A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier

Impossível resistir a Renate Reinsve. Tome como exemplo a cena em que ela dança em uma festa que invadiu, sem conhecer ninguém, em um fim de tarde que voltava para casa, sozinha, após sair da exposição de arte do companheiro. Ou, na mesma festa, suas brincadeiras e provocações com outro rapaz, com quem mais tarde mantém uma relação.

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Em A Pior Pessoa do Mundo, ela é impulsiva, troca de cursos com rapidez, simula para si mesma um mundo congelado – pessoas, automóveis, máquinas – para sua corrida até o homem que, naquele momento, pensa amar. Como Julie, Renate é irresistível porque é autêntica: causa dor nos outros porque não renuncia ao seu modo de ser e pensar.

Por tudo isso, será “a pior pessoa do mundo”. Não estamos preparados para ela, que só pode encontrar um freio quando se depara com a morte do ex-companheiro, com câncer terminal. Só uma mudança assim pode justificar a guinada aparentemente condenável do roteiro de Joachim Trier e Eskil Vogt: não é sobre ele, é sobre ela. O filme todo é de Julie.

Trier é o diretor. Seu filme é episódico, com prólogo, 12 partes e epílogo. Uma imersão na mulher que escolhe os “caras errados” e não sabe explicar o motivo. Nem nós. Um filme feito com paixão, no qual as pequenas partes da vida – são muitas – não se contaminam pelo amargor e com frequência se deixam interpelar pela radiância das personagens. Trier, para nossa sorte, não permite que a sucessão de tropeços e vitórias seja maior do que elas.

Julie, ainda no prólogo, salta da medicina para a psicologia e desta para a fotografia. Se a primeira oferece, como diz, apenas a matéria, a segunda dá-lhe uma ideia do humano em seu interior. Na terceira, a estética, em alguma medida o inimaginável, a suspeita de que o humano ideal é sempre algo a ser construído, beleza particular.

Não demora para ela encontrar alguém interessante, o quadrinista Aksel (Anders Danielsen Lie), com quem decide dividir o mesmo teto, o apartamento dele. O que parece ser uma convivência equilibrada passa a ser atingida por antagonismos inexplicáveis, a começar pela própria imprevisibilidade da protagonista, seus impulsos e desejos.

Surgem os parentes dele, a exposição em que ele é o centro das atenções, as conversas de alto nível intelectual que talvez a façam se sentir deslocada. Talvez o mundo dele – a “melhor pessoa do mundo” – não possa ser o dela. E é nesse retrato honesto sobre os rascunhos que criamos para os outros que o filme alicerça-se: para Trier, com frequência a fidelidade aos próprios desejos será vista pelos demais como uma face da maldade.

Ao longo da história, tão próximos de Julie, chegamos a encarar seu interior confuso – podia ser diferente? – quando ingere cogumelos alucinógenos. O mergulho coloca-a frente a frente com o pai e o ex, de pernas abertas, vagina com sangue; depois torna seu corpo mais velho (o rosto continua o mesmo), com gordura de sobra, tocado por aqueles que a rodeiam.

O instante que antecede a escolha de seu rompimento com Aksel é cruzado pela já citada sequência do mundo parado. Para Julie, os segundos tornam-se uma corrida de liberdade, fuga para os braços do rapaz (Herbert Nordrum) que conheceu na festa que invadiu. É como se ninguém – à exceção do novo companheiro, foco de seu sentimento e de aspecto inocente – pudesse reagir a ela. Toda a vida emana da personagem.

A primeira imagem do filme mostra a protagonista com um vestido preto, de olho em algo que desconhecemos. Local aberto, cidade ao fundo. Está ali o ponto de virada, parte dos recortes ousados de Trier, momento em que ela decide deixar a exposição do companheiro e caminhar sozinha até tomar outra decisão que mudará tudo. Trier apresenta um casco de beleza e aparente equilíbrio, uma mulher que acreditamos ser capazes de decifrar.

(Verdens verste menneske, Joachim Trier, 2021)

Nota: ★★★★☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar

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