos corpos açoitados, pretenso líder enforcado e posto aos olhos das crianças – as de 1972, em uma das cenas mais interessantes – que aplaudem uma estranha aula de História.

Tiradentes vocaliza o desejo. A ele, José Wilker empresta tanta fúria, tanta certeza, que, no fim das contas, não conseguimos enxergar sua alma. A classe alta e alguns poderosos da época – a Igreja, os militares, os poetas – sabem o que querem desse inflamador e como instrumentalizá-lo. E sabem que podem jogá-lo aos leões quando necessário.

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O filme de Joaquim Pedro inicia com passagens que resumem seu tempo: um dos conspiradores enforca-se no cárcere, outro é golpeado na tortura e um terceiro, poeta, tenta se lançar ao mar, desesperado para ir embora. A última cena devolve-nos ao fluxo livre da câmera e aos figurinos coloridos, delirantes, de Macunaíma e seu herói “sem nenhum caráter” – ao Brasil das alegorias e do desespero, do oceano como fuga utópica.

Uma vez presos, os conspiradores começam a criar outras versões para se verem livres da degola. Precisam negar crenças, ideias, princípios. Certa classe dominante vive essa encruzilhada nos tempos da Inconfidência Mineira, nos da Ditadura de 1964. Temos aqui o papel de alguns – não de todos – intelectuais, seres pensantes mas aprisionados.

De olho nas montanhas de Minas Gerais, a personagem de Fernando Torres fala dos penhascos que fizeram o berço em que nasceu. Mais tarde, acorda ao lado de uma mulher negra que não fala, que põe à mesa o alimento à medida que seu senhor conversa com os outros conspiradores e traça planos do levante contra a Coroa portuguesa. Encarcerado e interrogado, ele afirma que os culpados são os soldados, que demoraram para prender Tiradentes, “um homem de tão fraco talento que não poderia tentar nele, com ele, coisa alguma”. Sua dor transborda enquanto encara a câmera, leva-o ao suicídio.

Próximo das comemorações dos 150 anos da Independência, o governo militar, por meio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), anunciou o apoio oficial à produção de filmes baseados em obras que homenageassem o passado brasileiro. Joaquim Pedro dá sua contribuição com figurinos e espaços do passado, e volta a câmera ao presente.

Os Inconfidentes mostra como a poesia – essa forma de vida que não cessa, esse canal à arte mesmo quando se está desprovido de todos os meios e se conta apenas com a palavra falada – ainda sobrevive ao terror e como não há Brasil possível – na Inconfidência Mineira, na Ditadura a partir de 1964 – sem as contradições que envolvem o homem político.

As imagens das celebrações de Tiradentes mostradas ao fim são o retrato de um Brasil ufanista, militarizado, que nada aprendeu com sua História. O herói da Inconfidência é convertido em personagem que só pode servir como mito de desfile a um país que, àquela altura, em 1972, continuava a prender e torturar subversivos.

(Idem, Joaquim Pedro de Andrade, 1972)

Nota: ★★★★★

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Desajuste Social, de Pier Paolo Pasolini

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