Meu Pai, de Florian Zeller

Poucos são os momentos em que não estamos trancados no apartamento do protagonista, o velho homem que sofre de demência, Anthony (Anthony Hopkins). Nesses instantes, pede-se uma pausa à clausura, ao sufoco, o que não significa que encontraremos algum respiro; a possível normalidade, fora das paredes frias, é passageira.

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No primeiro desses momentos, a filha caminha pela rua até a morada do pai; em outro, a face do velho homem – cheia de marcas, dobras, pintas, com todo seu peso e inflexão – é vista pelo vidro do carro, em close, sem que possamos enxergar o que está ao redor; há também o momento em que a filha cruza a frente de uma grande escultura, grande máscara tombada. O homem doente é o ator de sua própria vida. Seu palco é escancarado.

O uso do espaço externo pode ser interpretado como os poucos momentos em que Anthony deixa de ter o controle do olhar, em que este passa para outra personagem – ou permite o descortinar da realidade que, enfim, é-nos apresentada.

Meu Pai, de Florian Zeller, é a história de um velho homem com demência através de seu olhar, o quebra-cabeça imposto por seu interior confuso. É também a história da intromissão justificada da filha, que sofre ao ver o pai da maneira como está e, a exemplo do protagonista, deixa seu olhar escapar, por um instante, para o lado de fora.

Se para ele sempre há algo a encontrar através da janela, no cotidiano aparentemente banal dos que circulam pela rua, para ela é dada, rápida, a imagem de um casal que conversa no apartamento ao lado. Se para ele as imagens de fora representam a confirmação do mesmo lugar (sabemos que não há certeza sobre isso), para ela indica a vontade de fugir.

Em um desses momentos, Anthony observa uma criança com um saco plástico. Ela chuta e golpeia o objeto enquanto este dança no ar, como se vida própria tivesse, tentando driblar seu “algoz”. A cena ganha contornos mágicos: é um instante definidor, o encontro do homem – perto da morte – com a beleza simples, fruto do acaso.

O labirinto de Anthony é marrom, cinza, com toques em azul no figurino da filha Anne (Olivia Colman) ou na sacolinha do mercado. As cores limitam-nos ao espaço do esquecimento, um pouco escuro, de luzes direcionadas e o ranger da madeira cara. Lugar simples com acontecimentos estranhos, o que, de novo, leva à janela.

Do quarto à cozinha, o corredor é enorme. O idoso tem a certeza de estar em seu lugar. Reclama da cuidadora, sai à procura do relógio perdido que alega ter sido furtado, refugia-se no fone de ouvido com música clássica, no seu sofá surrado.

Ao ouvir um barulho estranho, depara-se com um homem e não o reconhece. O mesmo (Mark Gatiss) diz ser seu genro. Algo não faz sentido: a filha, há pouco, informou-lhe de sua mudança para a França. Quem é aquele homem? Não demora e ela retorna – não mais na pele de Colman, mas na de Olivia Williams. Mudam os atores, alteram-se as peças. 

Mais que embaralhado, o universo do protagonista aos poucos nos faz compreender que as paredes não são resistentes, que a distância entre cômodos não é verdadeira, que os invasores não são assim tão desconhecidos. Na filha, a incerteza sobre o próximo passo, o medo, depois a constatação de que nada pode ser feito. Em momento curioso, ela imagina estar estrangulando o próprio pai, na cama, quando este começa a dormir.

A bondade dela não esvai quando descobrimos o destino de Anthony – o lugar em que muitos estão destinados a terminar, lado a lado à grande máscara tombada. No teatro de repetições ao qual o idoso é legado, os atores escapam das coxias para viverem novos papéis, os filhos mortos retornam, os vivos sofrem pela confusão exposta.

Talvez tudo não passe de um dia – no apartamento ou no asilo. O dia em que a filha saiu para comprar frango e voltou para preparar o jantar do pai, em que este conheceu sua nova cuidadora (ou enfermeira) (Imogen Poots/Olivia Williams), em que o quadro exposto na sala – vida e liberdade na menina em campo aberto e verde – é arrancado de seu horizonte.

Há sempre o detalhe a incomodar: a água que pinga da torneira, a xícara que quebra, o CD riscado. A cada confusão o protagonista retorna à janela. Ao percebermos o local onde estamos, e de onde provavelmente nunca saímos, chegamos ao homem aos prantos, às suas folhas em queda. Ele age como criança, no caminho implacável pelo qual, em algum momento, todos voltam ao ponto de partida, desesperados e nos braços da mãe.

(The Father, Florian Zeller, 2020)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier

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