Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar

Antes de encontrarem as ossadas, os pesquisadores encontram a cápsula de uma bala. Sinal de violência, execução, de que naquele campo aberto, há décadas, foram mortas e enterradas algumas das várias vítimas da Guerra Civil Espanhola. Em Mães Paralelas, a fotógrafa Janis (Penélope Cruz) busca os restos mortais de seus antepassados.

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A necessidade de encontrar os mortos e lhes dar enterro digno, de descobrir a própria história e ter direito ao luto, toca outra necessidade: ser mãe. Aos poucos, morte e vida entrelaçam-se no melodrama sem exageros do cineasta Pedro Almodóvar. Temos aqui o alimento de seu cinema: destino, feminilidade, política, dores maternas, cores fortes.

As mães paralelas são duas mulheres diferentes que se encontram na maternidade. Ambas dão à luz no mesmo dia, ambas mães solteiras. De um lado, Janis, um pouco mais velha, ciente do passado recente de seu país e, por isso, de seu lugar no mundo. Do outro, uma menina aparentemente imatura, a adolescente Ana (Milena Smit).

Nesses dias em que se descobrem mães, as mulheres têm as filhas trocadas na maternidade. Com o tempo, Janis repara nos traços de sua bebê e passa a desconfiar de que não é sua filha genética; Ana vive drama ainda maior: sua bebê morre de modo inexplicável, porém possível no mundo em que Almodóvar esculpe como resultado do que soa como acaso.

A troca é o motor de praticamente todos acontecimentos seguintes para essas mulheres que voltam a se encontrar e dividir o mesmo teto, que passam a manter uma relação amorosa. Para Almodóvar, em algum momento terão apenas elas mesmas. É uma saída, alívio, desejo de consumir o feminino em sua totalidade. O sexo com o homem (Israel Elejalde) será bruto, intenso; com a mulher será feito de sensibilidade, leveza, sombras, com o deslize da boca de Ana pelo corpo de Janis e para fora do campo. Na verdade, uma sequência feita com livre falsidade, em certa medida cafona, idealização do sexo do cinema.

Para Janis, é preciso olhar à realidade, encará-la, a ponto de não conseguir guardar apenas para si mesma o segredo que carrega: a certa altura, depois de viver por algum tempo com Ana, ela conta para a companheira que a bebê é sua filha. Sentindo-se traída, a outra faz as malas, toma a criança nos braços e vai embora do apartamento da companheira.

Não é esse, contudo, o desfecho almejado por Almodóvar. O diretor guarda espaço para sua outra ponta narrativa, arquiteta o citado toque possível entre vida e morte, entre nossa necessidade de enterrar os antepassados e ter no colo – no seio – o que reproduz um sentimento inexplicável – para Almodóvar, a maternidade.

O desfecho inclui o caminhar para o reencontro, a confirmação dos excessos de um país manchado de sangue pelo franquismo: a imagem dos ossos na vala em forma de cruz. É a cena mais triste do filme; aos que olham só resta lamentar e entender do que eles – uma nação, um grupo, amigos, parentes, vizinhos – um dia foram capazes.

Janis alerta Ana sobre a necessidade de olhar para o passado, saber quem são seus parentes, para assim entender sua formação. Almodóvar reivindica a necessidade de se encontrar na História e por esse caminho adquirir consciência. Descobrimos, nas tantas voltas do filme, que Ana é fruto de uma gravidez indesejada, que seu pai ausentou-se.

O drama passado da menina inclui negação e abusos. Não sabe ela nem quem é o pai de seu filho, pois entregou-se, chantageada, a três meninos ao mesmo tempo. A mãe, interpretada por Aitana Sánchez-Gijón, é uma atriz de teatro sem tempo para a filha; a certa altura, em relato sincero, explicita o mundo de falsidades da burguesia espanhola.

Almodóvar não economiza nas elipses, sobretudo no desenrolar inicial. Mesmo com saltos arriscados, com tanto em tão pouco tempo, o realizador consegue dar profundidade a esse drama de mulheres, sempre com fôlego, sem pressa, para nos dizer que, ao contrário dos mortos, que precisam ser identificados para serem enterrados, identificar os vivos – e a nós mesmos, por extensão – é muito mais complexo, com consequências inimagináveis.

(Madres paralelas, Pedro Almodóvar, 2021)

Nota: ★★★☆☆

SOBRE O AUTOR:
Rafael Amaral é crítico de cinema e jornalista (conheça seu trabalho)

Veja também:
Ataque dos Cães, de Jane Campion

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