Hitchcock, senhor dos nossos sonhos, por Paulo Francis

James Agee, um dos raros críticos americanos que se pode ler com proveito, escreveu que o grande diretor de cinema se mede principalmente pelo tempo de duração das imagens que põe na tela. Falava de John Huston, no melhor período de Huston, de O Falcão Maltês e Tesouro de Sierra Madre, mas isso se aplica a toda a obra de Alfred Hitchcock, inclusive a filmes chatos como Topázio, ou Cortina Rasgada (The Torn Curtain. Como não sei todos os títulos em português vou traduzir literalmente). Hitchcock tinha a medida exata. 

Meus filmes favoritos dele, muito tempo depois que perderam a surpresa, me dão o prazer estético de uma organização e alta visibilidade estéticas. Toda a sequência que vai do encontro sexual de Janet Leigh à morte dela em Psicose, ou as andanças de Tippi Hedren em Os Pássaros, ou, neste clássico subestimado Marnie, quando Tippi está roubando o cofre de Sean Connery, são modelos de medida, e vistos à primeira vez, no último caso, no Rio, provocaram na plateia um grito coletivo de horror. O que é outra das características de Hitchcock. Ele faz com que nos identifiquemos com a ladra em Marnie. Há uma constante ambiguidade moral na obra dele, até no último, Trama Macabra, em que francamente torci que Devane e Karen Black apanhassem o dinheiro do bispo…

Essa ambiguidade é intensa e, às vezes, quase inconfessável. Afinal, o nazista em Correspondente Estrangeiro, Herbert Marshall, é uma personagem simpática. E simpatizamos até certo ponto com o outro nazista, Claude Rains, em Interlúdio, que contém aquele amanhecer tragicômico em que Rains diz a frase imortal sobre Ingrid Bergman à mãe dele: “Mãe, casei com uma agente americana…”.

A visão do mundo de Hitchcock é, até certo ponto, católica e jesuítica. O mundo é um lugar perigoso e mau. Não há inocência que escape, seja a de Cary Grant em Intriga Internacional, ou a de Robert Cummings em O Sabotador. É o acaso e sorte que salvam esses heróis e não a graça divina, pois Hitch era um católico relapso. A meu ver, a não inclusão da graça divina é que lhe valeu a hostilidade de outro grande artista católico, Graham Greene, que, escrevendo sobre cinema, fala no “episódico”, no “senso de realidade distorcida” e nas implausibilidades de Hitchcock. Greene também acredita num mundo perverso, inapelavelmente, mas as pessoas morrem em graça. Em Hitchcock há um invariável “happy ending”, que é irônico, pois as personagens saem das crises tão inocentes quanto entraram, ou seja, estão sujeitas aos mesmos perigos de que escaparam…

Muita gente compara a arquitetura de Hitchcock à de nossos sonhos. Não concordo muito. Acho que ele nos dá o mal-estar que sentimos em sonhos desagradáveis, mas lida com experiências bem concretas e “reais”. Afinal, sua obra-prima, Um Corpo Que Cai, é sobre necrofilia. O fato de que Ingrid Bergman em Interlúdio está servindo a uma boa causa e que se apaixona pelo anjo da democracia, Gary Grant, não quer dizer que o comportamento dela com Rains, casando-se com ele para desmascará-lo, não seja imortal. Idem, a cabeça doente de Norman (Tony Perkins) em Psicose. É um ensaio frio e quase sádico sobre nossa impotência em face dos perigos da nossa cabeça (ou da de nossos semelhantes). Não há catarse moral alguma nessas histórias. Na cena final de Os Passaros, Tippi, Tandy, Rod e Cartwright escapam andando entre os pássaros, a natureza conquistadora, sem qualquer explicação.

A vida é um acidente perigoso, nos diz Hitchcock. É compreensível a fúria de Graham Greene, que partilha o senso de perigo de Hitch, mas confia em Deus, ao menos depois de morto (Scobie, o suicida de The Heart of the Matter, O X do Problema, traduzido comicamente no Brasil para O Coração da Matéria, tem, de Greene, o benefício da dúvida, apesar de suicida, em pecado mortal).

O modernismo de Hitchcock está precisamente nessa sua percepção e expressão estética do acidental, do que escapa a nosso controle, da ambiguidade moral permanente. Que ele tenha usado um gênero modesto como o thriller iludiu muita gente durante muito tempo. Mas se em boa parte Hitch passou a ser levado a sério depois do livro-entrevista com Truſſaut (1966), com nenhuma pretensão de superar esse trabalho admirável de Truffaut (se bem que a falta de humor francês não deixa Truffaut perceber que várias vezes Hitchcock está se divertindo às custas dele), devo dizer que talvez por eu ter sido educado por jesuítas também desde cedo percebi a ambiguidade moral de Hitchcock e seu senso de um universo sem saída, repleto de perigos, resistente à lógica (o que Graham Greene chama erradamente de “implausibilidade”).

E Hitch nos divertia deliciosamente. A Dama Oculta, com Margaret Lockwood e Michael Redgrave, já vi umas 20 vezes, tenho-o em tape e revejo constantemente. Quase deu divórcio minha obsessão por Os Pássaros. Principalmente quando estou deprimido, meus nervos estourando, a ordem matemática de Hitchcock, a sua riqueza infinita de invenção, suas brincadeiras perversas de católico pré-João 23, de machucar louras que nos tentam sexualmente (…), tudo isso me alivia a alma e acredito de milhões de pessoas. Certo, o mundo que Hitchcock inventa sugere um sonho porque é extremamente rarefeito, mas ele é o senhor dos nossos sonhos, cria um mundo e o dirige, não precisamente o nosso mundo, mas ele nos introduz a outro pela linguagem personalíssima e insubstituível que criou. É claro que quando me vi numa solitária do Codi pensei logo em Henry Fonda em O Homem Errado, um dos mais sombrios filmes de todos os tempos. E sempre que ansiosamente vou a um aeroporto ou estação de trem, o que faço com horas de antecedência, me sinto personagem de Hitchcock.

Me perdoem os cinéfilos profissionais e amadores que prefiro ser entediado pelo pior Hitchcock, o de Topázio e Cortina Rasgada (onde Paul Newman e aquela senhora matam brilhante e opressivamente um cavalheiro num forno, na Alemanha, só que eles são democratas e a vítima comunista. Forno, Alemanha, é diabólico…) do que pela maioria dos “grandes artistas” que os críticos (precisando manter o respeito a si próprios. Manjo. Já exerci essa infernal profissão) descobrem no cinema. Quem é no momento? Robert Benton, Woody Allen. Quem? São certinhos, mas quero ver daqui a alguns anos. Psicose é de 1959*. Várias amigas minhas até hoje não usam cortina de chuveiro… Hitch explica. E que ano, Santa Maria. Barthes, Sartre e agora Hitch. Havia tanta gente que gostaríamos de mandar no lugar deles como Detefon, gente que precisa de Detefon… Você odeia ovo como eu, amigo(a) leitor(a)? Hitch também. E deixo com vocês a cena de Ladrão de Casaca em que Jessie Royce Landis enfia um cigarro numa gema de ovo, de um ovo já frio. O senhor dos nossos sonhos sabia dos nossos mais íntimos desejos.

Folha de S. Paulo (“Hitchcock, senhor dos nossos sonhos”; 1º de maio de 1980; Hitchcock morreu em 29 de abril daquele ano).

*Psicose é de 1960.

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