Belas e forasteiras no cinema de Alfred Hitchcock

As belas são de fora, desequilibram o espaço dos homens, esses filhos sob os olhos atentos de suas mães, em dois grandes filmes de Alfred Hitchcock. Em Psicose, Marion Crane (Janet Leigh) termina, no meio da noite com chuva, no Bates Motel. Com 12 quartos e 12 vagas, explica o atendente, filho da proprietária, Norman Bates (Anthony Perkins).

O seguinte, Os Pássaros, tem uma bela moça acostumada às colunas sociais e que ousa desequilibrar o paraíso pacato do pretendente. Melanie Daniels (Tippi Hedren) talvez tenha cansado dos homens da cidade grande; chega a hora de viajar, arriscar-se mais, para tentar ganhar o coração do interessante Mitch Brenner (Rod Taylor).

Marion e Melanie são mulheres que fogem por diferentes motivos. A primeira carrega a culpa do roubo que cometeu e, às águas às quais se lança, no motel, busca a purificação. A segunda talvez esteja em busca do diferente, da vida comportada, convencional, oposta à da cidade: viaja à pequena Bodega Bay de casas acolhedoras, crianças agradáveis.

Ambas são submetidas a forças desconhecidas, abruptas, que mais parecem reações a seus atos e suas existências; as duas belas mulheres enfrentam, cada uma à sua forma, a fúria das mães que não aceitam ver seus filhos raptados por garotas modernas, independentes, que fazem sexo por prazer e podem correr atrás de pretendentes, em outra cidade.

A mãe de Norman habita sua cabeça. A certa altura, enquanto conversa com a visitante estrategicamente colocada no quarto número um do motel, o rapaz de aparência frágil, pouco vívido, confessa que a mãe é a melhor amiga para um filho. Se a mulher recém-chegada ousa captar sua atenção, seu desejo, fazê-lo voyeur pelo buraco da parede enquanto se troca e prepara o banho, a mãe voltar-se-á contra a mesma.

A mãe – personalidade que habita o rapaz, domina-o, que o faz obediente e ingênuo como uma criança – não aceita o desejo do filho, ou o poder da outra ao conferir tal estímulo. Marion nada faz. Sua morte soa como punição aos olhos de Hitchcock, cuja câmera volta-se ao jornal no qual está escondido o dinheiro que a mulher roubou.

Na sala em que recebe Marion para sua última refeição, Norman expõe seu passatempo na parede: pássaros empalhados. Parece ser a ligação com Os Pássaros. Se para Norman (ou para sua mãe) o pássaro é a beleza morta, aprisionada à própria forma, para Melanie é a natureza sem explicação, caótica, que não aceita o aprisionamento e, em certa medida, termina por inverter o jogo de forças: as pessoas é que passam a habitar a gaiola.

Melanie bagunça o paraíso dos filhos ainda presos às mães, no qual a mulher emancipada talvez seja a bruxa (a diferente) que trouxe uma maldição, a dos animais contra um ambiente que conserva tradições, formas, ao mesmo tempo em que é punida por essa mesma força de aparência mística, castigo que perpassa sua ousadia.

Sua dor – quando é atacada por pássaros no quarto em que está presa – é antecipada por um ou outro ataque. O mesmo ocorre a Marion: sob chuva forte, na estrada, o para-brisa antecipa visualmente os golpes de faca contra seu corpo e a água, golpes lançados contra a mulher na cena mais famosa do filme – e talvez do cinema.

A purificação do banho é falsa. A sombra da mãe, vista através da cortina de plástico, é o avanço do vulto contra o branco – o mesmo que ocupa os azulejos, atrás da vítima. A sequência migra de cortes separados por tempos convencionais à velocidade intensa, a planos de baixo e do alto, à desorientação que chega ao fora de foco.

O próprio Norman sugere o duelo entre luzes e sombras em diálogo com a vítima: “Continuamos a acender as luzes e seguir os procedimentos”, diz ele, como se estivesse no controle. Considerações seguintes são ainda mais sugestivas: “Estamos todos em nossas próprias armadilhas, presos nelas, e nenhum de nós consegue se libertar. Nós arranhamos e surramos, mas apenas o ar, apenas uns aos outros. E assim nunca saímos do lugar”.

O ataque dos pássaros a Melanie, no quarto, equipara-se à cena do chuveiro: cortes rápidos, desorientação, closes que se chocam com planos de detalhes. Os golpes das aves, a velocidade como cortam a tela, assemelham-se aos avanços da faca. As belas mulheres, conscientes ou não de seus poderes, pagam caro ao invadir terrenos proibidos.

(Psycho, Alfred Hitchcock, 1960)
(The Birds, Alfred Hitchcock, 1963)

Notas:
Psicose: ★★★★★⤴
Os Pássaros: ★★★★★

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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