Gosto de Sangue, de Ethan e Joel Coen

As quatro personagens centrais nem sempre se encontram. Algumas não se encontram nunca. Essa distância em Gosto de Sangue, reprisada mais tarde em Onde os Fracos Não Têm Vez, expõe frieza e, à sua forma, um aspecto fantasmagórico: os seres em cena sentem que estão sendo seguidos, sentem o perigo e nunca o enxergam por completo.

No cenário de crimes e reviravoltas proposto pelos irmãos Ethan e Joel Coen, há sempre uma reserva à comédia, nunca involuntária. Há o pavor de não saber nada, de se perder, do ser humano resumido à mercadoria, típico do neo-noir e do cinema moderno; e há ecos do faroeste na paisagem árida do Texas que abre o filme com uma narração.

Remete-nos, de novo, a Onde os Fracos Não Têm Vez: uma voz forte, a do detetive e matador de aluguel vivido por M. Emmet Walsh, fala de um universo de desacertos, no qual todos estão por sua própria conta. “Não interessa se você é o papa de Roma, o presidente dos Estados Unidos ou mesmo o homem do ano. Alguma coisa sempre pode dar errado”, ele declara, para depois lembrar que no Texas – “aqui embaixo” – estamos sozinhos.

Gosto de Sangue tem ao centro um casal de amantes, Aby (Frances McDormand) e Ray (John Getz). Ao lado, não tão distante desse centro, estão o marido dela (Dan Hedaya) e o detetive contratado primeiro para seguir o casal, depois para matá-lo. O mapa traçado pelos irmãos Coen, autores do roteiro, aposta na espera, nos instantes que antecedem o pior.

A tensão é produzida porque sabemos demais, não porque esperamos por uma grande revelação: as personagens não podem ver tudo enquanto nós enxergamos cada linha da história, cada acerto e cada novo lance; é sobre nos prender a esse reino de crueldade e entregar a visão de cada personagem, pouco a pouco, sem pressa.

Como o asqueroso Loren Visser, Walsh é o atravessador. Sua relação com a história é semelhante à de um parasita com o hospedeiro. Ainda assim, o mapa em questão depende tanto dele que termina por ser, veja só, a reprodução fiel de sua essência, alguém chegado a serviços sujos, mortes em troca de dinheiro e, sobretudo, desumano.

O que explica o fato de ser dele a voz da abertura e, como se daria mais tarde com o Anton Chigurh de Onde os Fracos Não Têm Vez, ser ele a personagem que pretende estar no alto da cadeia alimentar, sobrevoar os outros, matá-los, resolver os problemas à sua maneira – e, na investida à qual não estamos preparados, roubar o protagonismo da história.

Visser não cumpre o acordo que mantém com o marido traído. Seu plano permite-lhe lucrar, passar a perna em todos e sair quase imperceptível, como um fantasma. Ao invés de matar o casal, mata o homem que o contratou. Faz parecer que o crime foi praticado pela ex-mulher. Só não podia cometer um erro: esquecer um objeto na cena do crime.

O vilão não deixa ao casal apenas a culpa. Instala-se uma confusão. Ray encontra Julian (Hedaya) baleado, acredita que ele está morto e, no que pensa ser uma forma de não incriminar Aby, dá início a uma jornada para sumir com o corpo. Acompanhamos então a sequência mais forte desse longa-metragem de estreia dos irmãos cineastas: Ray carrega Julian à beira da estrada, descobre que ele está vivo e o enterra assim mesmo.

Nos contornos propostos pelo texto, Ray deixa de enxergar Aby como ela é. A mulher, por sua vez, acredita que os tiros contra seu apartamento, nas passagens finais, foram dados pelo inescrupuloso Julian. Um fantasma cria outro, situação um pouco absurda, um pouco cômica, no filme descrito por Pauline Kael como “subproduto de Hollywood”.

Temos nos detalhes o que há de mais saboroso. No primeiro ato de uma carreira cheia de grandes filmes, os Coen sabem como trabalhar o tempo e extrair tensão; empanturram-nos com pequenos grandes efeitos conferidos pelo giro do ventilador, pelo isqueiro sobre a mesa, pela bota que leva o bolo de dinheiro lentamente às mãos do assassino e, sobretudo, pelo sangue que continua a brotar do banco traseiro do carro, o que pode não passar de um delírio nesse cenário texano de violência extrema.

(Blood Simple, Ethan Coen, Joel Coen, 1984)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

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Veja também:
A relação com os atores, segundo Ethan e Joel Coen

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