Quando não é possível prever o ganhador do Oscar

Ano após ano, os críticos de cinema, as pesquisas de opinião pública e o público tentaram prever os ganhadores. Em alguns anos, todos os favoritos prévios à apresentação corresponderam às expectativas. Em outros, no entanto, houve surpresas importantes. Em 1956, a segunda vitória de Anthony Quinn (Sede de Viver) derrotou o favorito para o Oscar Robert Stack (Palavras ao Vento). Em 1963, Sidney Poitier (Uma Voz nas Sombras) ganhou para surpresa de todos; Paul Newman (O Indomado) e Albert Finney (As Aventuras de Tom Jones) eram considerados os mais prováveis ganhadores. Em 1965, Rod Steiger (O Homem do Prego) era o favorito da crítica, e Richard Burton (O Espião que Veio do Frio), o segundo favorito, mas o ganhador foi Lee Marvin (Dívida de Sangue). Em 1968, Peter O Toole (O Leão no Inverno) era considerado o ganhador certo; quem ganhou, no entanto, foi Cliff Robertson (Os Dois Mundos de Charly). Em 1974, a maior parte das previsões escolheu Fred Astaire (Inferno na Torre), um favorito sentimental, mas o ganhador foi Robert De Niro (O Poderoso Chefão – Parte II). No mesmo ano, a maioria das pesquisas previa a vitória de Jack Nicholson (Chinatown), mas Art Cagney (Harry, o Amigo de Tonto) foi o ganhador surpresa. Em 1976, Liv Ullmann (Face a Face) era a ganhadora esperada; no entanto, quem ganhou foi Faye Dunaway (Rede de Intrigas). “Não esperava absolutamente que isso acontecesse”, disse Dunaway. E em 1985, a vitória de William Hurt (O Beijo da Mulher Aranha) surpreendeu; esperava-se que o ganhador fosse Jack Nicholson (A Honra do Poderoso Prizzi).

Os próprios artistas têm se surpreendido com suas indicações e ainda mais por suas vitórias. Simone Signoret “não imaginava”, quando aceitou o convite para atuar em Almas em Leilão, “que esta minha aquiescência fosse me conduzir a dizer ‘obrigada’, em abril de 1960, diante de milhões de telespectadores, diante de trezentas pessoas sentadas em poltronas de veludo vermelho em um cinema de Hollywood”. Os elogios dos críticos de cinema a surpreenderam: “Fizemos este filme esperando que alguns poucos amigos o apreciassem”. Seu sucesso na América foi uma grande surpresa para ela.

A insegurança prévia à cerimônia se juntava a uma grande dose de excitação. “Quando o apresentador finalmente abre o envelope e o ganhador é você”, recorda Mercedes McCambridge, “se estabelece a vertigem do delírio e você faz anestesiada o longo percurso até o palco. O efeito vai diminuindo lentamente, demorando semanas para desaparecer”. Charlton Heston recordou em seu diário, em 4 de abril de 1960: “Consegui. Olhando para a orquestra, logo antes de Susan (Hayward) ler meu nome, alguma coisa estalou em minha cabeça. ‘Eu vou conseguir!’. E consegui. Dei um beijo em Lydia e me encaminhei para o palco, transpirando e com a boca seca: clássico medo do palco. Jamais me esquecerei daquele momento ou daquela noite”.

Rita Moreno (Amor, Sublime Amor) estava certa de que Judy Garland (O Julgamento de Nuremberg) ganharia. Por isso ficou extremamente emocionada e praticamente em órbita quando ganhou, gritando: “Meu Deus, não posso acreditar nisso!” “Nunca pensei que ganharia”, disse ela após a entrega dos prêmios, “mas, ao mesmo tempo, esperava poder ganhar. É um sentimento estranho que nos envolve durante dias. Estou contente por estar tudo terminado.” Gregory Peck estava tentando “não desenvolver excitação ou nervosismo inadequado” quando obteve sua quinta indicação por O Sol é para Todos. “Ele havia perdido cinco vezes e realmente esperava perder de novo.”

Sidney Poitier nunca esperava ser indicado por Acorrentados ou ganhar por Uma Voz nas Sombras. “Minha ansiedade cresceu a um ponto insuportável”, ele disse na noite do Oscar de 1964. “Estava lá sentado, sendo rompido por dentro […] absolutamente fora de mim de tanto nervosismo.” Poitier compreendia que “este é um momento importante e tenho que estar aqui e de fato quero estar aqui, pelo que isto significa para mim como pessoa”, mas também decidiu que “nunca mais, sob nenhuma circunstância, virei aqui outra vez e me colocarei nessa situação. Embora a vitória não parecesse nem um pouco provável […] de modo algum deixaria de escrever meu discurso de agradecimento”.

Quando John Mills estava assistindo à primeira cópia de sua cena com os soldados ingleses em A Filha de Ryan, o diretor David Lean lhe perguntou: “Johnny, você já ganhou um Oscar?”, ao que ele respondeu: “Não, nunca ganhei. Por quê?” “Por nada”, disse Lean, “só queria saber.” Um ano mais tarde, Mills recebeu um telegrama da Academia, cumprimentando-o por sua indicação como coadjuvante. Desde a indicação, “eu fiz o que pude, porque queria demais essa ‘coisa amaldiçoada’, para me convencer de que realmente não me importava, e que tinha muito pouca chance”. Ele sabia que seu papel, o idiota do vilarejo, era pequeno e “sem uma linha sequer de diálogo”. Um dia, a filha de Mills, Juliet, telefonou de Hollywood para lhe dizer que ele havia sido premiado com o Globo de Ouro. A partir daí sua ansiedade aumentou muito, porque ele sabia que “o vencedor do Globo de Ouro se tornava um candidato preferencial ao Oscar”. No dia do Oscar, “o telefone tocou continuamente, e repórteres, jornalistas de mexericos […] Vários deles me diziam que os boatos que circulavam pela cidade falavam de mim como o favorito. Quanto mais contente ficava por ouvir isso, mais convencido ficava de que realmente não tinha chances”. Na noite do Oscar, Mills tentou “parecer frio e totalmente relaxado”, mas não conseguiu. Ele queria desesperadamente o Oscar, “sabendo que na minha idade (63 anos), provavelmente era a minha última probabilidade de ganhar”. Depois “do que pareceu uma eternidade, chegou o momento”. Maggie Smith, a apresentadora, abriu o envelope e sorriu amplamente: “Eu sabia antes de ela anunciar o meu nome. Eu tinha conseguido”.

Emanuel Levy, professor de sociologia e cinema, em And The Winner Is… Os Bastidores do Oscar (Editora Trajetória Cultural; pgs. 263-265). Acima, John Mills com seu Oscar; abaixo, Simone Signoret ao lado de Rock Hudson.

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