A relação com os atores, segundo Ethan e Joel Coen

Ethan: No final das contas, creio que o elemento que tem mais influência no resultado de um filme – pelo menos nos nossos – são os atores. Chegamos ao cinema pelo lado técnico, quase não havíamos trabalhado com atores antes de filmar Gosto de Sangue e, ainda hoje, é o domínio em que continuamos a aprender mais. A primeira coisa a saber, creio eu, é que cada ator é diferente e que ele tem sua própria maneira de trabalhar. E nosso papel, como diretores, é o de conseguir delimitar as necessidades dele para ajudá-lo a fazer seu trabalho. Pois não estamos lá para ensiná-lo a atuar. Estamos lá para colocá-lo à vontade, para criar-lhe um ambiente confortável para atuar. E, às vezes, ele precisa falar do papel durante horas. Ou falar durante horas de tudo exceto do papel. Ou então precisa simplesmente que o deixemos em paz.

Joel: O principal erro cometido pelo diretor iniciante – e que nós cometemos – é o de acreditar que sua visão de uma cena é a melhor e que o ator só está ali para expressá-la. Ora, os melhores atores são de fato aqueles que têm suas próprias ideias, mas que são capazes de adaptar essas ideias à nossa visão. É realmente por isso que escolhemos um ator: para melhorar nossas ideias, para enriquecê-las, e não apenas para reproduzi-las. E às vezes, um ator dirá que não pode realizar o que você espera e você tem de mudar sua visão. Mas um ator que faz exatamente o que você pede não é necessariamente a melhor coisa para um diretor. Pois faltará sem dúvida ao resultado um elemento de originalidade e de inovação, que com frequência faz toda a diferença.

Ethan: A surpresa é um elemento importante. E isso desde a escolha do elenco. Às vezes o ator que você escolhe em nada corresponde ao que você tinha em mente. Em Fargo, havíamos imaginado o marido como um tipo gordo e frouxo, uma espécie de balofo apalermado. Mas quando encontramos William H. Macy, ele nos impressionou tanto que decidimos reescrever o papel para ele. O mesmo ocorreu em Ajuste Final. Gabriel Byrne veio nos ver dizendo: “Imagino este personagem com um sotaque irlandês”. E eu me lembro de ter pensado comigo: “É isso mesmo…” Em seguida ele o fez e fomos imediatamente convencidos.

Joel: Ao mesmo tempo, há limites para a latitude que oferecemos aos atores. Por exemplo, jamais deixamos que improvisem. Acontece que se desviem um pouco de seu texto e até mesmo que eles próprios reescrevam certos diálogos se não conseguirem dizê-los, mas nunca há improvisação pura. O único momento em que os atores improvisam em nossas filmagens é durante os ensaios. Por vezes pedimos a eles que imaginem os minutos que precedem ou que sucedem a cena que eles vão interpretar, e isso geralmente os ajuda a entrar no clima. Jeff Bridges e John Goodman fizeram muito isso em O Grande Lebowski. Eles criaram cenas inteiras que eram realmente muito engraçadas. Às vezes até melhores do que as que nós mesmos havíamos escrito. Talvez seja por isso que não quisemos deixá-las no filme: por puro ciúme…

Ethan Coen e Joel Coen, cineastas, em depoimento para Laurent Tirard em Grandes Diretores do Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 111 e 112). Acima, os irmãos cineastas nos bastidores de Ajuste Final; abaixo, nos de Onde os Fracos Não Tem Vez e de O Homem que Não Estava Lá.

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