William Hurt (1950-2022)

(…) nas vésperas de começar a fazer o filme [O Beijo da Mulher Aranha], o Burt Lancaster infarta e tem que fazer duas pontes de safena, uma mamária. A filha dele, uma moça chamada Joana, que eu não conheço, me ligou e me disse: “Papai não pode fazer o filme, está se recuperando no Havaí”. Eu fiquei perplexo e pensei: vou fazer o filme de qualquer jeito, vou fazê-lo no Brasil, em português. Na minha cabeça, eu queria o Paulo José pra fazer o Molina, e o Chico Diaz pra fazer o papel do prisioneiro político. Eles nunca souberam disso, eu nunca convidei eles e nunca comentei isso com eles, mas na minha cabeça estava certo. Eu tinha visto o Chico Diaz no filme do Sergio Resende, em Brasília, que era um filme interessante, e Paulo José, obviamente, conhecia de toda a filmografia dele, desde Macunaíma, O Padre e a Moça, fez o Rei da Noite comigo, e no que eu estou falando com Raul Julia, do aeroporto de Los Angeles, numa cabine, numa ligação a cobrar à casa dele pra dizer que o projeto tinha morrido, ele me disse: “Você me permitiria dar o projeto a um colega meu que está fazendo um filme em Helsinki, na Finlândia?”. Ele me deu o nome, mas o nome não dizia nada para mim, e ele mandou o roteiro para o William Hurt e um ou dois domingos depois, no final do dia, nós tínhamos voltado da praia com a Raquel e as crianças, toca o telefone e é ele que me liga de Helsinki, dizendo que tinha lido o roteiro e querendo saber se eu o aceitava como ator pra fazer o filme. E eu falei que não, que eu estava muito cansado, que eram três anos que eu estava batalhando pra fazer o filme em inglês, com atores americanos, e que eu não ia perder mais um instante pra fazê-lo em inglês, porque eu não tinha dinheiro pra fazê-lo em inglês. E ele me disse: “Eu sei que você não tem dinheiro, eu queria que, pelo menos, você me deixasse fazer uma leitura”. Digo: “Uma leitura eu topo”. Aí marcamos uma leitura em Nova York, peguei um avião, fui, e me lembro que meu táxi parou numa diagonal da casa do Raul Julia, num endereço que eu não conhecia, e eu vejo um outro táxi parando em frente e vejo o William Hurt descendo, eu o vi andar de longe e digo: “Impossível!”. Era um jogador de futebol americano andando, um homem forte, alto, sei lá, um metro e oitenta e cinco, um metro e oitenta e sete, bem mais alto do que eu, uma figura que, pra mim, foi uma rejeição imediata, e pensei “já estou aqui e não posso dar cano”. E entrei na casa do Raul.

(..) Aí chegamos, nos apresentamos, tomamos um café e começamos a leitura, e eu na página três estava chorando, eu não podia acreditar na transformação daquele homem, aquele gigante se transformou num passarinho com uma voz apagada, gemida, por momentos, por outros momentos sem humor como que buscando algo, e aí foi, encontro com os advogados, contratos onde ninguém ia receber um centavo, todo mundo ficava sócio do filme, e aí trouxe ele para o Brasil, consegui uma permuta no Hotel Maksoud, em São Paulo e deram uma suíte pra ele [Hurt].

Hector Babenco, cineasta, em Mr. Babenco – Solilóquio a Dois Sem Um: Hector Babenco e Bárbara Paz (Editora Nós; pg. 57 e 58). Acima e abaixo, William Hurt em O Beijo da Mulher Aranha, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator.

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