Duna, de Denis Villeneuve

Ser filho de um líder importante deu a Paul Atreides (Timothée Chalamet) não mais que um lugar reservado àqueles que assistem à ascensão e queda de um império, bajulados por causa do sangue que carregam nas veias. Sua estrutura e formação interior – a começar pelo aspecto delicado e pelo mistério que mantém – deve-se à mãe.

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Ela, espécie de bruxa, é quem o molda. Vemos nas expressões do menino esse reflexo nem sempre desejado: a certa altura de Duna, ele reclama dos “transtornos” que herdou dela, o poder de invadir mentes alheias e até controlá-las. E se ela (Rebecca Ferguson) não pode deixar de sentir suas dores, como na passagem em que o garoto é testado pela bruxa superiora, tampouco ele desvencilhar-se-á de suas origens.

Ainda que com pressa, Denis Villeneuve consegue nos convencer de que essas duas personagens – somente elas ao longo de duas horas e meia – são dignas das rédeas do produto candidato a monumento que é esta adaptação do livro de Frank Herbert, arsenal interminável de vidas e muralhas, planetas e seres estranhos, espiritualidade e conspirações políticas.

Não se nega: Villeneuve, com suas duas personagens, mãe e filho, conseguiu adaptar o que, nas mãos de outros, não teve sucesso ou sequer saiu do papel. Eis sua tática: concentrar-se nas duas personagens, na ligação materna e, por consequência, no estranho estado daquele que poderia ser o menos suspeito ao papel de herói. O Atreides de Chalamet é justamente o que esperamos dos universos distorcidos que o cineasta põe em movimento.

O material impõe um pouco de ação e uma penca de reviravoltas, novas personagens, traições e espaços a explorar. É preciso lhe dar movimento, retirar a gordura dos casulos em que se discute a política dos tronos, explicar muito com economia, e traduzir Herbert na aparência de uma totalidade, na verdade, enganadora. Nesse sentido, temos aqui o Villeneuve de Incêndios e A Chegada, não o de Polytechnique ou Sicário.

Um diretor no tabuleiro da grande produção de estúdio, para grandes plateias, à busca do espírito que recheia os sonhos de seu herói um tanto andrógeno que estranha a mãe ao mesmo tempo em que – nos momentos mais interessantes – troca olhares com ela quando precisam se despir no deserto ou quando diz saber de sua gravidez.

O pai (Oscar Isaac) é o progenitor de farda, a quem cabe a retidão, de quem nunca duvidamos. Os amigos, como o Duncan de Jason Momoa, fazem o papel do herói ao qual Atreides ainda está sendo moldado (servem para aproximar o público dos filmes de super-herói). Some a isso os coadjuvantes de luxo em trajes e maquiagens extravagantes, como Charlotte Rampling e Stellan Skarsgård. E não se pode esquecer da musa inspiradora, Zendaya, em sonhos que se aproximam de um indigesto videoclipe.

O filme de Villeneuve prefere sempre o caminho mais fácil, nunca quer nos surpreender ou nos fazer pensar. Quando se aproxima disso, no já citado momento em que mãe e filho estão prestes a trocarem de roupa, logo muda a rota e retorna ao ponto de conforto que o guiou até ali. Nem os momentos verdadeiramente assustadores, como o banho do vilão (referência explícita à passagem em que Marlon Brando molha a careca em Apocalypse Now), evitam o efeito passageiro, galopante, às vezes deslocado.

Ficções científicas permitem caminhos os mais diversos. Com Blade Runner 2049, o diretor mostrou seu apreço pelo labirinto e um pouco pelo pavor ao mergulhar de cabeça no interior de uma personagem (um robô com alma). Em Duna, ainda que o herói e sua mãe estejam distantes do vazio, o deserto em movimento não nos encaminha para tão longe.

(Dune: Part One, Denis Villeneuve, 2021)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
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2 comentários sobre “Duna, de Denis Villeneuve

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