Além das Palavras, de Terence Davies

A Emily Dickinson de Além das Palavras não é diferente de outras personagens de Terence Davies. Cada vez mais presa aos seus espaços fechados, às salas de pouca luz, ela isola-se em sua própria arte, a poesia. O que ela faz, como todo artista faz, é justificar a própria existência – ou minimizar o vazio da cova que lhe aguarda.

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O fim, por sinal, oferece essa imagem vazia e sugestiva: vemos a cova do alto enquanto levam seu caixão, à medida que a câmera aproxima-se da terra e da profundidade. Dickinson, poetisa americana, morreu em 1886. Não se trata de uma revelação importante sobre o desfecho; o filme todo é a preparação para o contraponto entre o vazio da cova e a profundidade das palavras. Daí sua grandeza.

Questões existenciais – como na obra-prima Vozes Distantes ou, mais tarde, em Amor Profundo, ambos de Davies – irrompem a todo o momento. A religião – na presença da mulher que, na abertura, critica a jovem escritora, na do pai ou, mais tarde, na de um pastor por quem ela vê-se subitamente atraída – será constante, perseguidora.

Ao que indica a opinião – e os versos – da poetisa, a protagonista escolheu resistir à subserviência gratuita à qual muitos de seu tempo – poetas entre eles – estavam ligados. Fala-se da inclinação à religiosidade cega, de dar a Deus – “se ele existe”, como coloca Dickinson, a certa altura, expondo sua dúvida – a própria alma.

A paixão à qual se refere o título original não está ligada ao Divino. A este se liga a dúvida, ainda que Dickinson não se revele totalmente despregada. É na igreja, por sinal, que encontra encanto por um homem, o pastor, ou o encanto por seu sermão, suas palavras, não exatamente por sua capacidade de ligá-la a Deus.

Desde o início – na sequência em que ela não se enquadra a nenhum dos grupos de meninas, em escola religiosa na qual é confinada -, a protagonista coloca em dúvida a entrega total. É próprio dos artistas reclusos, dos que amam demais. Nos filmes de Davies é difícil entender a origem ou a quem esse mesmo sentimento é endereçado – como se viu tão bem em Amor Profundo, com ecos de Desencanto.

O filme não chega a ser uma cinebiografia comum, o que lhe soma pontos: é, antes, sobre as dúvidas de uma mulher em relação aos comportamentos de sua época, à posição feminina, à fé irracional, à possibilidade de haver algo além da vida. E não vale dizer que qualquer outra mulher serviria a essa vida reclusa e repleta de questionamentos: nesse meio, mostra Davies, a poesia tem papel central.

A vida de Dickinson é dividida em três partes: a juventude no colégio interno e depois em casa, com a exposição de seu senso crítico; a maturidade, sob um verniz cômico, enquanto a poetisa ainda encontra alegria para aparecer em festas e fazer amizades; e, por fim, a reclusão, após a morte do pai e o casamento de uma amiga – justamente aquela que parecia ter pensamentos livres e oferecia outro olhar à protagonista.

Como outros artistas, Dickinson escolheu viver sozinha. Não tem companheiro algum ao longo do filme – e talvez não tenha tido nenhum ao longo da vida. Cynthia Nixon é grande nesse papel: seu rosto arredondado parece estar sempre contraído e a boca não se expande em excesso; o drama, representado nessas expressões contidas, resume-nos a ideia do filme: a dor abafada, silenciosa, o caminho à cova que se constrói pouco a pouco, ao passo que o verniz cômico é mero alívio momentâneo. Da escuridão à qual Dickinson é lançada escapamos apenas com sua poesia.

(A Quiet Passion, Terence Davies, 2016)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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