A Tragédia de Macbeth, de Joel Coen

O visual é expressionista. Vemos o fundo, o horizonte enganoso, e o branco das luzes de fora estouram com frequência nos rostos dos atores – que, ora ou outra, por afinamento com a tragédia, a começar por Denzel Washington, preferem as sombras. E mesmo que esse cenário seja tão evidente e haja aqui algo tão falso, o filme não se rende à teatralização.

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O diretor Joel Coen – dessa vez sem o irmão Ethan – sabe, a exemplo de outros mestres que adaptaram William Shakespeare para o cinema, que o autor é inesgotável. E fez a escolha certa ao manter A Tragédia de Macbeth nos domínios da antiga Escócia entre brumas e florestas, entre cavaleiros e bruxas – cenário que é seu por natureza.

O aspecto expressionista serve bem a esse universo próximo do pesadelo. Em momentos nos faz sentir em O Sétimo Selo, ou mesmo no Macbeth de Orson Welles, de 1948, quando o realizador de Cidadão Kane já havia sido colocado no escanteio e teve de adaptar Shakespeare em cenários artificiais, pouquíssimo recurso e 23 dias de filmagens.

Coen contou com bons recursos e grandes atores. Ainda assim, preferiu o risco do confinamento e dos cenários artificiais para o visual que desejava atingir. Há momentos sublimes e que nos confundem, nos quais os interiores do castelo parecem se abrir para fora, tocar a floresta, como no momento em que Macbeth trava uma luta de espadas.

E há os versos do bardo. Quem conhece o mínimo da peça de Shakespeare sabe de sua potência e dispensa o acréscimo “tragédia” dado ao título, na esperança de soar mais vendável. Em Macbeth, o destino da personagem-título está dado desde o início, quando, ao retornar de uma guerra vitoriosa, o guerreiro encontra três bruxas.

Na versão de Coen, primeiro há três abutres e depois uma bruxa. Interpretada de forma magnífica e assustadora por Kathryn Hunter de corpo retorcido, face pequena e lábios saltados, essa figura sinistra está pronta, em nossa presença, antes mesmo da chegada de Macbeth. Logo se multiplica, torna-se três, todas idênticas, que profetizam para o guerreiro o que ele não imaginava: será o próximo rei de seu país.

E será assim ao longo de toda a história: uma a uma, as previsões das bruxas confirmam-se. Entre elas, algo inimaginável e desafiador para os cineastas que ousaram adaptar essa obra de Shakespeare, entre eles Akira Kurosawa e o citado Welles: o momento em que uma floresta desloca-se para o castelo de Macbeth, o que amplia sua ideia da alucinação.

Macbeth fala-nos da embriaguez do poder. Segue atual. Sua tragédia, bem compreendida por Coen, não torna suas personagens principais meros joguetes do destino, destituídas de emoção. Ao contrário, vemos em Washington um homem triste e cheio de rancor, a quem os novos postos de poder não se resumem a alguém que quer atender aos caprichos e articulações maldosas de sua mulher, sempre considerada a grande vilã.

Lady Macbeth, interpretada por ninguém menos que Frances McDormand, espera o marido retornar da guerra para se vingar não de um ou outro homem, mas de todos. Ela convence o marido a matar o rei após embriagar seus guardas. Em seguida vêm a tomada do poder e a instalação da loucura, reinado no qual um homem e uma mulher, rei e rainha, sabem que não viverão o suficiente e tampouco deixarão descendentes para o trono.

Diferente de Welles, que explode entre os versos do bardo, Washington toma o texto em uma leitura íntima, às vezes falando para dentro. Um homem de carne e osso que assiste à entrada das folhas e dos corvos em seu castelo e, ao contrário da mulher, que se rende ao abismo (aqui uma escadaria), aceita continuar duelando contra os homens da floresta.

Em um dos trechos mais famosos, quando vê a mulher morta, Macbeth diz que “todos os ontens iluminaram para nós, tolos, o caminho para o pó da morte”. No alto de seu trono, intoxicado pelo poder, ele assiste à fragilidade que o cerca, à humanidade que perdeu – o que, por instantes, versos assim estranhamente restituem. Coen mantém de Shakespeare o que há de melhor e o banha em visual arrebatador.

(The Tragedy of Macbeth, Joel Coen, 2021)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Onde os Fracos Não Têm Vez, de Ethan e Joel Coen

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