Os Demônios, de Ken Russell

A freira vê o padre entre a multidão que segue o cortejo; a alguma distância, ela deseja-o. Está atrás das grades que a separam do espaço externo e em algum momento delira. Faz do padre o Cristo crucificado, enxerga-o flutuando nu até ela. Lambe seu corte no abdômen como se essa cisão fosse agora um canal para o prazer.

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À freira sobram as palavras do padre que deseja. Em Os Demônios, elas ajudam a explicar a situação da mulher e o destino do protagonista: “As mulheres enclausuradas dão-se por inteiro a Deus, mas algo permanece que implora para ser dado aos homens. (…) Qualquer achado no deserto de uma vida frustrada nos dá esperanças, e com a esperança nasce o amor. E com o amor vem o ódio. Assim, eu possuo essa mulher.”

A estranha possessão nasce do desejo incontrolável. Ele tem a freira sem nunca tê-la tocado. Não apenas a madre Joana (Vanessa Redgrave), mas outras que sobem pelas paredes devido à ausência masculina, que teatralizam o encontro com o corpulento Urbain Grandier (Oliver Reed) na tentativa de darem vida ao que lhes falta.

Grandier pagará por sua noção de liberdade. Em boa parte da história aprendemos a não gostar dele. Não por aceitar o sexo e quebrar a regra do celibato da Igreja Católica, mas por fazer das mulheres – que batem à porta para confissões ou encontros, que, como as freiras, imaginam demais e queimam por dentro em terra de cegos – objetos de uso.

O barulhento Ken Russell não alivia nunca nesse filme baseado na peça de John Whiting e no livro de Aldous Huxley. O conluio entre Igreja e Estado aniquila o homem. É como o diretor define sua obra. Grandier, à sua maneira torta, deixa que toquemos sua alma e entrega o corpo – antes dado a tantas mulheres – às chamas da inquisição. É acusado de ter desviado as freiras, além de outras mulheres.

A peste corre solta. Cadáveres são transportados pelas carroças, jogados ao fogo ou dado às valas. “Tragam seus mortos!”, gritam os coveiros. Os Demônios vai das muralhas erguidas pelo futuro cineasta Derek Jarman aos vermes que brotam de um esqueleto, da casa em espiral de Grandier – a forma desse homem desequilibrado – ao convento de azulejos brancos, quartos de tetos baixos, espaços em que mulheres andam em círculo.

O efeito é doentio. A câmera livre não suporta o peso da arquitetura aparentemente perfeita de Loudun. E quando os soldados do rei Louis 13 da França chegam para detonar suas muralhas, Grandier é quem se opõe à possibilidade da cidade – seu reino intocado, seu espaço de liberdade e convívio entre diferentes, a resistir à peste – abrir-se ao mundo externo e se prestar às vontades da Igreja, desesperada para violá-la.

A muralha é o último refúgio a um universo de figuras podres, e a direção de arte cumpre sua função ao contrapor o belo à constante escrotidão. A igreja, na figura do cardeal Richelieu (Christopher Logue), aplaude o teatro de travestis composto pelo Estado, no qual o próprio rei (Graham Armitage) é a Vênus nascida. E depois serve Grandier no espetáculo da fogueira ao povo e aos ricos em seus camarotes, em orgias intermináveis.

A conduta de Grandier é atacada com o propósito de aniquilá-lo. O desejo das freiras é o pretexto. Ao mesmo tempo, o padre encontra em uma mulher desolada após a morte da irmã uma companheira para a vida. O homem muda. Ela, a bela Gemma Jones de olhos claros e aspecto virginal, pretendia ingressar no convento, dotada de boas intenções. Frente à peste, prefere a clausura e chega a conversar com a madre Joana.

O que Joana explica à candidata à vida entre paredes brancas é revelador: “Muitas das freiras daqui são mulheres nobres que abraçaram esta vida monástica porque não tinham dinheiro suficiente para pagar um dote ou porque eram muito feias para se casar”. A moça prefere o padre. Casam-se em ritual celebrado pelo próprio Grandier.

Enquanto ganha corpo o processo que busca provas contra o protagonista, a Igreja deixa que as mulheres libertem-se, dancem nuas, exibam-se – para que pelo menos uma delas dê o nome do acusado. Seria ele, o desejado Grandier, tomado pelo demônio, o responsável pela farra em que as freiras beijam-se entre si, fazem da vela o falo e se masturbam. Dá-se assim o confronto – para Russell, atemporal – entre liberdade e repressão.

Para fins políticos, a Igreja cria demônios; lança-os no outro, no perseguido, e na histeria de suas mulheres aprisionadas cabe toda a dor de quem não consegue lidar com a única liberdade que lhe resta, a do corpo. Nem após a morte de Grandier elas conseguirão deixá-lo, e talvez por causa dela Joana enfim poderá tocá-lo: parte de seu fêmur, a ela dada, tem a forma de um pênis. O que vem depois é reservado à nossa imaginação.

(The Devils, Ken Russell, 1971)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Dez filmes fortes e polêmicos com freiras e noviças

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